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O pensamento reflexivo no dia a dia escolar

Telma Vinha comenta os desafios da Educação moral

POR:
NOVA ESCOLA
Telma Vinha,

Telma Vinha,
Professora de Psicologia Educacional da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Toda instituição educativa almeja que seus alunos aprendam a resolver conflitos de modo cooperativo e respeitoso. Contudo, para isso é preciso que eles consigam perceber a perspectiva do outro, agir com flexibilidade e pensar criticamente. Tais capacidades são importantes tanto para esses momentos quanto para compreender algo novo e resolver problemas complicados. 

Uma das formas de ajudá-los nesse desenvolvimento é propor situações, perguntas e desafios ligados à convivência e à aquisição de conhecimento que tornem visíveis os pensamentos deles. Explicitar como se posicionam e justificam suas escolhas permite que o professor contribua para estimular reflexões cada vez mais complexas e conscientes. Algumas dessas estratégias são as chamadas rotinas de pensamento, metodologia proposta por um grupo de pesquisadores da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, como parte do projeto Pensamento Visível. 

A rotina é um modo de lidar com a complexidade do mundo. Ela permite reconhecer padrões e realizar tarefas repetitivas mais facilmente, quase de forma automatizada. Uma vez que algo se tornou hábito, é difícil abandoná-lo. Na escola, pelo fato de interagirem com frequência com propostas pouco desafiadoras, muitos alunos as realizam de maneira automática, apenas recuperando e reproduzindo informações sem analisá-las ou pensar sobre elas. No entanto, estudos indicam que para modificar uma rotina o ideal é substituí-la paulatinamente por outra mais efetiva para favorecer o desenvolvimento dos estudantes, que é a ideia dos pesquisadores americanos.

São propostas simples, que estruturam as discussões em sala e estimulam a compreensão dos alunos sobre determinado tema. Uma delas, por exemplo, se chama rotina da bússola. Ela consiste em pedir que os estudantes escrevam sua opinião sobre um problema ou uma situação usando os quatro pontos cardeais, desta maneira:
N Qual o lado Negativo dessa situação?
O Qual a visão Otimista, o que há de bom?
S Que Sugestões você daria para evoluir?
L O que você precisa Ler e conhecer para poder se posicionar com mais efetividade? 

Essa dinâmica pode ser usada em momentos de discussão sobre um assunto, contribuindo para que os estudantes reconheçam nuances nas situações, percebam que sempre há o que aprender e compreendam pontos de vista diferentes. Um outro exemplo de proposta é acostumar-se a perguntar: O que leva você a dizer isso?. Essa questão é neutra e representa um convite para que o outro conte mais, explique o que pensa. É uma maneira respeitosa de valorizar uma ideia e tentar entender melhor antes de julgar ou posicionar-se. Transformar isso em algo habitual contribui para a criação de um clima de respeito. 

As rotinas de pensamento ajudam cada um a refletir sobre o que pensa em relação a um assunto e a explorar como e por que esse pensamento se alterou. Podem ser classificadas conforme seu potencial de desenvolvimento em questões relacionadas à ética, à verdade, à compreensão e à criatividade. Repetindo o uso dessas estruturas com frequência, o professor introduz e cria uma nova prática, incentivando constantemente os alunos a se comportar de maneira reflexiva. 

O trabalho com elas contribui para que os estudantes desenvolvam a capacidade de analisar as diferentes perspectivas, não tomar partido, pensar criticamente e perceber que em situações complexas não há apenas certo e errado.


Em colaboração com Cesar A. A. Nunes, pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem), da Unicamp.

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