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Qual deve ser o limite da interdisciplinaridade?

Felipe Bandoni fala sobre o dia a dia do professor

POR:
NOVA ESCOLA
Felipe Bandoni,

Felipe Bandoni,
Professor de Ciências na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo

Já ouvi muitas vezes que um dos grandes objetivos da Educação é dar ferramentas que ajudem os estudantes a resolver os problemas enfrentados ao longo da vida. Mas, no mundo real, os obstáculos não estão divididos em disciplinas, como acontece na escola. Ao procurar soluções para as questões do nosso dia a dia, com frequência precisamos utilizar estratégias e informações de várias áreas. Para dar conta dessa demanda da sociedade, algumas instituições recorrem a uma abordagem interdisciplinar.

Esse tipo de trabalho ainda é exceção. Como regra, as matérias são planejadas de maneira independente, sem a preocupação de que interajam entre si. Por esse motivo, muitos docentes e gestores encontram dificuldades quando criam um projeto que una diferentes disciplinas.

A primeira delas está na situação que uma colega chamou de "princesa Isabel vai à feira". Ela aparece quando se tenta forçar conexões entre assuntos distantes, o que soa artificial, como a ideia dessa figura histórica fazendo cálculos durante as compras. Esse problema ocorre se um professor é obrigado a participar do projeto mesmo quando não encontra relação entre os objetivos de aprendizado de sua área e o tema escolhido. Ao eleger um grande tópico ao redor do qual a escola se mobilizará durante certo período, deve-se ter em mente que nem todo conteúdo fica bem acomodado num trabalho desse tipo. Nesses casos, faz mais sentido abordá-lo isoladamente do que criar situações absurdas apenas para inseri-lo.

Outro exemplo de dificuldade são as propostas "escola de samba", em que tudo é paralisado para que o "bloco" interdisciplinar possa passar. O cotidiano, então, fica dividido em dois momentos distintos o da aula e o do projeto que não estão associados entre si. Muitos professores acabam insatisfeitos com essa situação e reclamam por ter de interromper o que já estava planejado. A raiz do problema aqui é, mais uma vez, a falta de conexão com as expectativas específicas da matéria.

Como resultado, as atividades dedicadas ao projeto nem sempre fazem com que os alunos avancem nos conhecimentos da área.
Embora tenham grande potencial, propostas interdisciplinares requerem uma cuidadosa coordenação da equipe, a listagem dos objetivos de cada docente envolvido e, por definição, devem trazer aprendizagens que transcendam as disciplinas. Deve-se ter clareza, portanto, que quando a escola elege um assunto como importante, todos precisam se mobilizar ao seu redor. Por vezes, é necessário deixar de lado alguns conteúdos.  Afinal, nosso tempo com os alunos é limitado.

Onde trabalho, recentemente elegemos sustentabilidade como um tema transversal. Para incluí-lo nas aulas de Ciências, em algumas turmas minha opção foi substituir atividades relacionadas ao corpo humano pelo estudo da energia, que tem mais ligações com o assunto. Assim como eu, meus colegas tiveram a chance de se reorganizar de maneira que contribuíssem com o projeto, integrando-o realmente ao planejamento.

Não existe fórmula mágica que garanta o sucesso de propostas interdisciplinares, mas já se sabe que, para dar certo, toda a equipe deve opinar. Desse modo, ninguém precisará parar o que já estava planejado ou inventar conexões sem sentido. Isso não significa que as aulas devam tratar de um único tópico, mas que certas escolhas precisam ser feitas para favorecê-lo. 

Cada docente contribui de maneira diferente, de acordo com o que considera produtivo. E, assim, quadros que representem a abolição da escravatura, assinada pela princesa Isabel, podem até inspirar o trabalho de Arte, mas não é preciso fingir que a corte pechinchava com feirantes.

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