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De excluída a militante, hoje quero defender os jovens LGBT

É estudante e participa do transcidadania, programa da prefeitura de São Paulo

POR:
Wellington Soares e NOVA ESCOLA
Transexual, Amanda retomou os estudos com apoio do programa Transcidadania | Foto: Ramón Vasconcelos

"Há 15 anos, eu ingressei no Ensino Médio para fazer o curso Normal. Pensava que faria carreira como professora. Dois anos depois, desisti do sonho e larguei os estudos. Na época, passava pela transição para adequar minha aparência física ao que de fato sou: uma mulher transexual. Mas as chacotas e o preconceito eram intensos na instituição que eu frequentava. Fui até ameaçada fisicamente. Não dava para continuar.

Ainda que eu ficasse na escola, sinto que não adiantaria nada. Até hoje, entrar no mercado de trabalho formal é difícil. Muitas amigas, também transexuais, mesmo após a faculdade, não se empregaram na área de fomação delas. Sempre quis retomar os estudos, mas não me sentia segura, por medo de se repetir o que vivi no passado. Afinal, a sociedade não mudou o modo como nos trata.

Em janeiro, soube que a prefeitura de São Paulo havia iniciado o programa Transcidadania, para apoiar travestis e pessoas trans no retorno à escola. Me inscrevi e fui chamada. A iniciativa me ajudou na procura por uma instituição onde eu pude frequentar a Educação de Jovens e Adultos(EJA), prometendo apoio caso alguma situação de violência acontecesse. Durante o primeiro semestre, concluí o Ensino Médio. 

Além disso, passei a receber uma bolsa-auxílio mensal para garantir minha permanência e a frequentar um curso de direitos humanos e cidadania de LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais). Com as aulas, pude me envolver na militância, e até participei de manifestações durante a votação do Plano Municipal de Educação. Fomos à Câmara de Vereadores protestar pela inclusão das questões de gênero e diversidade sexual no documento. Infelizmente, perdemos. 

Agora, frequento aulas preparatórias para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O programa também está auxiliando a mim e a minhas colegas na busca por uma vaga no Ensino Técnico e por um emprego com carteira assinada, em uma empresa que nos respeite. Por indicação da equipe do Transcidadania, estou concorrendo na eleição de conselheiros tutelares. Quero ser a voz de estudantes LGBT que, como eu, enfrentam situações de violência na escola e fora dela."

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