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Bens culturais em alta

Saberes locais norteiam as propostas em sala (e fora dela) e enriquecem o aprendizado dos estudantes

POR:
Jacqueline Hamine, Fernanda Salla e Anna Rachel Ferreira

Todos os dias, estudantes, professores e funcionários da EMEIEF José de Moura, em Maranguape, região metropolitana de Fortaleza, se deparavam com um grande casarão rosado nos arredores da instituição de ensino. Assim como a capela e o açude que o acompanham, ele foi construído por José de Moura Cavalcante, que fundou a comunidade em 1839. Fechado por anos, era apenas mais um elemento da paisagem, sem despertar grande interesse dos moradores. A relação com a casa começou a mudar em 2005, quando foi dado início à criação de um centro cultural no lugar e a Educação patrimonial passou a fazer parte do projeto político-pedagógico (PPP) da escola, com foco nos bens culturais da região.

O casarão de Maranguape foi transformado em Ecomuseu. Foto: André Menezes

O Dia do Patrimônio Histórico é 17 de agosto, mas falta muito para que a formação histórica de cada lugar ganhe a atenção devida. Com isso, grande parte dessa herança pode se perder. Um dos problemas é a desinformação, a começar pelo conceito, que deve ir além de riquezas acumuladas ou de construções tombadas. Ele engloba a bagagem cultural (material e imaterial). Sabe aquela receita de família que passou de mãe para filho até chegar a você? Ou a brincadeira ensinada por seu pai e que as crianças jogam até hoje nas ruas do bairro? Esses também são exemplos de patrimônio, que é o conjunto de manifestações, realizações e representações de um povo. 

Segundo dados de 2014 da Coordenação de Educação Patrimonial (Ceduc) do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), 775 escolas no Brasil desenvolvem projetos de valorização dos bens locais com uso de material elaborado pela entidade (em abr.ai/material-educacao-patrimonial) em uma iniciativa ligada ao Mais Educação, do Ministério da Educação (MEC). Porém, esse não é o único modo de incluir o tema nas aulas e propostas descoladas do programa, como as retratadas nesta reportagem, também podem alcançar bons resultados.

"Se um modo de ser, viver e trabalhar de uma época é algo que representa aquela localidade, deve ser comunicado na escola e preservado", diz Sueli Furlan, professora da Faculdade de Geografia da Universidade de São Paulo (USP). Esse princípio é o que norteia a Educação patrimonial. Sônia Regina Florêncio, coordenadora dessa área no Iphan, explica que o instituto acredita em um processo educativo de construção coletiva do que deve ser protegido para as próximas gerações. "Assim, a própria comunidade analisa seus bens e elege o que é patrimônio", diz. 

Cultura local revisitada

No Museu, há uma exposição de objetos e documentos que contam a história local. Foto: André menezes

Na escola maranguapense, a preocupação com essa questão nasceu depois da visita ao local da ONG Fundação Terra, da mesma cidade, que propôs à população pensar em ações de promoção do desenvolvimento sustentável. Seguindo os pilares desse conceito, todos foram mobilizados a recuperar objetos, fotografias e outros documentos que resgatassem a memória da época em que a família Moura vivia ali. Esses artefatos compõem hoje o acervo permanente do Ecomuseu de Maranguape, localizado no antigo casarão, o que inclui, por exemplo, um prato de porcelana francês dado por José de Moura a sua terceira esposa. 

A equipe da ONG também orientou os jovens em um mapeamento com as famílias para levantar histórias  da região e características geográficas e culturais. O trabalho foi sendo incorporado às atividades da escola e o currículo foi repensado para valorizar os saberes e fazeres da comunidade. 

Nas aulas de Arte, por exemplo, o ensino nos anos iniciais inclui o estudo do baile do menino Deus e do reisado, duas encenações tradicionais do Natal do Nordeste tomadas por regionalismos. A garotada entrevista adultos para colher informações, pesquisa os personagens e ainda confecciona as indumentárias, usadas no dia do espetáculo. "Esse aprendizado ajuda a turma a compreender o valor da própria identidade, muitas vezes diminuída em relação à sociedade urbana", conta Francisco de Oliveira Araújo, professor da área.

A escola e o Ecomuseu trabalham em total sintonia. Todos os anos, estudantes se tornam agentes jovens, com a função de conduzir visitas ao local, desenvolver pesquisas e oficinas de organização de acervo e cuidar da administração do bem patrimonial. Lá também funcionam  o cinema comunitário e o Pontinho de Leitura. A formação é feita pelos veteranos no trabalho. As crianças esperam ansiosas a hora de poder atuar na função, o que ocorre a partir do 3º ano do Ensino Fundamental. "Sonhava em ser agente jovem", conta José Eduardo Freire da Silva, 11 anos, que faz parte de um grupo de 30 alunos e ex-alunos na atividade. Eles ainda passam por cursos sobre museologia e expressões culturais. 

Entre as iniciativas realizadas por eles estão as oficinas de levantamento de dados para alunos do 3º ao 9º ano, em que são ensinados procedimentos de pesquisa enquanto resgatam informações locais. Um dos trabalhos feitos foi o mapeamento do patrimônio do distrito de Cachoeira, onde está a instituição de ensino. Os estudantes pesquisaram comidas típicas, costumes, festas populares, lendas e outros elementos da história passada e presente. O levantamento resultou em uma apostila usada na disciplina de Arranjos Educativos Locais (AEL), voltada ao estudo da região e que faz parte da grade curricular. 

O mesmo processo está sendo feito com os distritos de Boa Vista e Riacho Verde, onde mora a aluna Layane Pereira da Silva, 12 anos, que guiou sua turma do 7º ano em um tour por lá. Na visita, todos conheceram a escola desativada e ouviram histórias dos fundadores. 

Os conhecimentos desenvolvidos na interação com o museu servem de subsídio para outros conteúdos que envolvem pesquisas, idas a campo e entrevistas, como o estudo da produção do beiju (conhecido como tapioca), em que os estudantes acompanham a produção na casa de farinha próxima à escola. "Também sempre convido moradores para compartilhar os saberes deles com os meus alunos", conta Maria Alice de Lima Freira, professora de AEL e ex-agente jovem.

As iniciativas de Educação patrimonial ainda incluem plantios sustentáveis e atividades de reflorestamento. "Há uma ligação entre as condições físicas de um lugar e os modos de viver de uma sociedade. Para manter o patrimônio, o meio ambiente precisa ser preservado", diz Sônia. 

Os fazeres passados por gerações

Em Campo Grande, a garotada lida com os animais, com tarefas como ordenhar a vaca. Foto: André menezes

Ações semelhantes ocorrem a cerca de 3 mil quilômetros dali, na Escola Agrícola Governador Arnaldo Estevão de Figueiredo, em uma fazenda desapropriada na zona rural de Campo Grande. Os alunos aprendem a preservar os fazeres da região e entendem mais sobre desenvolvimento sustentável. "Não se deve enxergar o patrimônio como algo morto, do passado, para valorizar e manter, e sim como algo que também se insere na cultura contemporânea em uma releitura", explica Sueli. Segundo ela, essa perspectiva não se restringe à Educação no campo. Os grandes centros também têm conhecimentos, características históricas e geográficas que o fizeram ser o que são e, portanto, devem ser valorizados.  

Quando foi criada, em 1997, a Escola Agrícola atendia a filhos de trabalhadores rurais. Por isso, a concepção de ensino foi pensada de modo a qualificar a população para afazeres do campo - originalmente a criação de gado. Hoje, além do Fundamental, ela conta com Ensino Médio Técnico em Agropecuária. Os estudantes desenvolvem conhecimentos ligados aos saberes da comunidade e que contribuem para o enriquecimento das práticas locais. Porém, não ficam restritos a profissões ligadas à terra. "Eu ainda não sei o que quero estudar, mas nossa escola me dá condições de entrar em qualquer curso universitário", diz o aluno João Vitor Martin Oshiro, 14 anos.

Em todas as etapas, as aulas ultrapassam o ambiente das salas. O complexo da fazenda conta com os setores de cultura de bois, porcos, peixes, aves e verduras e legumes orgânicos, além da cozinha experimental, cada um deles com um profissional qualificado que auxilia a garotada durante os projetos. "Depois de lermos textos e analisarmos imagens sobre a produção da beringela, levei os alunos do 2º ano para plantá-la junto com o professor Adalberto Gonçalves Lino, responsável pela horta orgânica", diz Aparecida de Jesus Paes de Barros, docente de Iniciação às Práticas Agrícolas e Zootécnicas. 

Para espantar pulgões, os alunos preparam a calda de fumo, um pesticida orgânico. Foto: André menezes

A partir do 6º ano, essa disciplina específica se divide em duas: de Práticas Agrícolas e de Práticas Zootécnicas. A lida com a terra e com os animais se intensifica e os saberes teóricos e práticos são aprofundados. "Eles aprendem sobre o controle de pragas e a fazer a calda de fumo, uma mistura de fumo, citronela, álcool e água que é um e pesticida orgânico usado para espantar pulgões", conta Adalberto. No dia a dia com os animais (bois, porcos, galinhas e peixes), a turma passa a acompanhar vacinas e procedimentos cirúrgicos. 

No 8º ano, é adicionada mais uma disciplina à grade, a Cozinha Experimental, que habilita a turma a desenvolver práticas comerciais e industriais na própria escola, como de produção e venda de queijos e doces tradicionais da região, a exemplo do de abóbora e de acerola. Dessa maneira, os estudantes valorizam os saberes locais ao mesmo tempo que desenvolvem conhecimentos científicos para que possam aprimorá-los. "Tenho parentes que têm sítios. A maioria é leigo e, muitas vezes, eles vêm tirar dúvidas comigo", conta orgulhoso Cássio José Ferraz Santos, 17 anos, aluno do Ensino Médio Técnico.

Esse orgulho de pertencer a um lugar, conhecer suas origens e dar importância a elas, para melhorar a realidade, é a base da Educação patrimonial. Assim, a sociedade caminha fazendo jus ao que ficou para trás e aprimora o que vem a frente.