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Faltam para  

Motivos para não abandonar a carreira

Há muitos. O mais forte deles: os professores são os verdadeiros protagonistas das mudanças, pois podem transformar a realidade da escola

POR:
Luis Carlos de Menezes
Luis Carlos de Menezes. Foto: Marina Piedade
Luis Carlos de Menezes é físico e educador da Universidade de São Paulo (USP)

Esta coluna tem comunicação direta com professores em condições bem diversas, pois NOVA ESCOLA fala com quem chega à escola de metrô, ônibus, barco, carro e bicicleta; com aqueles que carecem de materiais básicos e com quem acessa a internet em classe; com quem ainda não se formou e quem já se especializou. Por e-mail e em visitas a escolas, os diálogos que travo com docentes dão lições de esperança e de superação, mas também mostram por que alguns pensam em deixar a escola.

Entre o fim do ano passado e o começo de 2012, me correspondi com um professor disposto a mudar de profissão. Desanimado, ele se queixava da carreira, mal estruturada e mal remunerada, da dificuldade de tratar com estudantes inquietos e famílias ausentes e da falta de políticas para apoiar seu trabalho. Cada uma das razões tem fundamento e, quando se somam, parecem justificar o desânimo de quem trabalha demais, ganha de menos e ainda leva a culpa por insucessos causados por razões estruturais.

Como não concordo com a desistência diante dessas adversidades, tentei mostrar a ele que, a despeito disso tudo, vale a pena prosseguir. Portanto, vou tratar de cada um desses aspectos, pois podem servir de alento para professores que, à semelhança desse leitor, estejam cogitando abandonar a profissão.

Começo pelo mais difícil: carreira. É fato que a ampliação do atendimento escolar no Brasil demandou enorme aumento no número de professores, com perda de status e salário. No entanto, a exigência da formação superior para todos os educadores e do piso nacional para sua remuneração, mesmo que não totalmente cumprida, já sinaliza um novo entendimento sobre o trabalho docente. Hoje, por exemplo, valorizamos quem trabalha na Educação Infantil, o que antes nem sequer era considerado profissão. Esse é ainda um caminho acidentado, que estamos pavimentando.

Segundo problema: o atendimento a alunos inquietos. Lecionar para esse público requer difíceis mudanças de estratégia. Aliás, essas novas maneiras de ensinar - bem diferentes do que vimos em nossa formação - são necessárias para acompanhar o novo mundo do trabalho, que exige pessoas autônomas. Essa tarefa tem tornado o trabalho de educar muito mais criativo e estimulante.

Por último, trato das políticas públicas. Os professores têm sido os reais protagonistas da reinvenção da escola. Afinal, o ensino deixou de ser linha de transmissão. O desejado, agora, é promover situações de aprendizagem e, para isso, os educadores precisam se aperfeiçoar. Nesse sentido, contam com o apoio de programas governamentais que facilitam o acesso à formação superior e a especializações. Já as políticas de avaliação escolar, apesar de estimularem discutíveis classificações de escolas, protegem os docentes de julgamentos por vezes arbitrários ao darem critérios de aferição do aprendizado.

Enfim, há um difícil caminho ainda por percorrer, mas estamos no rumo certo. Os argumentos aqui reunidos retomam minha correspondência com leitores, suas conquistas e seus desencantos. No entanto, há outras dezenas de razões para continuarmos nossa tarefa. Muitas delas estão por trás de cada par de olhos que nos acompanham em aula. Ignorá-las seria abandonar as perspectivas de todos os nossos jovens, algo bem mais difícil do que contestar meus argumentos. Felizmente, eles foram aceitos pelo leitor que me escreveu. Eu me alegro em dizer que ele continua em sala de aula, desempenhando suas funções.

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