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Um ditado para a gente fazer junto

Enquanto o professor lê, a turma tira dúvidas e troca ideias sobre a escrita das palavras

POR:
Patrick Cassimiro, Ana Ligia Scachetti e Larissa Teixeira

A prática de ditar um texto para a classe foi muito usada antigamente e muitas vezes é tida como ultrapassada. De fato, o ditado realizado de forma mecânica e sem intenção didática clara deve ser evitado. Distanciando-se dessa pecha, a atividade pode ser planejada de maneiras diferenciadas e que contribuam para o avanço da turma. As pesquisadoras argentinas Emilia Ferreiro e Ana Teberosky esmiúçam as possibilidades dessa prática para a sondagem das hipóteses de escritas dos alunos da alfabetização. Conforme as crianças avançam na compreensão do sistema alfabético e o professor deseja promover reflexões sobre a ortografia, pode-se recorrer a ela novamente e realizar o chamado ditado interativo. 

Nessa proposta, os alunos são organizados em duplas ou pequenos grupos para que troquem ideias e discutam sobre a escrita. "O ditado interativo colabora para que se pense sobre palavras que contêm uma dificuldade ortográfica - por exemplo, G ou GU; S, Z ou SS. O professor lê um texto conhecido pela turma e pergunta como se escreve determinado termo", descreve Artur Gomes de Morais, docente da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Os alunos trabalharam em duplas, discutiram possibilidades e um deles foi o escriba. Crédito: Raoni Maddalena

Segundo Célia Prudêncio, formadora do Programa Ler e Escrever, em São Paulo, essa interação visa possibilitar a tomada de consciência sobre a grafia das palavras. Por isso, a atividade pode ser realizada várias vezes durante o ano. "O debate cria uma atitude de dúvida em relação à escrita. As crianças percebem aspectos que nunca tinham pensado antes e o comentário de um vai mudando o olhar do outro", aponta.

Uma das condições para realizar a proposta é escolher o trecho de um texto que já foi trabalhado, o que garante sentido para o que será escrito. "O fato de o material já ser conhecido ajuda as crianças a focar nas palavras e brincar com elas", destaca Morais. Antes de iniciar o ditado, porém, é importante ler com todos a versão integral do texto para que eles relembrem o conteúdo. Poemas, contos e fábulas apresentados em aulas anteriores podem servir como base para abordar uma ou várias dificuldades identificadas.

Debate sobre texto conhecido

Na EE Professora Josefina Maria Barbosa, em São Paulo, a educadora Graziella Giovanna Rocco sentiu a necessidade de trabalhar com a ortografia regular (aquela em que há regras) ao observar que os alunos do 2º ano estavam com dificuldade para diferenciar o S do SS. Depois de analisar as produções da turma, ela resolveu ditar a fábula A Rosa e a Borboleta, do livro Fábulas de Esopo (96 págs., Ed. Companhia das Letrinhas, tel. 11/3707-3500, 44 reais), que as crianças já conheciam e continha termos que colaboravam para a discussão que ela desejava promover.

Para iniciar, ela leu o texto completo e explicou o que iria fazer. Depois, dividiu a turma em duplas e orientou que um dos estudantes deveria escrever e o outro acompanharia, contribuindo com a escrita. "Um dos alunos pode ser o escriba porque a grafia do texto é resultado da discussão. O que mais interessa é o debate que gera a reflexão e a tomada de consciência, procedimentos cognitivos muito importantes no processo de aprendizagem", afirma Célia.

Enquanto a classe escrevia cada trecho, Graziella caminhava pela sala e mediava os debates para que todos trabalhassem em parceria, com o cuidado de não fazer correções. "A discussão precisa ser respeitosa, os alunos têm de saber ouvir e argumentar nas duplas. A intervenção do docente deve ser no sentido de mediação, questionando as justificativas de cada um", explica Marly Barbosa, também formadora do Ler e Escrever.

Sem fazer correções, Graziella circulou nas mesas e conferiu como estavam os debates. Crédito: Raoni Maddalena

Durante o ditado, a qualquer momento, a turma podia interromper a professora para tirar dúvidas. Em vez de dar a resposta correta, ela questionava como eles achavam que a palavra deveria ser escrita, anotando as hipóteses no quadro. No fim da leitura, a docente organizou uma reflexão coletiva, apoiada pela lista que foi composta anteriormente. As primeiras dúvidas da classe foram em relação às palavras "rosa" e "desenho". Graziella, então, questionou: "Como vocês escreveram?". Alguns disseram que haviam feito com S, outros com Z ou ainda com SS. 

"As crianças estavam em dúvida e perguntaram 'se as palavras têm som de Z, por que escrevemos com S?'", lembra a educadora. Então, ela apresentou a regra ortográfica que se aplica à leitura desses termos: S entre vogais representa o som de Z, como em "rosa" e "desenho". Já o SS é usado para representar o som de S entre vogais, como em "massa". Quando se trata de palavras irregulares, o educador deve explicar que não há uma regra definida. E, claro, também é importante avisar que muitas vezes há exceções.

As hipóteses foram colocadas no quadro e discutidas coletivamente. Crédito: Raoni Maddalena

A classe também teve dificuldades com o uso de S e SS nas palavras "assim", "disse" e "promessas". Alguns utilizaram apenas um S ou, ainda, disseram que o som era de cê-cedilha. Todas as possibilidades foram discutidas coletivamente. "Ao contrastar formas corretas e erradas possíveis, o aluno toma consciência da dúvida que tem e vai elaborando a regra em foco. Isso requer uma sequência, na qual, ao longo de quatro ou cinco aulas, o docente faz várias atividades enfocando a dificuldade específica", explica Morais.

Para terminar a sequência, pode-se realizar uma sistematização da discussão ou das descobertas e pedir que as crianças justifiquem o que escreveram. "Os alunos apresentam a forma como determinada palavra deve ser grafada e defendem a opção, enquanto o professor registra. No final,  ele propõe o debate, verificando a que é mais representativa ou coerente, transcreve para um cartaz e prende na parede da sala. Assim, em outra aula, quando discutirem o mesmo tipo de regularidade, é possível recorrer ao material e rever o que já se sabe sobre essa regra", propõe Célia.

Ao realizar o ditado várias vezes durante o ano letivo, abordando aspectos diferentes, o docente colabora para que o estudante reflita sobre as regras ortográficas e comece a escrever com mais autonomia. "O ditado interativo pode ser realizado uma vez por semana, de acordo com as necessidades de aprendizagem identificadas. No meu caso, percebi que havia uma demanda e trabalhei para sanar as dificuldades específicas que observei", completa Graziella.