Seções | Contraponto

Interações essenciais no primeiro ano de vida

Reflexões de Lino de Macedo

POR:
NOVA ESCOLA
LINO DE MACEDO,

LINO DE MACEDO,
professor aposentado do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP)

Comparar a criança recém-nascida e na ocasião de seu primeiro aniversário é algo que impressiona por causa das transformações físicas e comportamentais pelas quais ela passa. Uma das mais importantes é a capacidade de comunicação ou relação consigo mesma, com os outros e com os objetos. Ao longo de 12 meses, ela aprende a integrar as diferentes partes de seu corpo, que ela regula ou controla de várias maneiras. Seu conhecimento sobre as coisas aumenta gradualmente: percebe cheiro, gosto, temperatura, cor, forma e sonoridade e desenvolve modos de interagir ou brincar com elas.

Esses domínios sensoriais e motores sobre si mesma e os objetos são preciosos para seu futuro, pois se transformam em imagens de som, visão, tato, sabor e tudo o mais que ela precisa para fazer relações e pensar de maneira simbólica. Ou seja, aquilo que agora é perceptível ou realizável por ações motoras (expressão externa), poderá ser, logo mais, apenas pensado ou imaginado (internalizado).

Já a comunicação nasce por meio da relação com pessoas, sobretudo as que lhe são queridas. Elas a estimulam a sorrir, olhar, imitar, ouvir melodias. Fazem isso ao falar, ler histórias, dar banho, pôr e tirar suas roupas, colocar para dormir, alimentar, cuidar e se importar com ela. Desse modo, produzem na criança o desejo de aprender a realizar tais tarefas e se interessar em dizer seus nomes, a descrever seus atos e sensações. Enquanto os adultos nomeiam e qualificam suas ações durante a rotina, ela vai conseguindo compor as narrativas do que acontece. Por exemplo, na hora do banho, se a mãe ou cuidadora conversa com a criança, como é indicado na matéria de capa desta edição, ela pode, junto com a experiência, ouvir e acompanhar mesmo sem entender o que se diz. Assim, começa a fazer correspondências entre seu mundo sensório-motor e as palavras e os gestos dos adultos. Essas situações, se bem aproveitadas pelos educadores e os pais, têm um papel inestimável e fazem diferença mais tarde.

Na perspectiva do indivíduo, o bebê deve ter o máximo de oportunidades para se comunicar, pois seu cérebro é estimulado e se desenvolve. Na perspectiva da sociedade, crianças saudáveis e bem cuidadas têm mais chance conforme comprovado em pesquisas de oferecer o melhor de si quando adultas. Mas nem sempre as condições de crescimento são tão maravilhosas. Alguns pequenos experimentam formas negativas de interação com os adultos de quem dependem para viver e aprender ou com o ambiente onde moram. Negligência, abuso, ambivalência e falta de condições básicas produzem estresse tóxico e prejudicam o desenvolvimento. Muitos pais são doentes ou desestruturados social ou emocionalmente e não podem, mesmo que o queiram, cuidar do filho. Sensíveis, as crianças reagem bem ou mal a pessoas e objetos.

Investir em saúde e Educação no primeiro ano de vida, com amor e cuidado, talvez seja a maior poupança que se possa fazer. Mas isso supõe generosidade, paciência e visão de longo prazo. Generosidade para nos darmos aos pequenos por inteiro. Paciência para respeitar suas características, seu modo de ser e o tempo que precisam para se desenvolver. Visão de longo prazo porque o bem que lhe fizermos só será plenamente reconhecido quando esse bebê se tornar um adulto, quem sabe, melhor do que nós mesmos. 


Foto: Ramón Vasconcelos

Compartilhe este conteúdo: