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O espaço das letras na alfabetização

Regina Scarpa escreve sobre o desenvolvimento das crianças

POR:
NOVA ESCOLA
Regina Scarpa,

Regina Scarpa,
doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e diretora pedagógica da Escola Vera Cruz, em São Paulo

 Qual o papel do conhecimento das letras na construção do sistema alfabético de escrita pelas crianças? Para refletir sobre isso e sobre outras questões, em minha pesquisa de doutorado, investiguei escolas de Educação Infantil que trabalham a aproximação com a linguagem escrita em turmas de pré-escola de maneiras distintas.

No primeiro grupo de instituições, que vou chamar de Escolas X, as letras eram apresentadas gradualmente e isoladamente. Os pequenos conheciam as vogais, depois as consoantes. Passavam o ano todo copiando as letras e palavras que contêm cada uma delas. Já no outro conjunto, das Escolas Z, a língua era tratada como um objeto cultural e eram propostas práticas sociais de leitura e escrita em diversos contextos de uso.

Pedi que crianças de ambos os sexos nessas instituições escrevessem seus nomes, produzissem listas de palavras e identificassem e nomeassem letras em um teclado de computador. Verifiquei que as crianças das Escolas X conheciam menos letras do que as das Escolas Z. Pesquisas anteriores chegaram às mesmas conclusões com amostras diferentes. No primeiro grupo, 60% das integrantes não souberam nomear as letras que compõem seus nomes, enquanto no segundo esse porcentual foi de 29,5%. Foi interessante constatar que 47% das crianças das Escolas Z souberam nomear mais de 20 letras, apresentando um maior repertório do que os pequenos das Escolas X, onde esse porcentual foi de 26,5%. E essas últimas são as instituições que possuíam a prática de apresentação e treinamento da cópia das letras como um importante eixo de trabalho realizado o ano todo.

Para analisar esse cenário, precisamos lembrar que as letras compõem as palavras, elas não aparecem sozinhas nos usos sociais que fazemos delas. O sistema alfabético de escrita tem esse nome porque é organizado pelas relações entre as letras e não por elas individualmente. Nas Escolas Z, a nomeação, a identificação e a reflexão sobre as letras apareciam nas situações de leitura e escrita. Ou seja, na medida em que tentavam ler e escrever, necessariamente o avanço se dava na interação dos pequenos com os textos, deles com os professores e deles entre eles mesmos.

Pude observar, também, algumas crianças que conheciam muitas letras e ainda assim possuíam nível pré-silábico de conceitualização da escrita. Elas não fonetizavam, mas tinham um repertório de letras considerável, além das que estão em seus nomes. Outras, apesar do repertório reduzido, apresentaram hipótese silábica. Isso mostra que a construção da escrita é uma questão conceitual e não está relacionada à quantidade de sinais gráficos que se conhece.

Conclui-se, então, que saber identificar e nomear as letras é muito importante, porém não basta. Como resume a pesquisadora mexicana Sofia Vernon: Apesar de ser um conhecimento necessário, não nos parece suficiente, já que a língua escrita é um sistema de representação, que se define mais pelo tipo de relações entre seus elementos do que pelos elementos por si mesmos.

Vale esclarecer que o alfabeto é uma referência importante, é fonte de consulta e precisa estar na sala. As crianças recorrem a ele por diversos motivos: para encontrar uma letra que estão precisando para escrever, enquanto recitam o alfabeto que sabem de memória, para observar a grafia, para relacionar com a letra do amigo etc.

Finalmente, os dados parecem indicar que as crianças podem conhecer as letras em situações reais de leitura e escrita, nas quais se reflete sobre elas, conversa-se sobre suas denominações e se estabelece relações com palavras e partes de palavras conhecidas. Dessa maneira, elas aprendem mais e em melhores condições didáticas.


Foto: Ramón Vasconcelos

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