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Comunicação construtiva entre professor e aluno

Telma Vinha comenta os desafios da Educação moral

POR:
NOVA ESCOLA
Telma Vinha,

Telma Vinha,
professora de Psicologia Educacional da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Você já falou algo para alguém com boa intenção, mas não foi bem interpretado e o sujeito não reagiu como esperado? Mal-entendidos como esse podem ocorrer pois há diferença entre o que se quer dizer e como o receptor compreende o que foi dito. Toda vez que nos dirigimos a outra pessoa, transmitimos mensagens que afetam as emoções e os sentimentos dela, para melhor ou pior. Por isso, nós, educadores, precisamos ir além da boa intenção e aprender a nos comunicar de modo construtivo, usando procedimentos que auxiliem a estabelecer diálogos efetivos, mesmo nas difíceis condições da sala de aula.

A conversa com um aluno sobre determinado acontecimento ou comportamento dele, como uma postura inadequada, é mais eficiente quando não há julgamentos, culpabilizações ou desconfianças. O ideal é falar da situação, e não do caráter do envolvido. Em vez de dizer Vocês são bagunceiros, o melhor é Vocês estão saindo da classe, mas vejo carteiras fora do lugar e papéis no chão. A linguagem assim formulada, de maneira descritiva, favorece a colaboração e dá oportunidade para ele concluir o que fazer.
Evite acusar ou atacar. Isso faz com que o ouvinte canalize a energia em se defender ou se justificar, e não em solucionar o problema. Reprimendas somente incitam a raiva e diminuem a autoestima. Comentários negativos, como Você derruba tudo, que desajeitada!, também não ajudam. Já a linguagem sem crítica atrai a cooperação: A tinta caiu. Depois de limpar, vamos pensar em o que fazer para ela não cair mais?.

Quando é preciso usar a autoridade, seja firme e opte por falas curtas e objetivas, deixando de lado os sermões e as lições de moral: As mesas não foram feitas para subir nelas. Desça. E não grite, pois demonstra perda do controle. O confronto é desgastante e pode resultar em enfrentamentos. Em vez de ordenar ou ameaçar, ofereça opções, mesmo que as alternativas não sejam agradáveis. Por exemplo, dê ao aluno que grita a possibilidade de falar em voz baixa ou berrar sozinho na quadra, onde não incomoda a turma.

Quando o problema envolve o professor e os alunos, como a bagunça em classe, vale demonstrar o próprio ponto de vista, descrevendo o fato e o sentimento: Não estou conseguindo ouvir o que o Bruno está dizendo. O que podemos fazer para escutar uns aos outros?.
Caso a intenção seja acalmar alguém ou demonstrar compreensão, uma boa estratégia é a escuta ativa, em que o adulto repete resumidamente o que foi dito pela criança, sem censuras ou críticas, procurando clarear os sentimentos dela e estimulá-la a encontrar uma solução para a questão. Vale ressaltar que não existem sentimentos bons ou ruins, e todos devem ser reconhecidos. As ações que poderiam decorrer deles é que devem ser limitadas. Por exemplo: Você ficou chateada com o que a Ana fez e quer bater nela. Mas, não se bate nas pessoas. Como resolver isso sem agredir?. Assim, o aluno pode refletir sobre outras possibilidades de ação.

Claro que ninguém é paciente sempre! Essa raiva pode ser valiosa quando expressa apropriadamente e sem causar danos. Em vez de dizer Você é irritante!, o melhor é falar Quando você fica insistindo assim, vou me irritando. Aprender outra forma de se comunicar transforma as relações e requer paciência, prática e treinamento. Os alunos cooperam mais e resistem menos ao educador quando o diálogo é pautado no respeito e a dignidade de cada um é resguardada.


Em colaboração com ADRIANA RAMOS, coordenadora do curso de pós-graduação A Convivência Ética na Escola do ISE Vera Cruz.

Foto: Ramón Vasconcelos

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