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O planejamento das aulas, seus prazeres e desafios

Felipe Bandoni fala sobre o dia a dia do professor

POR:
NOVA ESCOLA
Felipe Bandoni,

Felipe Bandoni,
Professor de Ciências na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo

A imagem de uma pessoa em frente à classe, giz em punho, pronta para apresentar algum conteúdo é possivelmente a mais facilmente associada ao nosso trabalho como professores. Mas nós, os protagonistas dessa cena, sabemos bem que até que se chegue a esse momento é preciso percorrer um longo caminho de preparação, que garanta o seu sucesso.

A fase de planejamento tão fundamental é, para mim, difícil e prazerosa nas mesmas proporções. Costumo iniciar a concepção das sequências didáticas delineando os objetivos que quero que os alunos atinjam. Logo em seguida, parto para a etapa mais fascinante: imaginar os meios que utilizarei para que isso aconteça. É aí que tento definir quais seriam as situações mais adequadas, antecipo os obstáculos com os quais os estudantes terão de lidar, encontro possíveis saídas para auxiliá-los e tento até prever o imprevisível, mas sem engessar demais, dando espaço para que apareçam ideias novas no contato com a turma.

Gosto muito do desafio de bolar situações que levem os alunos a se surpreender com o próprio desconhecimento e querer aprender mais. Me divirto preparando o caminho que será percorrido por eles e formulando questões que os intriguem, como eu me intrigo ao estudar os conteúdos. Lembro de me pegar questionando enquanto organizava o material para uma aula que eu daria: por que será que as mulheres que trabalhavam com vacas no século 17 eram imunes à varíola? Por que o embrião dos golfinhos tem células capazes de formar pernas, se o adulto não as terá?

A busca por materiais também rende boas histórias. Recentemente, perambulei vários dias por lojas de doces procurando um certo pirulito cujo brinde era uma hélice, peça necessária para que construíssemos em sala um pequeno gerador de energia. Por demandas como essas, os atendentes da loja de ferragens do meu bairro já até me reconhecem como o cara dos pedidos estranhos. Se, por um lado, preparar aulas é uma obrigação, por outro, constitui uma oportunidade que me anima a inserir assuntos novos no curso, a pesquisar sobre eles e, acima de tudo, a buscar entender como as pessoas aprendem. É muito instigante refletir sobre como ensinar algo que nunca ensinei. Mesmo que eu conheça o conteúdo a fundo, para fazer com que os alunos se apropriem dele, me coloco no lugar de quem não sabe. Construo, assim, uma relação completamente diferente com meus próprios saberes. Ao conceber as atividades, o professor precisa exercer não apenas o ponto de vista de quem observa a partida e a chegada do percurso de aprendizagem, mas também tentar compreender como os alunos percorrerão essa distância.

Na formação inicial e no dia a dia da profissão, os espaços para que isso aconteça são pouco valorizados. Conheço muitas escolas em que é como se eles não existissem e sequer fossem necessários, pois não há condições adequadas para o trabalho individual (tema da reportagem O trabalho que ninguém vê, desta edição). Incrivelmente, é como se essas instituições não reconhecessem que bons resultados de aprendizagem dependem de que o docente tenha tempo para pensar sobre o que fará em sala de aula muito antes de estar ali, na frente da turma.

Sempre ouvi dizer que o professor aprende no trabalho com os alunos. Percebi, na prática, que isso não é um discurso vazio. Os momentos de planejamento são realmente aqueles em que tenho a oportunidade de pensar sobre como consolidar os meus próprios aprendizados. Ao me debruçar sobre os tópicos que quero abordar e pensar sobre como ensiná-los, garanto que, na classe, todo o tempo será utilizado a favor do desenvolvimento dos estudantes.


Foto: Ramón Vasconcelos