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Paulo Freire e o momento atual da Educação brasileira

Como o autor ainda nos ajuda a refletir sobre a teoria e a prática docente, enxergar como essas duas vertentes dialogam e compreender o papel do professor na construção de um ensino problematizador

POR:
NOVA ESCOLA

DANILO ROMEU STRECK

Doutor em Fundamentos Filosóficos da Educação, professor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e membro do Comitê Assessor da Área de Educação do CNPq

Em uma das manifestações deste ano, chamou a atenção uma faixa com a frase: Chega de doutrinação marxista. Basta de Paulo Freire. Ao lado, estavam o martelo e a foice, com um sinal de proibido. Seria coincidência a semelhança dessa mensagem com o tom do interrogatório de Paulo Freire (1921-1997) na polícia civil, há mais de cinco décadas, que o levou ao exílio? Qual poderia ser o perigo na obra desse autor e por que ele deveria ser mais uma vez banido?

Encaminho este breve texto calcado nessas perguntas e em dois pressupostos. O primeiro é que Freire, como outros grandes pensadores, não necessita de advogados para defendê-lo. Não foi por acaso que ele se tornou uma referência, mas por ter expressado aquilo que muita gente queria ter dito. Na história da Educação, podemos lembrar de injustiça semelhante vivida pelo filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau (1712- 1778). Seu livro Emílio ou Da Educação foi queimado em praça pública por ameaçar a nobreza.

O segundo pressuposto é que cada autor tem de ser lido dentro de seu contexto. Às vezes, propostas pedagógicas bem-sucedidas em outros países não vingam aqui. Isso não significa que não se deva aprender com elas, e sim que precisam ser traduzidas para nossas escolas. O mesmo se aplica ao momento histórico. A pergunta que deve ser feita é como os autores que lemos nos ajudam a ser atuais em nosso tempo. O compromisso com o hoje é nosso. 

Leitura de mundo e papel do docente

Seguindo esses pressupostos, identifico alguns traços na obra desse grande autor que nos ajudam na travessia temporal que, como vimos, gera tensões e conflitos. Paulo Freire pode ser lido como um pensador que nos ajuda a perceber a Educação como parte de uma sociedade que está em movimento e, por isso mesmo, não tem como ser neutra do ponto de vista político. A leitura de mundo é condição para homens e mulheres se assumirem como sujeitos capazes de intervir em sua realidade. Como ele diz em Pedagogia do Oprimido: Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão.

O professor é alguém que testemunha essa leitura de mundo com os alunos, o que implica fazer a sua pronúncia do mundo e problematizá-la. A teoria freiriana é, essencialmente, uma Pedagogia da pergunta, da busca e do diálogo. Ela se baseia no reconhecimento da nossa condição de incompletude e da história como possibilidade. A radicalidade e a rigorosidade de que Freire fala têm a ver com a capacidade do educador de lançar desafios que permitam ir à raiz das questões e ampliar os temas abrangidos por elas.

A autoridade do professor deriva dessa capacidade de propor e conduzir a leitura de mundo, o que lhe confere um papel muito diferente daquele que o coloca como um técnico que organiza os conhecimentos a ser aprendidos pelos alunos. Na concepção freiriana, ensinar e pesquisar são parte de um mesmo ato de conhecimento que pressupõe uma curiosidade epistemológica. Ao contrário do que pensam alguns, ele não é contra os conteúdos na Educação, mas questiona o ensino deles sem conexão com a leitura de mundo. Novamente, a obra-prima de Freire faz referência a esse conceito ao atestar que os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo.

Essa maneira de se posicionar diante da realidade e com os sujeitos que conhecem (os alunos) pode ser verificada na forma como a Pedagogia de Freire é reinventada em diferentes momentos vividos por ele. Se tomarmos Educação como Prática da Liberdade, cujo Esclarecimento ao leitor é datado na primavera de 1965, vemos um autor preocupado com uma sociedade em trânsito, uma estrutura fechada que se abria, homens e mulheres objetos que se assumiam como sujeitos. Havia também a passagem de uma consciência ingênua para uma crítica, que se caracterizava pela abertura na relação com a realidade, a construindo, criando e sendo criada por ela. 

Já em Pedagogia da Esperança, de 1992, ele faz uma releitura da Pedagogia do Oprimido, no sentido de entender o processo de gestação dessa concepção e, como ele dizia, seus alongamentos. Entram a infância no Recife, a prática com a alfabetização de adultos, a vida no exílio. A própria obra é vista como uma grande trama tecida por muitos fios, ora entrelaçados, ora desconectados. É que a mim me interessou sempre muito mais a compreensão do processo em que e como as coisas se dão do que o produto em si, reflete o autor. 

O tema da esperança surge num momento em que o Brasil vivia a euforia da Constituição de 1988, que assegura formalmente a vida democrática no país. Mas é, também, o período de embate com as políticas neoliberais que fragilizam a participação efetiva dos cidadãos.  

Chegamos, assim, à utopia, outro conceito muito presente em Paulo Freire. Segundo ele, ela se realiza na relação dialética entre denúncia e anúncio. Nesse espaço, podem surgir os inéditos viáveis, ações diferenciadas que se passa a vislumbrar e que significam avanços em relação aos equívocos identificados anteriormente. Eles nos lembram que a história não é feita apenas com atos de vontade individuais e coletivos, ela também  leva em conta os condicionamentos ditados pelas circunstâncias sociais, históricas e culturais.

Retorno às perguntas

Voltemos aos questionamentos que serviram de porta de entrada a esta análise. Busquei argumentar que Freire pode estar ultrapassado para quem busca um método para aplicar em aula, mas é um grande companheiro para quem avalia o próprio trabalho. Com ele, aprendemos que essa reflexão abrange a prática e a teoria, dimensões em permanente diálogo.  

Finalmente, por que ele seria perigoso como a faixa indicou? Em 1964, em plena guerra fria, ele representava um risco para quem via na conscientização do povo uma ameaça à ordem. Por outro lado, talvez a opressão e a desumanização apenas assumiram outras formas, continuando nós, educadores, com o compromisso de explicitar a ética que nos move. Nesse sentido, o risco é inerente à prática educativa que, ao colocar a realidade como problema, lida com rupturas e contradições. E na perspectiva freiriana, a busca do ser mais, grande objetivo da Educação, se dá dentro da história.

Resumo

Quando alguém propõe um basta a Paulo Freire, precisamos lembrar que todo autor deve ser entendido dentro de seu contexto social e histórico e que o compromisso com a atualidade é nosso, não dele. Freire ainda nos ajuda a refletir sobre a teoria e a prática docente, enxergar como essas duas vertentes dialogam e compreender o papel do professor na construção de uma Educação problematizadora, que vá além da mera transmissão de conhecimentos.

 

Referências bibliográficas

FREIRE, A.M.A. Paulo Freire: uma história de vida. São Paulo, Villa das Letras, 2006.
FREIRE, P. Educação como prática da liberdade. 11ª ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1980.
FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 9ª ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1981. 
FREIRE, P. Pedagogia da esperança: um reencontro com a Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1992. 
ROUSSEAU, J.J. Emílio ou da Educação. São Paulo, Ed. Martins Fontes, 2004. 
STRECK, D.R. Ecos de Angicos: temas freirianos e a Pedagogia atual. Pro-posições, v. 25. Set/dez 2014.
STRECK, D.R. (org.). Fontes da Pedagogia latino-americana: uma antologia. Belo Horizonte, Autêntica, 2010.