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Alimentar, limpar e ninar

Rotina de cuidados oferece oportunidades ricas para o desenvolvimento dos pequenos

POR:
Wellington Soares, Patrick Cassimiro e Ana Ligia Scachetti

Assim que chegam ao CEI Paulino Eva, em São Paulo, os bebês vão brincar. As educadoras aproveitam para interagir e obter informações para programar o dia. Fazem perguntas como "Você dormiu bem, querido? Sua fralda já foi trocada? Está com fome?", enquanto observam as reações. Assim, complementam o que foi coletado com quem leva os pequenos à escola. Durante a conversa, a professora Maria Angélica Ferreira Barroso percebe que uma das crianças está incomodada. Investiga mais um pouco e... "Hum, que cheiro de cocô! Vamos trocar sua fralda?". Menina no colo, elas seguem para o trocador e começam um dos momentos mais valiosos do dia: a professora troca a fralda e fala com a pequenina, que não desgruda os olhos dela. Para aproveitar ações corriqueiras como essa a favor do desenvolvimento das crianças, é preciso planejamento, o que nem sempre acontece. "Muitas vezes, vemos essas atividades sendo realizadas de maneira mecânica, sem que se preste a atenção devida ao bebê", avalia Damaris Maranhão, do Instituto Superior de Educação Vera Cruz (ISE).

Parte da desatenção a esses aspectos decorre do percurso histórico desse segmento. A primeira instituição voltada para atender esse público foi fundada no Brasil em 1899. Tratava-se da creche da Fábrica de Fiação e Tecidos Corcovado, no Rio de Janeiro, que replicava o modelo europeu: tinha como função cuidar dos filhos de operárias. A preocupação maior era garantir que os pequenos estariam saudáveis e seguros. "Havia uma ênfase na necessidade de os alimentar e limpar", explica Anete Abramovicz, organizadora do livro Estudos da Infância no Brasil: Encontros e Memórias (195 págs., Ed. Edufscar, 16/3351-9621, 37 reais). 

Esse modelo sobreviveu durante muito tempo e foi legitimado pela sociedade. Paralelamente, pesquisas sobre a primeira infância mostraram como as intervenções dos adultos impactam as crianças. O alemão Friedrich Froebel (1782-1852) foi o precursor desse pensamento. Os jardins de infância criados por ele foram replicados no Brasil a partir de 1940, mas tinham como foco os filhos das elites, de faixas etárias mais velhas.

No século 20, o número de mulheres trabalhando aumentou e o movimento feminista ganhou força. De benefício de algumas empresas, o acesso às creches se transformou em direito das mães e dos pequenos. Essa mudança de perspectiva culminou com a Constituição de 1988 e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), de 1996, que referendaram a creche e a pré-escola como parte do sistema educacional. Assim, a exigência de formação inicial dos docentes no Ensino Superior atingiu os profissionais que atuavam na Educação Infantil. "Essa professora leiga geralmente não contava com nenhuma qualificação", escreve Maria Malta Campos, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas (FCC), no artigo reportagem de NOVA ESCOLA sobre o tema). Para que isso aconteça, é necessário construir interações consistentes, sobretudo nos momentos de cuidados, quando a criança está só com o professor.

Outro aspecto central nesses momentos é o fato de favorecem o estabelecimento de vínculos. "Ao observar o educador e ver que ele interage com ela, a criança percebe que existe na vida daquela pessoa", diz Rosa Mariotto, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Para os pequenos, esse laço significa estabilidade. "Com um adulto de referência, o bebê não teme ser abandonado, reconhece a linguagem e os gestos usados por essa pessoa e fica mais tranquilo", esclarece Mariana Americano, do Instituto Avisa Lá, em São Paulo.

Conversa no momento do cocô

A conversa e a interação são intensas enquanto Maria Angélica troca Laura. Fotos: Silvia Zamboni

No CEI Paulino Eva, a preocupação com a criação de vínculos impacta na organização da equipe. Cada uma das três professoras que cuida da turma com até 1 ano é responsável por sete crianças. A mesma pessoa recebe, alimenta, cuida da higiene e coloca os bebês para dormir. As trocas e os banhos são considerados momentos especiais, pois envolvem o toque no corpo e procedimentos sobre os quais os bebês precisam ser avisados (leia dicas abaixo e ao longo da reportagem). 

 

Check-list: higiene

"Prefiro não usar luvas. Elas não são necessárias, se lavarmos as mãos. Além disso, não as utilizamos nas interações 
com outras pessoas, então os bebês pensariam 'por que comigo?'."
MARIA ANGÉLICA, professora do CEI Paulino Eva

  • Converse com a criança, peça licença antes de começar a trocar ou dar banho e anuncie o que fará.
  • Permita que ela auxilie você, segurando objetos envolvidos na tarefa ou fazendo movimentos com o corpo, como levantar o braço para vestir uma blusa.
  • Limpe o trocador com água e sabão antes e depois da troca de fraldas.
  • Lave as suas mãos e as dos bebês nos dois momentos.
  • Permita que tentem assoar o nariz sozinhos. Se necessário, ensine-os a dobrar o papel e assoprar um lado de cada vez.

 

Quando Maria Angélica avisa Laura Nogueira, 1 ano e 4 meses, que vai trocar a fralda dela, prepara a menina para o que acontecerá. "Antes de começar, eu peço licença. Pergunto: 'Posso tirar a sua roupa?' Estou lidando com o corpo da criança e é importante que ela se sinta respeitada", destaca. Durante o tempo todo, é importante estabelecer um diálogo, fazer brincadeiras, ser carinhoso e evitar movimentos bruscos.Alguns dos cuidados para essas horas foram listados pela psicóloga húngara Anna Tardos, do Instituto Pikler, no artigo Being with Babies ("Estar com bebês", sem tradução para o português). "A atividade de se vestir ou ser trocado, repetida diversas vezes ao dia, pode ser um encontro repleto de alegria", defende ela. A primeira indicação diz respeito à aproximação entre adulto e criança. 

No artigo, Tardos defende que o educador peça auxílio do pequeno. "Eles ajudariam? Sim. O bebê prestaria atenção ao que fazemos, relaxaria os braços dele e, com apenas alguns meses de idade, iria esticar os braços em nossa direção quando lhe mostrássemos a peça de roupa. Uma conversa real pode ser estabelecida aí", explica.

Aspectos ligados à higiene precisam ser notados para garantir a saúde de todos. O trocador deve ser limpo a cada troca de fraldas com água e sabão. Produtos que contenham cloro devem ser evitados, pelo alto risco de desenvolver alergias e problemas respiratórios. "Se possível, ele deve também ser coberto com uma toalha ou lençol de uso individual da criança", recomenda Damaris. O uso de luvas - causa de muita discussão entre quem atua na Educação Infantil - é dispensável na maior parte das vezes, mas elas devem estar à disposição dos educadores. "Dependendo de como os procedimentos são feitos, o professor não entrará em contato com as fezes e a urina. Além disso, a possibilidade de contaminação não se dá pelo contato direto da pele do educador com o cocô, mas apenas caso ele leve as mãos sujas ao rosto." Por isso, é importante que, ao final da troca, todos as lavem de novo.

Esse rito é outro aspecto que precisa ser trabalhado desde cedo. Antes das refeições, após as brincadeiras no parque e, é claro, depois da troca de fraldas, deve-se ensiná-las a deixar as mãos limpas. "Para isso, alguns ajustes na estrutura são importantes, como uma pia na altura dos pequenos, o uso de um dispensador de sabão que não seja muito difícil de utilizar e o acesso a toalhas de papel", ressalta Eliana Sisla, do Instituto Avisa Lá. Aplicar o sabonete, molhar as mãos, esfregá-las até que se forme bastante espuma para, só então, enxaguar são os principais passos que devem ser explicados à turminha. Esse simples ato pode ajudar a reduzir drasticamente a incidência de doenças comuns em creches, como gripes e diarreias.

Todos esses cuidados valem para outras situações voltadas para a higiene, como a limpeza do nariz e o banho, que precisa receber atenção especial quanto a sua posição dentro da agenda. A rotina colabora para que a criança organize e compreenda seu dia. O banho, se dado sempre no mesmo horário, contribui para que ela antecipe a atividade seguinte ou lembre que é quase hora de ir embora. Além disso, esses cuidados estimulam a formação desses hábitos desde cedo.

Almoço também é cultura

Rosemari ajuda quem precisa e permite que as crianças tentem comer sozinhas. Fotos: Suzete Sandin

O espaço das refeições no NEI Otilia Cruz, em Florianópolis, tem cara de restaurante. A pequena mesa na sala da turma de 1 ano e 3 meses a 1 ano e 9 meses é preparada pela professora Jacira Bosquetti Muniz e as auxiliares Rosemari Mosquetta e Andreza de Amorim: coloca-se uma toalha e os pratos e uma música calma preenche o ambiente. "Acredito que esse momento deva ser prazeroso, agradável", defende Jacira.

O horário reservado para a alimentação é cheio de aprendizagens. Se, no dia a dia, adultos comem em mesas forradas, com adornos e utilizam esse período para se confraternizar, é importante que os bebês tenham a possibilidade de fazer algo parecido na escola. "É um dos objetivos das etapas iniciais da escolarização mostrar um pouco como funcionam as coisas nesse universo em que eles estão sendo inseridos", diz Eliana.

Os pequenos se sentam em cadeiras próprias para o tamanho deles e as educadoras montam os pratos de acordo com as preferências e possibilidades de cada um. Então, o grupo é dividido. Enquanto parte das crianças come com o auxílio de uma das professoras, as demais aguardam sua vez com a outra. Há quem já consiga se alimentar sozinho. "Todas possuem uma colher e eu uso um outro talher (diferente para cada uma) para auxiliá-las quando necessário", conta Jacira.

Sempre que possível, a escola deve buscar o apoio de um nutricionista e seguir as orientações da família sobre a alimentação dos pequenos. Todas essas informações podem ser registradas em fichas individuais. Ainda assim, os desafios surgem. Quando uma criança se nega a comer, por exemplo, pode-se oferecer os ingredientes separados ou em outra forma. "Se a recusa persiste, o melhor a fazer é guardar o alimento e tentar novamente mais tarde. É possível ser que ela apenas não esteja com fome naquele instante", diz Eliana.

Check-list: alimentação

"No almoço, converso e falo sobre a importância de provar os alimentos, caso façam cara feia para algo. Muitas vezes, quando notam que um colega comeu aquilo que recusaram, eles decidem experimentar."
ROSEMARI, auxiliar do NEI Otilia Cruz

  • Permita que as crianças tentem comer sozinhas. Auxilie utilizando outra colher.
  • Caso elas rejeitem alguma comida, ofereça alternativas, com os alimentos separados ou em uma receita diferente.
  • Prefira pratos de vidro, pois os de plástico podem acumular sujeira.
  • Deixe o ambiente parecido com as situações de almoço dos adultos, colocando toalhas e objetos que costumam ser usados sobre a mesa.
  • Para os que têm mais de 2 anos, organize o self-service.

 


Durante todo o trabalho, a colaboração de Andreza e Rosemari é fundamental para Jacira. O mesmo acontece em muitos locais no Brasil. A relação entre o número de profissionais para cada criança e a formação necessária para assumir essas funções varia de acordo com a rede de ensino. A LDB exige ao menos o curso Normal de nível médio, mas não determina qual a colocação que eles devem ter na escola. Na prática, os auxiliares - também chamados de cuidadores ou volantes em algumas redes - acabam executando tarefas consideradas inferiores ou desempenham as mesmas funções que os educadores, mas com uma remuneração menor e sem as poucas garantias conquistadas para a carreira docente, como o tempo reservado para planejamento e o processo de formação continuada. Além disso, eles colaboram imensamente para assegurar a proporção mínima exigida por lei, que é de seis a oito crianças por adulto até os 2 anos de idade.

Jacira, Andreza e Rosemari são graduadas em Pedagogia. Elas trabalham sempre em conjunto, apesar dos cargos distintos, e compartilham todas as funções. Diferentemente do que ocorre com elas, Maria Malta identifica que é comum haver uma cisão entre docentes e os que costumam ser chamados de educadores leigos. "Os professores costumam rejeitar as responsabilidades ligadas à proteção e ao cuidado, pois a imagem que formaram sobre sua profissão é baseada exclusivamente na atividade de 'ensino'", alerta. "A construção de um novo perfil de professor, adequado às instituições que recebem crianças pequenas, encontra-se, portanto, em processo."

Enfim, é hora de colo e soninho

Após o parque e as refeições, Eliane nina a turma no espaço com colchonetes. Fotos: Murilo Mascarenhas

Um dia na creche pode ser bastante cansativo e isso não vale só para os que trabalham nela. A criançada também fica exausta, por isso o sono conta com um momento específico na rotina. Para a turma de berçário da Creche Ceduc Bahia, que tem parceria com a Avon, no município de Simões Filho, a 26 quilômetros de Salvador, a soneca é logo após as brincadeiras no parque e as refeições. Quando chega essa hora, a turma começa a bocejar e cobiçar alguns minutos no canto do aconchego, preparado com colchonetes e almofadas. É ali que a berçarista Eliane Maria de Santana e a auxiliar Luzinete Maria Martins ninam a turma. "Pegamos eles no colo, olhamos nos olhos e vamos conversando: 'Está na hora de descansar, vamos dormir?'", conta Eliane. Para garantir que os pequenos caiam no sono, a troca de informações com os pais é fundamental. "Quando uma nova criança é matriculada, perguntamos como eles costumam ser ninados em casa e repetimos aqui. Gradativamente, vamos mudando", conta. As informações das famílias são primordiais para o planejamento do trabalho com bebês. Ao lidar com situações conhecidas, eles se sentem mais tranquilos. 
Depois que adormecem, os pequenos vão para um espaço próprio para a soneca. Novamente, precauções com a higiene são fundamentais. A principal delas é a de que cada um tenha seu lençol e que essa peça seja colocada na hora do sono e retirada logo após acordarem. Ao empilhar colchonetes, a face que estava em contato com o chão não deve tocar a superfície do lençol. 
No dia a dia da creche, são realmente muitos os detalhes que garantem a segurança e o bem-estar da turma. Mas é preciso ter bom senso. Damaris avisa que algumas precauções são exageradas. É comum colocar as crianças para dormir em posições alternadas: algumas viradas para cima e outras para baixo. A justificativa seria evitar a transmissão de doenças respiratórias. "Não há pesquisas que mostrem a eficácia dessa ação, mas é provado que uma área bem ventilada e a alternância entre atividades em ambiente externo e interno colaboram bastante para garantir a saúde dos pequenos", afirma a especialista.
A rotina diária normalmente se encerra com o banho e a preparação para ir embora. Na despedida, realizada na porta da sala, os mesmos procedimentos do início da manhã se repetem. As educadoras têm uma rápida conversa com o bebê e quem vem buscá-lo sobre os acontecimentos do dia. Todos seguem inteiros para a casa, como acontecia naquelas creches pioneiras do século 19, mas, agora, além do asseio, vão instigados a interagir mais, socializar e voltar para viver novos desafios no dia seguinte.

Check-list: sono

"Costumamos perguntar para os pais como eles fazem para a criança adormecer. Aí, tentamos fazer parecido - cantar as mesmas canções de ninar, por exemplo - e vamos mudando com o tempo."
ELIANE, berçarista da Creche Ceduc

  • Reserve um horário fixo para o descanso, mas também ofereça um espaço em que a turma possa dormir a qualquer momento.
  • Use lençóis individuais e os retire antes de empilhar os colchonetes, para que a parte que fica em contato com o chão não toque a superfície em que os pequenos dormem.
  • Acalme os bebês conversando baixo, fazendo carinho e, se necessário, pegando no colo.
  • Utilize berços apenas para crianças que se movem muito durante o sono. Para as outras, colchonetes e pequenas camas de armar são as melhores opções.

 

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