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Sala de Aula | Língua Estrangeira | 6º e 7º anos | Sala de aula


Por: Bruna Escaleira, Jacqueline Hamine e Wellington Soares

Leitura sem mistério

Use contos de Sherlock Holmes para abordar estratégias de compreensão de texto em inglês

Abril de 1883. Pouco depois das 7 horas. Helen Stoner vai ao apartamento de Sherlock Holmes em Londres e pede ajuda ao detetive porque tem receio de morrer. Ela narra os detalhes da noite do misterioso falecimento de sua irmã, dois anos antes, e diz temer o mesmo fim. Holmes escuta tudo e, como se já estivesse desvendando o mistério, descreve os próximos passos da investigação para confirmar ou não sua hipótese.

O caso é descrito no conto The Speckled Band, do escritor britânico Sir Arthur Conan Doyle (1859-1930), uma das 60 histórias sobre o personagem. O famoso detetive é capaz de chegar a conclusões sem sequer analisar a cena do crime. Com base no relato de vítimas e testemunhas, ele deduz a solução usando o raciocínio lógico.

As estratégias de Holmes relacionam-se às técnicas de fluência leitora propostas pelas professoras Verônica Bochio, Andreia Alves Silva e Caroline Milan, da Escola da Vila, na capital paulista, em um projeto para o 6º e 7º anos. "Ao ler os contos, os estudantes precisavam ter uma postura investigativa, tanto para desvendar o crime como para assimilar o texto", aponta Verônica, que aplicou o trabalho com sua turma do 6º ano.

A garotada leu a coletânea Sherlock Holmes Short Stories (Sir Arthur Conan Doyle, 64 págs., Oxford University Press, 36,50 reais), uma versão adequada aos níveis de proficiência da classe. "As obras devem ser desafiadoras, com palavras que os alunos não saibam, mas não podem estar muito distantes do nível de conhecimento deles", explica Rafael Reis, especialista no ensino de Inglês para falantes de outras línguas.

Inicialmente, a professora direcionou a atenção de todos para o conto que abre esta reportagem e fez algumas perguntas: "Quem é Sherlock Holmes? Quando, onde e por quem suas histórias foram escritas? Quais são os outros personagens? Quais as características deles?". Levantar os conhecimentos da classe sobre o tema de uma obra é uma das principais estratégias para a compreensão da leitura listadas pela pesquisadora espanhola Isabel Solé na obra Estratégias de Leitura (194 págs., Ed. Penso, tel. 0800 7033-444, 73 reais), usada como base no projeto das educadoras da Escola da Vila (veja mais exemplos no quadro abaixo). Celina Fernandes, consultora em Língua Estrangeira, acrescenta que "mesmo um leitor com pouco domínio do idioma pode entender um texto em alguma medida, dependendo da quantidade de informações que ele já possua sobre a história".

Estratégias de leitura

1. Lembrar e antecipar Use os conhecimentos da turma sobre o tema e elementos como título e ilustrações para antecipar desdobramentos do texto.
2. Ater-se ao mais importante Selecione verbos, substantivos e termos que se repetem. Quando desconhecidas, essas palavras-chave devem ser buscadas no dicionário.
3. Aferir ou ignorar Termos menos importantes podem ser entendidos pelo contexto. Se não são imprescindíveis para a compreensão da obra, é possível ignorá-los. Assim, o uso recorrente do dicionário não atrapalha o ritmo de leitura.

Acumular conhecimentos sobre Holmes não é difícil. Suas famosas aventuras foram adaptadas para filmes, seriados e até histórias em quadrinhos. "Eu já conhecia o personagem, mas ainda não tinha tido oportunidade de ler seus contos", diz a aluna Pietra Amato, 13 anos. Neide Silva, professora da Faculdade Cultura Inglesa, destaca que os textos de Conan Doyle e de outros autores como Agatha Christie e Edgar Allan Poe despertam curiosidade pela vontade de solucionar o mistério, por isso são adequados para essa etapa de ensino (veja mais obras indicadas abaixo).

Para todos os leitores

Obras de suspense consagradas possuem adaptações que atendem a diversos níveis de proficiência em inglês

The Signalman and the Ghost at the Trial
Histórias de fantasmas para quem começa a explorar o idioma. Apresenta situações do dia a dia. Nível: A1 Iniciante.
Charles Dickens, 63 págs., Ed. Macmillan, 36,40 reais.

Frankenstein
Lançada em 1918, é a primeira obra de ficção científica da história. O vocabulário é amplo, mas cotidiano. Nível: A2 Básico.
Mary Shelley, 64 págs., Ed. Macmillan, 37,90 reais.

Tales of Mystery and Imagination
As histórias de terror de Edgar Allan Poe (1809-1849) estão cheias de termos abstratos. Nível: B1 Intermediário.
Edgar Allan Poe, 80 págs., Ed. Oxford University Press, 39,40 reais.

Dr. Jekyll and Mr. Hyde
Com linguagem mais complexa, exige maiores conhecimentos de gramática e vocabulário. Nível: B1/B2 Intermediário.
Robert L. Stevenson, 96 págs., Ed. Oxford University Press, 42,70 reais.

The Murder of Roger Ackroyd
Narra o mistério que envolve dois assassinatos com vocabulário sofisticado. Nível: B2 Usuário Independente.
Agatha Christie, 128 págs., Ed. Harpercollins, 31,70 reais.

Exploração para a autonomia

Além dos conhecimentos sobre a história e os personagens, é importante observar outros elementos antes da leitura propriamente dita. "Tentamos assimilar o título, as ilustrações e as legendas", relata Verônica. Depois disso, a garotada foi questionada: "Sobre o que o conto provavelmente trata? O que será que vai acontecer?".

Só após levantar as hipósteses, a classe mergulhou na história. Primeiro, a professora leu em voz alta. "Quando os próprios jovens leem, costumam se preocupar com questões como a pronúncia e a entonação, que não eram o foco dessa atividade", analisa. Em alguns pontos do texto, ela pausou e discutiu quais estratégias ajudariam no entendimento. Uma delas é a recapitulação do que já foi lido até determinado ponto. A cada parada, a turma fazia um balanço do que havia ou não captado do trecho. A educadora conta que é comum alguns alunos dizerem que não entenderam nada. "Sempre pergunto algo como: Esse texto fala sobre a venda de comidas na China atual? Eles riem e dizem que não. Aí aponto que, então, eles assimilaram alguma coisa. Daí continuamos a discussão", comenta.

Observando as partes já lidas, também vale tentar inferir o significado de termos desconhecidos pelo contexto e identificar palavras-chave, cuja assimilação é mais importante. "É possível continuar lendo sem peceber o sentido de alguns termos e, ainda assim, compreender a situação", coloca Verônica. Ao final do primeiro conto, a docente e a turma listaram as estratégias usadas em um quadro como o acima, Estratégias de leitura.

Em seguida, os alunos leram um novo texto do livro em duplas e outro individualmente. "Costumo apresentar questões sobre o enredo e pedir que eles comecem a ler. À medida que vão avançando, faço mais perguntas", diz a professora. O objetivo é que os jovens ganhem mais autonomia a cada leitura. Assim, as perguntas passam a ser cada vez menos específicas até que eles compreendam o texto sem esse auxílio. Como avaliação, promova um debate ou a elaboração de uma resenha coletiva.


Ilustrações: Opala Rosa Choque