Ir ao conteúdo principal Ir ao menu Principal Ir ao menu de Guias

Faltam para:   

Sala de Aula | Geografia | 6º ao 9º ano | Sala de aula


Por: Bruna Escaleira, Jacqueline Hamine e Daniele Pechi

Afinal, que lugar é este em que vivemos?

Os jovens foram a campo, analisaram o bairro e propuseram soluções para os problemas

Ao desenhar a região, a turma usou elementos cartográficos como legendas e escala. Foto: Arquivo pessoal/Peter Trento

Bairros periféricos de grandes cidades brasileiras costumam ser tachados de violentos, sujos e até culturalmente pobres. "A maior parte das informações sobre essas regiões é estigmatizada. O mais triste desse discurso é que alguns moradores das periferias acabam se apropriando dele também", diz Suely Gomes, professora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). "É só com base no estudo do espaço que teremos argumentos para questionar os equívocos desse pensamento e promover transformações", defende.

Para auxiliar os jovens a formar um senso crítico sobre o bairro Capela, no município de Vinhedo, a 76 quilômetros de São Paulo, o professor Peter Trento, da EM CIC Eduardo Von Zuben, propôs um projeto a todas as turmas dos anos finais do Ensino Fundamental. "A divisão do trabalho ficou assim: a garotada do 6º ano observou imagens de satélite para identificar as transformações da área nos últimos 15 anos; a do 7º ficou responsável pela elaboração de um censo local; e os alunos do 8º e 9º anos montaram o roteiro da saída de campo", conta o educador.

Com o 6º ano, Peter começou apresentando imagens atuais do Capela feitas por satélite no laboratório de informática. Sem dizer que se tratava do lugar em que moram, perguntou se os estudantes reconheciam aquele espaço. Ao aumentar a escala, eles puderam identificar pontos de referência, como a Rodovia Anhanguera, a granja vizinha à escola (hoje desativada) e a própria instituição. "Pedi que fizessem um mapa mostrando como veem o bairro (como nos trabalhos desta página). Depois, exibi algumas fotos antigas para que eles pudessem verificar as transformações", lembra.

Ao comparar as imagens de satélite do início dos anos 2000 (também acessadas por meio do Google Earth) às mais recentes, a turma notou o crescente número de indústrias e condomínios fechados de alto padrão, que abrigam executivos dessas empresas. Além da mudança na paisagem, quando debateram o assunto, os alunos constataram que a construção dos condomínios contribuiu para o aumento dos preços nos supermercados da região. Por outro lado, a chegada das indústrias gerou empregos em áreas como portaria, jardinagem e faxina, o que provocou uma onda migratória recente para a cidade, da qual participaram muitas famílias atendidas pela escola.

Reflexões como essas dão significado aos mapas. "A cartografia é fundamental para compreender a organização espacial de forma autônoma. Se faz sentido na vida prática do estudante, ele faz conexões com seu aprendizado cultural e enxerga que não se trata de uma porção de imagens ilustrativas", explica Paulo Boggiani, professor de Geociências da Universidade de São Paulo (USP).

Da imagem à realidade

Para investigar as mudanças levantadas pelo 6º ano, Peter propôs aos alunos do 7º ano a realização de um censo da comunidade. Eles analisaram o questionário e os resultados do censo nacional no IBGE Teen, página do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística voltada aos adolescentes. Depois, prepararam um formulário de 20 perguntas, focado em dados como a cidade de origem de cada família, a escolaridade dos pais e sugestões de melhorias para o entorno.

"Existia uma noção de que a maioria dos moradores do Capela era do Nordeste. No entanto, os dados mostram que grande parte das famílias veio do Paraná e de Santa Catarina", observa o educador. "Ao levantar hipóteses e ir a campo verificá -las, os adolescentes desconstroem ideias preconcebidas sobre a história daquele grupo social e criam laços mais significativos com o lugar onde moram", afirma Suely.

Em seguida, Peter propôs um passeio de exploração do bairro às turmas do 6º ao 9º ano. Na atividade, os alunos apresentariam a região a docentes que não moram ali. Os 8º e 9º anos criaram um roteiro com três paradas: o bosque, a represa e uma réplica de castelo medieval que seria uma casa de shows, mas nunca funcionou.

"Dizem que periferias não têm áreas verdes e eu também acreditava nisso. Não sou original de São Paulo, vim da Bahia, não cresci no Capela. Por meio desse trabalho, descobri que há um bosque a menos de 1 quilômetro da minha casa", comenta Greice Santos, 16 anos.

No dia do passeio, os alunos foram orientados a anotar aspectos relevantes para o entendimento do lugar. Durante o trajeto, observaram graves problemas ambientais: os dois lagos do bosque estavam poluídos, a represa praticamente seca e havia lixo pelo chão. Além disso, a falta de planejamento da cidade foi evidenciada pela inutilização da casa de shows e a localização inadequada da própria escola, entre um córrego e uma granja.

Com máquinas fotográficas e celulares, os jovens registraram seus olhares sobre o local. Usaram as imagens em uma exposição para a reunião de pais. Os estudantes ainda produziram um relatório sobre os problemas socioambientais da área que foi entregue ao diretor da escola. "A experiência coletiva é muito legal, porque ensinamos e aprendemos ao mesmo tempo. Ver os problemas com meus próprios olhos também despertou mais interesse de cuidar do meu bairro", conta a aluna Vitória Messias, 14 anos.

A saída a campo rendeu uma exposição de fotos com reflexões sobre os problemas da região. Foto: Arquivo pessoal/ Peter Trento