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Seções | Cultura da Infância


Por: NOVA ESCOLA

As crianças e o modo como elas são e pensam

Regina Scarpa escreve sobre o desenvolvimento das crianças

Regina Scarpa,

Regina Scarpa,
doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e diretora pedagógica da Escola Vera Cruz, em São Paulo

Na pré-escola, onde eu trabalhava como coordenadora pedagógica, duas crianças de 4 anos tiveram um divertido diálogo:

- Na minha casa na praia tem um pastor alemão muito bravo - disse Miguel.

- Na igreja da minha avó também tem um pastor alemão muito bravo - concordou Isabela.

E a conversa seguiu animadamente sem que as crianças se dessem conta de que estavam falando de coisas diferentes. Esses momentos surpreendentes são uma das grandes delícias de trabalhar nessa etapa da escolaridade. Como em boa parte das manifestações infantis, porém, é importante ir além das aparências. Penso que essas duas falas nos dão uma breve amostra da natureza e das especificidades do pensamento dos pequenos. Dizemos que ele é sincrético.

Sincretismo pode ser entendido como fusão, conciliação. No caso do raciocínio infantil, ocorre a mistura entre diferentes formas de pensar - a racional, a afetiva, a imaginativa etc. É um jeito muito particular de a criança aprender: ela estabelece conexões subjetivas que a auxiliam a passar do conhecido para o desconhecido.

Esse tipo de pensamento se manifesta por meio da livre associação, da analogia e da metáfora. É por isso que, muitas vezes, os pequenos enunciam relações entre objetos que só têm sentido para eles, e que nós achamos engraçadas ou absurdas.

O sincretismo é anterior ao pensamento categorial, aquele que classifica e hierarquiza o conhecimento em caixinhas e é a forma típica dos adultos organizarem sua visão sobre o mundo. Estruturar a realidade por categorias é sem dúvida um procedimento valioso para construir nossa visão a respeito do universo que nos rodeia e poder compartilhá-la. No caso dos pequenos, entretanto, é preciso ter em mente que eles possuem com a cultura ainda não possui os contornos clássicos com os quais os objetos de conhecimento se apresentam nas etapas posteriores de escolarização. Nas respostas infantis, muitas vezes, ainda não aparecem os significados estáveis das palavras que, partilhadas pela sociedade, fazem da linguagem um ato de generalização.

É possível, e necessário, recorrer a abordagens que compreendam o potencial da criança e sua forma de pensar. Emoção e imaginação estão ligadas às construções de sentido e de conhecimento, possuem valor interpretativo e podem ser vistas como faculdades aliadas do pensamento. Assim, o trabalho pedagógico deveria se amparar numa concepção de ciência que não separe o raciocínio da imaginação nem a construção de conhecimentos da construção da subjetividade.

Lev Vygotsky (1896-1934) nos ensina que, assim como o pensamento racional, a imaginação também é aprendida. Isso depende de proporcionar aos pequenos ricas experiências pessoais, ampliando o material à disposição de seu potencial de abstração. Nesse aspecto, o papel do educador - adulto que passa até oito horas diárias com a criança - é fundamental. A aprendizagem vai sendo produzida graças às oportunidades para participar de diálogos com outras pessoas. Na escola, isso ocorre quando a criança tem momentos para interagir, conversar, confrontar opiniões, exercer seu ponto de vista e sua expressão.

Essa abordagem aponta para duas necessidades: observar atentamente como os pequenos pensam e saber considerar esses dados no planejamento das propostas pedagógicas. Tudo isso exige competência leitora e interpretativa dos educadores de creches e pré-escolas acerca desse universo simbólico, construído com tanto esforço e seriedade pela criança. O que ressalta - mais uma vez - a importância de olharmos para a formação inicial e continuada desses profissionais.

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