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Jornalismo

Provocações: diversão para uns e sofrimento para outros

Telma Vinha comenta os desafios da Educação moral

PorNOVA ESCOLA

15/08/2015

Telma Vinha,

Telma Vinha,
professora de Psicologia Educacional da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

"Queimado de sol assim, você parece uma salsicha!" Provocações como essa são frequentes nas relações e estão presentes na escola. Comuns desde a infância, se tornam a principal causa dos conflitos entre adolescentes. Muitas vezes, são usadas para socializar, "passar o recado" sem soar agressivo, reduzir o embaraço no flerte e até para se divertir. Afinal, irritar é prazeroso! Como se caracterizam por dois elementos combinados, o humor e a agressão, elas têm um caráter ambíguo e merecem atenção dos educadores.

É importante não confundir provocação com bullying. A primeira pode até estar presente em uma situação em que ocorre bullying, mas é possível também que ela tenha um cunho apenas de diversão ou ser construtiva, como quando descontrai em um momento constrangedor.

Contudo, embora essas atitudes possam ser vistas como inocentes e engraçadas para os provocadores, os alvos geralmente as interpretam de maneira menos positiva e mais maliciosa, o que gera sentimentos de raiva, vergonha e tristeza. Já entre os autores, há um certo status de superioridade e uma sensação de poder.

Caso seja direcionada a pessoas vulneráveis, essa picuinha é dolorosa e se torna preocupante quando são percebidas respostas emocionais negativas dos atingidos. Isso porque a forma como as crianças e os adolescentes reagem a ela pode ter consequências para a autoestima e a aceitação no grupo. Isso condiciona o quão simpático e popular o sujeito parecerá aos olhos dos colegas e influencia provocações que sofrerá no futuro.

Uma pesquisa, que acompanhou estudantes por anos, mostrou que a autoestima das garotas foi significativamente afetada por provocações sobre a aparência delas, enquanto que, para os rapazes, o que mais incomodou foram os ataques à competência (força, inteligência).

Estudos também evidenciaram que as formas menos eficazes de lidar com essas atitudes são com comportamentos hostis - como xingar, bater, discutir e chorar - ou desafiadores - a exemplo de ameaçar e desdenhar. Já as mais efetivas são a indiferença e, principalmente, o humor (imagine responder ao comentário que abre este texto com: "Mas não qualquer salsicha. A mais gostosa!"), pois demonstram que a pessoa se mantém imperturbável, o que dissolve a provocação, diminui a possibilidade de ela ser alvo novamente e contribui para maior aceitação entre os pares.

É comum também que as vítimas procurem o professor, mas geralmente essas situações não são trabalhadas na escola, pois são vistas como brincadeira da idade, em especial nos anos finais do Ensino Fundamental. Não se mostrar sensível à angústia do aluno que é alvo faz com que a experiência emocional dele não seja validada. A consequência pode ser a perda da confiança do estudante na instituição e o desencorajamento de relatos de episódios futuros.

Precisamos, portanto, realizar intervenções individuais, como ensinar habilidades sociais ao atingido, e em grupo, debatendo as provocações por meio de filmes e situações hipotéticas ("O que você faria se"). Quando as chateações são frequentes, vale conversar com o autor sobre os ganhos e as perdas de seus atos e o efeito no ambiente, ou seja, que, para ele se divertir, promove irritação e desequilíbrio. Convide-o a diminuir esses episódios. O docente tem papel central no clima de aceitação, segurança e respeito da turma. Sua postura frente à provocação interfere em como os alunos enxergam a si e são vistos.


Em colaboração com Carolina A. Escher Marques, do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem) da Unicamp e da Unesp
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