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Por: NOVA ESCOLA

Provocações: diversão para uns e sofrimento para outros

Telma Vinha comenta os desafios da Educação moral

Telma Vinha,

Telma Vinha,
professora de Psicologia Educacional da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

"Queimado de sol assim, você parece uma salsicha!" Provocações como essa são frequentes nas relações e estão presentes na escola. Comuns desde a infância, se tornam a principal causa dos conflitos entre adolescentes. Muitas vezes, são usadas para socializar, "passar o recado" sem soar agressivo, reduzir o embaraço no flerte e até para se divertir. Afinal, irritar é prazeroso! Como se caracterizam por dois elementos combinados, o humor e a agressão, elas têm um caráter ambíguo e merecem atenção dos educadores.

É importante não confundir provocação com bullying. A primeira pode até estar presente em uma situação em que ocorre bullying, mas é possível também que ela tenha um cunho apenas de diversão ou ser construtiva, como quando descontrai em um momento constrangedor.

Contudo, embora essas atitudes possam ser vistas como inocentes e engraçadas para os provocadores, os alvos geralmente as interpretam de maneira menos positiva e mais maliciosa, o que gera sentimentos de raiva, vergonha e tristeza. Já entre os autores, há um certo status de superioridade e uma sensação de poder.

Caso seja direcionada a pessoas vulneráveis, essa picuinha é dolorosa e se torna preocupante quando são percebidas respostas emocionais negativas dos atingidos. Isso porque a forma como as crianças e os adolescentes reagem a ela pode ter consequências para a autoestima e a aceitação no grupo. Isso condiciona o quão simpático e popular o sujeito parecerá aos olhos dos colegas e influencia provocações que sofrerá no futuro.

Uma pesquisa, que acompanhou estudantes por anos, mostrou que a autoestima das garotas foi significativamente afetada por provocações sobre a aparência delas, enquanto que, para os rapazes, o que mais incomodou foram os ataques à competência (força, inteligência).

Estudos também evidenciaram que as formas menos eficazes de lidar com essas atitudes são com comportamentos hostis - como xingar, bater, discutir e chorar - ou desafiadores - a exemplo de ameaçar e desdenhar. Já as mais efetivas são a indiferença e, principalmente, o humor (imagine responder ao comentário que abre este texto com: "Mas não qualquer salsicha. A mais gostosa!"), pois demonstram que a pessoa se mantém imperturbável, o que dissolve a provocação, diminui a possibilidade de ela ser alvo novamente e contribui para maior aceitação entre os pares.

É comum também que as vítimas procurem o professor, mas geralmente essas situações não são trabalhadas na escola, pois são vistas como brincadeira da idade, em especial nos anos finais do Ensino Fundamental. Não se mostrar sensível à angústia do aluno que é alvo faz com que a experiência emocional dele não seja validada. A consequência pode ser a perda da confiança do estudante na instituição e o desencorajamento de relatos de episódios futuros.

Precisamos, portanto, realizar intervenções individuais, como ensinar habilidades sociais ao atingido, e em grupo, debatendo as provocações por meio de filmes e situações hipotéticas ("O que você faria se"). Quando as chateações são frequentes, vale conversar com o autor sobre os ganhos e as perdas de seus atos e o efeito no ambiente, ou seja, que, para ele se divertir, promove irritação e desequilíbrio. Convide-o a diminuir esses episódios. O docente tem papel central no clima de aceitação, segurança e respeito da turma. Sua postura frente à provocação interfere em como os alunos enxergam a si e são vistos.


Em colaboração com Carolina A. Escher Marques, do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem) da Unicamp e da Unesp

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