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Seções | Entre Colegas


Por: NOVA ESCOLA

Para levantar o que a turma já sabe, não basta perguntar

Felipe Bandoni fala sobre o dia a dia do professor

Felipe Bandoni,

Felipe Bandoni,
professor de Ciências na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo

"Os alunos não são um quadro em branco." Essa afirmação, antiga conhecida dos professores, nos dá a noção de que as crianças e os adolescentes já têm ideias, mesmo que incompletas ou equivocadas, sobre os assuntos que abordamos em sala. Isso ocorre até na Educação Infantil, como evidenciam pesquisas na área. Sendo assim, quando introduzimos um tema que consideramos novo, certamente algum aspecto dele não é inédito para a turma. Muitos educadores têm consciência disso e reconhecem a importância de realizar uma sondagem ao iniciar um trabalho.

Ao levantar o que a garotada conhece sobre determinado assunto ou o que ela imagina que um termo quer dizer, o docente consegue planejar melhor suas propostas, evitar repetições e enfocar as questões mais problemáticas.

Acessar esses saberes nem sempre é simples, pois não basta perguntar: "O que vocês conhecem sobre isso?" ou "Qual o significado desse conceito?". Em muitos casos, aparecem respostas decoradas e que não fazem sentido para quem as declara. Um aluno pode dizer, por exemplo, que o DNA está nas células de todos os seres vivos, porém, quando questionamos se ele come DNA ao se alimentar, é provável que não consiga responder. Essa hesitação acaba sendo o mais revelador sobre a concepção que esse estudante tem a respeito do material genético.

Portanto, não podemos cair no risco de fazer o levantamento desses conhecimentos de forma burocrática. Para descobrir as ideias que o aluno realmente tem sobre algo, é mais eficaz observar como ele opera o conceito em situações específicas, que devem ser cuidadosamente planejadas pelo professor. Esses saberes podem aparecer na análise de uma imagem, ao longo da resolução de um problema ou em uma discussão sobre o conteúdo de determinada reportagem.

Outra atitude pouco proveitosa é levantar as hipóteses dos estudantes apenas para corrigi-las, apresentando, em seguida, as informações tidas como certas. Embora as colocações da garotada não estejam perfeitamente corretas, desconsiderá- las de pronto insinua que somente o professor é o portador do conhecimento e que não há outra maneira de obtê-lo a não ser ouvindo o docente.

Problematizar as ideias que surgem em sala é o melhor caminho, mesmo que elas sejam equivocadas. Nas minhas aulas de Ciências, por exemplo, é comum pensarem erroneamente que o sistema digestório absorve as coisas boas dos alimentos e elimina as ruins. Para que a turma avance em suas hipóteses, questiono: "Então, como é possível que alguém morra tomando veneno? O corpo não deveria eliminá-lo?". Quando refletem e pesquisam sobre o funcionamento do intestino, os alunos percebem, eles mesmos, que a ideia que apresentaram inicialmente precisa ser revista.

Essa problematização não se restringe aos conceitos, ela também pode ser aplicada a procedimentos. Ao tentar solucionar um problema matemático que envolve multiplicação, aparecem estratégias variadas de resolução entre os estudantes, como diferentes formas de decompor os números. O professor que traz à tona essa diversidade possibilita que a turma amplie o repertório de cálculos, ao mesmo tempo que valoriza a participação de cada um, incentivando-os a desenvolver e apresentar suas próprias ideias.

Vale ressaltar que, para que a sondagem inicial seja produtiva, esse levantamento não pode se perder no meio do caminho. Por vezes, acontece de o docente pedir que os alunos façam um cartaz com as concepções que têm sobre o assunto, colar na parede da sala de aula, mas nunca retomá-lo. É observando se as ideias deles avançaram que se chega à conscientização do aprendizado.

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