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Escola é, sim, lugar de ação e aventura

Entenda como adaptar o ambiente para esportes como rapel, patins e arvorismo

POR:
Jacqueline Hamine, Fernanda Salla e Anna Rachel Ferreira

Radical é a palavra que une esportes tão diferentes quanto a patinação, o rapel e o arvorismo. Muitos educadores acreditam que eles são inadequados para a escola, sob justificativas compreensíveis: são perigosos, não dá para reproduzi-los na forma oficial, faltam equipamentos etc. A reflexão que esta reportagem pretende colocar é que não precisa ser assim.

"Cabe à escola ampliar o repertório de cultura e práticas corporais dos estudantes, não limitá-lo", diz Francisco Eduardo Caparróz, professor do curso de Educação Física na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Nesse sentido, os esportes radicais podem turbinar a lista de atividades vivenciadas pela moçada. NOVA ESCOLA vem mostrando como fazer isso com a bicicleta, o skate, o parkour e o slackline

O professor Daniel Teixeira Maldonado, da EMEF 19 de Novembro, na capital paulista, trabalhou todas essas modalidades com seus alunos do 7º ano ? além da trinca mencionada na abertura deste texto. Ele não possuía na escola um paredão ou vão livre para descer usando as cordas do rapel, muito menos uma estrutura de passarelas entre árvores para praticar o arvorismo. Sem crise. "Analisei o ambiente que tínhamos e fiz adaptações para a nossa realidade." Em muitos casos, como o dos patins, a dificuldade é que não havia equipamentos para todos. "Contei com a colaboração da turma e de colegas para conseguir os apetrechos", diz o educador.

Fazer ajustes não é um problema. Ao contrário, é o segredo da prática no ambiente escolar. "O esporte na escola não precisa ser uma reprodução literal do que existe fora dela", diz Caparróz. Sua função é estar a serviço dos objetivos de aprendizado - que, no caso planejado por Maldonado, eram a experimentação corporal e o aumento dos conhecimentos sobre as categorias esportivas.  

Como ponto de partida, o professor buscou informações no livro Pedagogia da Aventura: Os Esportes Radicais de Aventura e de Ação na Escola, de Dimitri Wuo Pereira e Igor Armbrust (160 págs., Ed. Fontoura, tel. 11/4587-9611, 30 reais). Segundo a obra, esses esportes são agrupados em duas categorias: modalidades de aventura ou de ação. O primeiro conjunto tem um caráter mais desbravador e promove um trabalho de resistência cardiorrespiratória, a exemplo do arvorismo e do rapel. Já o segundo grupo está relacionado a atividades que exigem equilíbrio e agilidade, como é o caso da patinação. Armbrust, um dos autores, fornece um critério interessante para julgar se a vivência do esporte radical foi bem-sucedida na escola: "Se a prática proporciona desafio, tomada de decisão e enfrentamento dos medos, tem os elementos essenciais da modalidade".

Atenção especial para a segurança
As aulas se desenvolveram sempre da mesma maneira: primeiro, o docente mostrava imagens do esporte radical que seria trabalhado. Em seguida, compartilhava informações básicas para a prática, com especial atenção para os equipamentos e procedimentos de segurança. "Procurei mostrar que os riscos fazem parte dessas modalidades, pois elas visam à superação de limites. Mas isso não significa falta de proteção", explica. Depois, partia para a vivência. Ao fim do dia, voltava à sala para que a turma debatesse a experiência. 

Na patinação, o desafio do equilíbrio sobre rodas foi enfrentado com a ajuda de colegas
Crédito: Joyce Cury

No caso das modalidades de ação que precisavam de materiais específicos, Maldonado pediu aos alunos que tinham o equipamento em casa para levarem à aula. Para experimentar a patinação, ele conseguiu quatro patins. A turma foi, então, dividida em trios. Em cada grupo, um estudante patinava, enquanto os dois colegas o apoiavam com as mãos. Nesse momento, o professor dava orientações para o deslocamento, como sugerir que deixassem os joelhos semiflexionados para se equilibrarem melhor (esse era, afinal, o maior desafio da vivência). 

No rapel, a trave da quadra fez o papel  de vão livre para a descida com cordas
Crédito: Joyce Cury

Adrenalina com cordas
Para as modalidades de aventura, Maldonado precisou analisar os espaços da escola para eleger os mais adequados à prática. A trave do gol da quadra foi escolhida para o rapel, que consiste em descer, com o auxílio de cordas, de locais altos. O gol suportava o peso dos alunos e a altura era suficiente. De um lado, possibilitaria que a garotada ficasse pendurada. De outro, não era tão elevada a ponto de provocar ferimentos graves caso houvesse alguma queda. Ainda no quesito segurança, deixar o cabelo preso para não enroscar nas roldanas fez parte dos procedimentos. Novamente, a falta de equipamentos não impediu a atividade: Maurício Braulio, colega do educador e praticante do esporte, emprestou os apetrechos necessários e ajudou na execução. 

Um por vez, os alunos foram devidamente amarrados no topo da trave, formando uma espécie de cadeirinha com a corda, e iniciaram a descida, amparados pelos adultos. Ter firmeza para segurar uma corda enquanto solta levemente a outra (para descer sem cair de uma vez) e coordenar os pés para apoiá-los na trave (direcionando a descida, como ocorre no rapel em grandes rochas), foram alguns gestos típicos da modalidade oficial experimentados na atividade. "Não se deve esperar um desempenho semelhante ao dos atletas, mas as atividades também não podem ser banais. Os alunos precisam ter clareza do que fazem e por que fazem", diz Sheila Pereira dos Santos Silva, da Universidade São Judas Tadeu (USJT).

No arvorismo, a travessia na corda foi adaptada entre as colunas do pátio
Crédito: Joyce Cury

Para o arvorismo, duas colunas de madeira no pátio fizeram as vezes de árvores. Nas florestas, a travessia é utilizada na recreação e também no estudo de camadas mais elevadas das matas. Na escola, os adolescentes tinham de passar de lado sobre uma corda, enquanto seguravam uma outra presa paralelamente à primeira, na altura da cabeça. O professor sugeriu que afastassem as pernas e os braços para se equilibrarem melhor. A aventura incluía ainda um pequeno circuito, com um banco sueco colocado de ponta-cabeça - de modo a deixar uma tábua estreita para que os alunos caminhassem de frente sobre ela.

Ao final das vivências, já na sala de aula, uma seleção de vídeos ajudou a moçada a entender os movimentos possíveis em cada modalidade. A turma se impressionou especialmente com um trecho do Esporte Espetacular sobre acidentes (abr.ai/acidentes-esportes). O alerta ecoou: "Para essas práticas, é importante escolher lugares com profissionais capacitados", ressaltaram as alunas Larissa Domingues Fernandes Leite, 13 anos, e Stefani Nauani Jacintho Andrade, 14 anos, em trabalho escrito solicitado pelo professor.