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Seus estudantes - todos eles - têm desafios de escrita?

Regina Scarpa escreve sobre o desenvolvimento das crianças

POR:
NOVA ESCOLA
Regina Scarpa,

Regina Scarpa,
Doutora em Educação pela Universidade de São Paulo e diretora pedagógica da Escola Vera Cruz

Guardo uma produção de uma aluna chamada Elisangela, que recebi de uma gestora do interior de São Paulo, durante uma formação. Ao ingressar no Fundamental 1, a pequena havia mudado de escola, mas num dia retornou à EMEI para encontrar os coleguinhas. A antiga professora a recebeu com alegria, sugerindo: "Que tal escrever as coisas que você está aprendendo no 1º ano?". Elisangela logo anotou o pedido no topo da folha: 

OGE EUVISITEI A TIA RITA VOU FAZER TUDO QUE EUFAÇO NA ESCOLA ELISIÁRIO 

Em seguida, pegou o papel e traçou as linhas que você vê no final desta página. Percebeu o problema? Ela já sabia ler e escrever, mas o restante de sua nova turma talvez não. E, por falta de ferramentas para compreender os níveis de conceitualização da escrita de seus alunos, a nova professora passou à menina uma série de exercícios de coordenação motora. 

Eles, felizmente, estão cada vez menos presentes na aula - são resquícios de quando se encarava a aquisição da escrita como um desafio psicomotor, daí o treino para registrar formas e letras era visto como pré-requisito para alfabetizar. O que ainda não mudou é a tendência de tratar todos os alunos como se fossem iguais. No 1º ano, quem mais sofre são os que já compreenderam a base alfabética do sistema de escrita.

Em minha tese de doutorado, investiguei o impacto de propostas didáticas sobre o conhecimento de crianças na pré-escola de regiões vulneráveis. Mesmo nessas áreas complicadas, cerca de 20% dos pequenos entram no Fundamental 1 já alfabetizados. Como os professores tratam esse grupo? Planejam atividades diferenciadas para que os alfabéticos sigam avançando? 

A resposta é não. Em quase 30 anos como formadora, raras vezes vi docentes que tivessem um plano para esses alunos. Desde a década de 1980, possuímos ferramentas didáticas para identificar em que momento da construção da escrita a criança está. É verdade que a maioria dos professores faz essa sondagem e sabe que tem em mãos uma classe heterogênea. Mas poucas propostas diferenciadas surgem com base nessa caracterização. O tratamento da diversidade em sala é um critério didático muito importante. Ele é fundamental para decidir, por exemplo, se uma atividade será individual, coletiva ou em grupos. 

A alfabetização, em sentido pleno, é um longo processo: há que se aprender as regras ortográficas, evoluir nos aspectos discursivos e notacionais da produção de texto, ler mais autonomamente textos de diferentes gêneros... A didática da área já tem vasto conhecimento para orientar os educadores sobre esse trabalho (aqui tem dezenas de sugestões). 

O registro de Elisangela é antigo. Espero que seja, também, ultrapassado. E quanto a seus alunos? Ainda é tempo de garantir que todos tenham os desafios de que necessitam.

 

Elisangela já sabia ler e escrever. Mas perdeu tempo com exercícios de coordenação motora

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