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Inclusão, o maior desafio

A inclusão é o tema de maior necessidade de reforço na formação docente

POR:
Rodrigo Ratier, Paula Peres, Patrick Cassimiro e Ariane Alves

Em qual tema você, professor, sente que precisa de um reforço na formação? Na opinião da maioria dos docentes brasileiros, não há dúvida: é a inclusão. A revelação é de um levantamento exclu

sivo de Qedu.org.br para NOVA ESCOLA com base em mais de 220 mil respostas a questionários da Prova Brasil de 2013. 

Nada menos que 70% dos educadores relatou alta necessidade de qualificação para trabalhar com alunos com deficiência, porcentual muito superior ao de qualquer outro tema (veja o gráfico ao lado). Como outros 20% citaram necessidade moderada, pode-se dizer que o despreparo para a inclusão é uma sensação disseminada nas escolas.

Segundo Maria da Paz Castro, orientadora de práticas inclusivas da Escola da Vila, em São Paulo, o número expressivo guarda relação com a complexidade da tarefa, mas pode indicar receio do professor. "Percebo que o assunto gera temor por ser desconhecido. Mudar isso também cabe a cada docente", argumenta a especialista. 

O primeiro passo, para ela, é conhecer cada aluno - sobretudo aqueles com deficiência intelectual, que costumam ser os mais desafiadores para os novatos na área. "Deve-se levantar o que ele já sabe. Já escreve o nome? Se ainda não, consegue se comunicar de outra maneira?", exemplifica. Outra orientação é buscar formação na própria escola, intensificando o contato com gestores e colegas mais experientes. "O diálogo com quem deu aula para a criança no ano anterior é sempre uma boa forma de apoio", sugere.


Violência e indisciplina

"Regras, regras, mais regras e punições: é dessa forma que a escola tenta ensinar a convivência no espaço público." 
Rosely Sayão, psicóloga, comentando sobre as "não aprendizagens" escolares em coluna no jornal Folha de S. Paulo. 

"Se a criança está com medo e sofrendo, seu desempenho não irá muito longe. O aprendizado será afetado." 
Brian Perkins, professor da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, em entrevista sobre a violência no Brasil.


Valorização docente

O que não funciona

Marli André, professora da PUC-SP, pesquisou iniciativas de valorização docente em 15 secretarias. Identificou três tipos:

  • Valorização e divulgação de boas práticas
  • Prêmios por desempenho nos exames
  • Licenças e bolsas para qualificação profissional

Quais delas ajudam a manter bons professores nas escolas? Atualmente, nenhuma. "Mas a valorização de práticas exitosas pode funcionar com a divulgação de trabalhos coletivos e não individuais. O fortalecimento da equipe é um fator importante para o desejo de permanecer na escola", diz a especialista.


Educação para todos

Metas pela metade

No ano 2000, 164 países concordaram em perseguir seis objetivos estabelecidos pela Unesco para melhorar a Educação. O prazo acabou agora - e o Brasil cumpriu dois deles (veja abaixo). "Progredimos em todas as metas, mas poderíamos ter feito mais. Precisamos de políticas de longo prazo e monitorar até os objetivos já cumpridos, pois pode haver retrocessos", diz Rebeca Otero, coordenadora de Educação da Unesco no Brasil.

 

 

  • Alçancar a paridade e a igualdade de gênero
  • Oferecer Educação primária universal, particularmente para meninas, minorias étnicas e crianças marginalizadas

 

 

 

  • Expandir a Educação Infantil
  • Garantir acesso à EJA
  • Reduzir em 50% o analfabetismo em adultos
  • Melhorar a qualidade da Educação

 

 


Salário

Em 2013, professores da rede pública ganharam 6% a mais que na rede privada. Em 2002, a rede privada pagava 18% a mais.  

Fonte: Pnad / O Globo


Financiamento

Sabe o dinheiro do pré-sal? Então...

Exaltados pelo discurso oficial como a solução para o orçamento da Educação, os recursos para a área gerados pela exploração de petróleo na camada pré-sal (6,7 bilhões previtos) estão decepcionando. Em 2014, ficaram em apenas 43% do previsto (2,9 bilhões). Os motivos passam pela diminuição do preço do petróleo no mercado mundial e a instabilidade política na Petrobrás. Para José Marcelino de Rezende Pinto, professor da USP e especialista em financiamento da Educação, o dinheiro que deixou de entrar poderia ser suprido por outras fontes de receita do governo. "A arrecadação atual é suficiente para cobrir esse montante. A impressão é que a baixa no pré-sal serve de desculpa para cortar o orçamento", lamenta.


Legislação penal

"Se cai a maioridade, perde a Educação"

Para Roberto da Silva, especialista da USP em Educação em prisões e ex-detento, a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos põe em risco direito dos jovens de aprender. 

Se a iniciativa for aprovada, quais as consequências para a Educação? 
Provavelmente, o Brasil irá violar direitos humanos. Entre os adultos, só 10% dos detentos estudam, porque o Estado não tem condições de prover Educação para quem deseja, como diz a lei. Entre os menores em medidas socioeducativas, 100% estudam, pois o ensino é obrigatório. Se o projeto passar, esse direito básico fica ameaçado. 

Numa enquete em nosso site, 55% dos educadores apoiaram a redução. Qual sua opinião? 
Essa medida não resolve em nada a violência. A criminalidade e a sensação de insegurança não são causadas por um número pequeno de adolescentes. 

Como tratar o assunto em aula? 
A questão é, sobretudo, desfazer mitos e preconceitos. Qualquer um está sujeito a cometer um eventual deslize e cair nas malhas da Justiça. Ocorreu comigo. Mas quando isso acontece - sobretudo na adolescência - não é suficiente para comprometer de maneira irremediável o destino de uma pessoa.

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