Sala de Aula | Língua Portuguesa | 7º ao 9º ano | Sala de aula

Reserve lugar para as sagas na estante

Deixe o preconceito de lado e aproveite a febre dos adolescentes pelos best-sellers

POR:
Pedro Silvério, Beatriz Vichessi e Maggi Krause

Muitas escolas torcem o nariz para livros de sucesso como O Hobbit, Harry Potter e outras obras queridas pela garotada (veja, no final da página,  referências bibliográficas desses e dos outros títulos citados nesta reportagem). Isso provoca uma cisão entre o que os alunos demonstram ter interesse e até mesmo leem em casa e o tipo de leitura cobrado pelos educadores. "Não podemos desconsiderar que o comportamento leitor se forma na diversidade", explica João Luís Ceccantini, professor de Literatura Brasileira da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) e pesquisador na área da Leitura e da Literatura Infantil e Juvenil. 

 

"Não podemos desconsiderar que o comportamento leitor se forma na diversidade."

JOÃO LUÍS CECCANTINI, professor de Literatura Brasileira da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) e pesquisador da área de Leitura e Literatura Infantil e Juvenil.

 

Para escolher este ou aquele título, a seleção precisa ser guiada pelas competências que os alunos têm de desenvolver. Uma das primeiras perguntas que o docente deve fazer a si mesmo é: "Por que trabalhar leitura literária na escola?". É o que sugere Olivier Dezutter, professor e pesquisador da Universidade de Sherbrooke, no Canadá. De acordo com ele, não existe somente uma resposta correta para essa questão, já que os objetivos dessa prática podem ser diversos: ampliar o vocabulário, desenvolver o hábito da leitura, aprender a ter prazer com a atividade, explorar uma temática específica, pesquisar e reunir informações sobre determinado assunto, conhecer o patrimônio cultural de um país, estudar questões linguísticas, entender o estilo de determinado autor, entre outros. O educador ainda pode se valer da fama desses títulos mais populares entre os adolescentes para abrir um canal de comunicação com eles e criar um ambiente em que se valorize o hábito da leitura.Diante desse temor, alguns docentes preferem se manter num território que julgam ser mais seguro e acabam por eleger títulos clássicos, como os assinados por Machado de Assis (1839-1908), Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e nomes de peso da literatura infantojuvenil - Ana Maria Machado e Ziraldo, por exemplo. Nada de errado com isso, mas é preciso ir além. Títulos como os citados no início desta reportagem podem ser muito interessantes de explorar na escola. Campeões de venda em vários lugares do mundo e adorados pela moçada, os autores de ambos escreveram tramas que podem ser usadas para trabalhar conteúdos curriculares.

Escolha articulada com o planejamento 

É função do docente estar por dentro do que a garotada gosta de ler, buscar outros títulos além dos canônicos e analisar o material para saber o que propor como atividade - de maneira articulada com os objetivos didáticos traçados no planejamento do ano, é claro. 

No Colégio Ofélia Fonseca, na capital paulista, J. R. R. Tolkien (1892-1973), autor de livros como O Hobbit e O Senhor dos Anéis, tem lugar garantido nas aulas de literatura do professor André Renato Oliveira Silva. No primeiro bimestre, os estudantes são desafiados a ler e estudar diversos aspectos de O Hobbit. "Minha escolha se justifica porque, no 8º ano, um dos conteúdos estudados é narrativas mitológicas tradicionais. Tolkien escreveu essa obra inspirado nelas, principalmente nas do povo celta. É um título de ficção baseado em uma cultura real", o educador explica. 

Outros aspectos são trabalhados em sala, como a presença de marcas de oralidade no texto escrito. Originalmente, narrativas dessa natureza são orais. Por isso, há muita repetição de termos, tal como na fala. Também são explorados por Silva os recursos usados para que o narrador (onisciente) dialogue com os leitores. São utilizadas construções como "vocês pensam que...", abrindo um diálogo com o público. 

A leitura é conduzida de modo que, de tempos em tempos, a classe se reúna com o professor para conversar sobre a trama e tirar dúvidas, como em um clube de leitura. A orientação para que os alunos deem conta do livro tem de ser bem conduzida, ainda mais se a turma não tem o hábito de ler solidificado. O Hobbit e outros títulos famosos são compostos de muitas páginas, além de contar com um enredo complexo, com dezenas de personagens. Sendo assim, atividades preparatórias são bem-vindas e apresentar resenhas críticas pode ser interessante. O canadense Dezutter sugere também que o primeiro capítulo seja lido para a sala pelo professor, em voz alta. A entonação da voz, revelando a tensão de certo fato ou o medo sentido por um personagem, explica ele, é um dos trunfos que o educador pode usar para conquistar a classe e apresentar o texto. 

A respeito das atividades pós-leitura a ser realizadas, é imprescindível fugir dos questionários de verificação de conteúdo, com perguntas capciosas e que exigem somente a memória dos alunos. Assim, o professor acaba focando em informações pontuais, deixando de investir em reflexões mais profundas e aspectos literários, como a estruturação dos personagens e o tempo da narrativa, entre outros. 

Elaborar um anúncio publicitário sobre o título lido para recomendá-lo a outros estudantes ou organizar um tribunal para realizar o julgamento de determinado personagem, por exemplo, obrigam a turma a se dedicar, ler as entrelinhas e voltar ao texto diversas vezes para checar detalhes. 

Das telas para o papel ou vice-versa 

Para fisgar a moçada que se interessa por essas e outras histórias (leia abaixo indicações de leitura que fazem a cabeça da turma e podem ser trabalhadas em sala de aula), mas não é muito chegada em ler, o professor pode recorrer aos filmes. Alguns alunos nem sabem que muitas dessas obras deram origem a longas-metragens e não o contrário. A trilogia O Senhor dos Anéis, por exemplo, foi escrita entre 1937 e 1949 e os filmes são de 2001, 2002 e 2003. Ao lançar mão do que está nas telas para conduzir a classe à leitura, é possível ampliar o trabalho para análises de como foi feita a transição, o que se perdeu do original, quais as mudanças e se, com elas, o material ficou mais pobre ou ganhou nova roupagem.

Ilustrações: Pedro Vó