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Sim, ele entende tudo e responde!

Saiba como e por que conversar com os pequenos que ainda estão desenvolvendo a fala

POR:
Jacqueline Hamine, Elisa Meirelles e Nina Turin

Os bebês vivem nos surpreendendo. Muitas vezes, parece que não estão prestando atenção em nada do que dizemos e, de repente, fazem algo que nos mostra que entenderam tudo. Pode ser por meio de um gesto, um olhar, uma sílaba ou uma gargalhada, o fato é que eles já se comunicam e cabe ao adulto ajudá-los no processo de aquisição da linguagem. A professora Ivone Klingbeil da Cruz, da CMEI Professora Clarice Rocha da Rosa, em Curitiba, sabe da importância de escutar atentamente sua turminha de 4 meses a 1 ano e meio, e sempre se admira com as respostas. "Certa vez, estávamos em um momento de leitura e falei o nome do autor do livro, como sempre fazemos. Ele se chama Jack Tickle. Tempos depois, quando ia citar outros autores, uma das crianças sempre dizia ?tique?. Vi que havia ali uma tentativa de comunicação em que procurava repetir o nome do autor", conta a educadora.

Silvana Augusto, formadora do Instituto Avisa Lá, explica por que isso acontece: "Mesmo antes de falar, as crianças entendem o que os adultos dizem e conseguem estabelecer formas de se comunicar". E é justamente por isso que atividades de conversação são tão importantes na creche. No período até 3 anos, os pequenos vão enfrentar diversas mudanças e descobertas nas áreas motora, cognitiva e afetiva. Logo que nascem, eles ainda dependem totalmente das pessoas ao redor. Com o tempo, vão adquirindo autonomia, conseguem controlar os próprios movimentos e aprendem a expressar sentimentos e pensamentos. 

Para que consiga falar - mesmo já nascendo com o potencial de se expressar por meio de palavras -, a criança precisa da ajuda do adulto. "Ela constrói a linguagem imitando, respondendo ao estímulo dado pelo outro, reproduzindo grunidos, aprendendo a rir e a produzir sons que no começo não têm o mesmo sentido que têm para nós, mas pouco a pouco vão compondo o que chamamos de linguagem", explica Lino de Macedo, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). 

Garantir esses momentos de conversa com os bebês é essencial não só para a construção da fala mas também de outras habilidades. É por meio do diálogo que os pequenos aprendem a organizar a memória e começam a reivindicar seu espaço como indivíduos, ocupando futuramente um lugar na sociedade e sendo capazes de expressar seus pontos de vista.

O papel fundamental da escola 

Para que todos tenham as mesmas chances de aprender, é essencial que os educadores acompanhem de perto os bebês. A maioria dos pequenos, até chegar à creche, convive principalmente com os adultos responsáveis por seu cuidado, sem ter muitas chances de se expressar de igual para igual. É no ambiente escolar, portanto, que essas oportunidades podem se tornar mais frequentes. 

Fica, então, a pergunta: quando começar esse trabalho? A resposta é simples: o mais cedo possível. Até 1 ano, as crianças passam por muitas experiências. Aos poucos, elas começam a ter o controle de seus movimentos e conseguem sentar sozinhas, para depois engatinhar, se levantar e, posteriormente, andar. É nesse momento que passam a segurar objetos e brincar com eles. E a aprendizagem da fala pode entrar nesse contexto. 

Como nessa idade muitos bebês ainda não falam, o professor tem de se preocupar em estabelecer outras formas de comunicação. Cada um desenvolve a própria linguagem e é fundamental que os educadores reparem nisso. "Nessa faixa etária, o contato professor-criança é mais importante do que a comunicação em grupo. O educador deve reservar um tempo para conversar com a criança em um diálogo exclusivo", defende Silvana. Uma opção para isso é aproveitar os momentos de cuidado e higiene, como troca de fraldas, banho e alimentação. Olhar nos olhos da criança, contar a ela o que está fazendo, perguntar a opinião são práticas interessantes: "Agora, vamos colocar a sua blusa, olha como ela é bonita. É azul, com bolinhas. Você gosta dessa cor? ". 

Aos poucos, torna-se possível realizar atividades que envolvam toda a sala ou grupos menores. Ivone e as educadoras Carla Andressa Andrade e Marcia da Silva Pinto de Souza, que a acompanham em classe, costumam aproveitar atividades cotidianas e falar com a turminha, mesmo que a maioria ainda não responda. Ivone conta, por exemplo, que ao deixar as crianças no cantinho da leitura, fica atenta aos exemplares que mais chamam a atenção e conversa sobre eles. Quando um dos meninos seleciona uma obra, ela começa um diálogo dizendo: "Olha, você escolheu o livro do gato, que legal! Cadê o gatinho aqui, me mostra? Ah, achei, está aqui! Você quer que eu leia? Deixa eu pegar o livro, então. Cadê o Lorenzo, seu coleguinha? Podemos convidá-lo a ouvir a história com a gente, que tal?". 

As educadoras adotam uma postura semelhante quando levam as crianças para fora da sala, oferecendo novos cenários e objetos para explorar. Nesses momentos, elas estendem um tapete no gramado e disponibilizam brinquedos. "Vamos passando os objetos, eles pegam na mão e nós levantamos questionamentos e falamos sobre a situação, descrevendo e comentando o que está acontecendo", explica Ivone. "Quando uma criança encontra um que faz um ruído curioso, começamos a falar: 'Vocês estão ouvindo esse barulho? Olha só, esse brinquedo aqui faz um barulho quando você mexe nele. Parece um passarinho. Como faz o passarinho?'". 

Silvana lembra que, nesses momentos, o educador deve estar atento às diferentes respostas da turma. "É muito comum a criança apontar para alguma coisa. Esse gesto não significa necessariamente que ela quer que o adulto olhe para aquilo. Às vezes, ela quer que o objeto seja nomeado. É importante nomear o que aponta", diz ela. 

Ivone também incentiva a interação entre a turma. Para tanto, ela costuma chamar a atenção de uma criança para o que a outra está fazendo. "Nós falamos do colega, comentamos algo sobre a roupa, o brinquedo que ele está usando, se está engatinhando, por exemplo." Ao fazer isso, a docente atua como mediadora e estabelece um diálogo entre eles. 

Todas as atividades, embora não sejam organizadas em um projeto, são parte da rotina e exigem planejamento. Uma vez por semana, as três educadoras fazem uma reunião para analisar os resultados e buscar formas de aprimorá-lo.

Um trabalho constante e que cresce 

As práticas iniciadas com os mais novos não podem ser abandonadas à medida que os bebês crescem. Pelo contrário: o trabalho com a construção da linguagem tem de continuar e ser ampliado conforme os pequenos começam a falar, por volta de 1 a 2 anos. Nesse momento, ganham força as rodas de conversa, situações em que todos podem se colocar e falar sobre diferentes temas. "É nesse espaço que o professor vai conhecer melhor a turma, ouvindo cada um e estabelecendo uma intimidade que é muito importante na Educação Infantil", defende Silvana. 

A especialista destaca dois papéis cruciais do professor nessas atividades: o de propiciar o contato das crianças com a cultura e o de escutá-las. "Muitas vezes, o educador se preocupa muito com o que vai levar para a roda e pouco com o que as crianças vão trazer." É importante que elas tenham espaço para tentar falar sobre o que vivem, sentem e como veem o mundo. Cabe ao professor escutar cada uma e procurar entender o que quer dizer. Trata-se de um processo importante de ouvir, interpretar e tentar conferir se o entendimento está correto. Por exemplo: se um dos pequenos aponta e diz "aua", o docente pode entender "água" e questionar: "você quer água?". A reação dele mostrará se a interpretação estava correta. 

Outro cuidado importante é não deixar de lado quem é mais tímido. Lino de Macedo explica que há crianças que não se colocam diante da sala por timidez, por vergonha ou por não estarem próximas dos colegas com quem falam mais. "É importante que o professor garanta a vez de quem ainda não se sente à vontade ou tem vergonha de falar ao grupo", defende ele. 

É fundamental também deixar o tatibitate de lado. "O professor não deve se infantilizar ao falar com as crianças. Ao contrário, tem de oferecer o modelo de vocabulário e as estruturas gramaticais mais ricas que puder, sabendo que os pequenos estão prestando atenção nisso", afirma Silvana. 

"A gente fala sempre corretamente e devagar com as crianças", explica Ivone. Se uma delas diz algo que não está correto, as educadoras não reprovam, mas repetem a frase, colocando a palavra certa. Andrea Luize, coordenadora da Escola da Vila e do projeto Toda Criança Pode Aprender, do Laboratório de Educação, concorda com a prática e esclarece que o mais favorável não é corrigir diretamente, mas reapresentar a palavra, trazendo para o contexto correto. Ela alerta: "Repreender pode impedir os pequenos de ter vontade de voltar a falar, fazendo com que fiquem pouco a vontade para se colocar em alguns momentos". 

Outro ponto que pode ajudar as crianças a desenvolver a linguagem é construir narrativas com base no que dizem. Andrea conta como fazer isso: "Você pode pegar uma palavra que elas usaram solta e utilizar num momento de conversa, para que possam compreender e ampliar a estrutura da fala". Se alguém diz "bola", é possível traçar uma narrativa, comentando coisas como: "Ah, temos uma bola aqui na classe, vocês viram? Para que serve essa bola?". Com práticas como essa, o educador valoriza a participação e amplia o contexto no qual as palavras estão sendo utilizadas. 

Ao adotar cada uma dessas posturas e falar com a criança de forma rica, usando diferentes entonações e uma linguagem ampla, o professor dá a ela a chance de aprender a expressar o que sente e pensa de forma clara, prática que será fundamental ao longo da vida.


Fotos: Marcelo Almeida