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Quando a palestra vira rotina, adormece o aprendizado

Felipe Bandoni fala sobre o dia a dia do professor

POR:
NOVA ESCOLA
Felipe Bandoni,

Felipe Bandoni,
Professor de Ciências na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo

Nos meus tempos de estudante, tive um professor que dava sempre o mesmo tipo de aula. Não trazia textos para lermos, tampouco propunha atividades. Também não resolvia exercícios e nunca estabelecia uma discussão em sala. Ele se limitava a dar longas palestras sobre os temas da disciplina que ministrava. Não sei como era visto pelos outros educadores, mas, aparentemente, eles não consideravam isso um problema. 

Entre os alunos, o docente tinha fama de saber muito, pois falava sobre o conteúdo sem titubear. Tenho recordação de um colega que se esforçava para anotar tudo o que ele dizia, com medo de perder algo. Já eu, muitas vezes, achava que os discursos desse professor eram enfadonhos e se desenrolavam sem um foco claro. Apesar de não haver indisciplina em sala, lembro que muitos estudantes chegavam a dormir sobre as carteiras. 

Tive diversos educadores assim na minha graduação e, depois, como docente, observei colegas usando a mesma estratégia. Isso me mostrou que o professor-palestrante é um personagem presente até hoje nas escolas. Por saberem a fundo o conteúdo, muitos especialistas acabam abusando dessa metodologia. Tomem como exemplo o meu caso: como biólogo, basta eu passar os olhos por um texto sobre os platelmintos e posso facilmente discorrer sobre isso por 50 minutos. 

Para o docente, essa postura pode ser bastante confortável, pois não dá quase brecha para que a turma participe. Além disso, é um tipo de aula que requer relativamente pouco planejamento e ninguém pode afirmar que o assunto não foi trabalhado, pois o professor passou a aula inteira falando sobre ele. 

Apesar dessa facilidade, as palestras são uma estratégia questionável sob, pelo menos, dois aspectos. O primeiro deles é relacionado à aprendizagem. Será que ter o conteúdo apresentado é garantia de que ele foi aprendido por todos? Um argumento que já ouvi diversas vezes : "Se os alunos não aprenderam, é porque não prestaram atenção". No entanto, a prática mostra que isso não é verdade, pois há estudantes que, mesmo interessados, não conseguem aprender somente com as palestras. É necessário diversificar as propostas e levar em conta a heterogeneidade presente em classe, criando estratégias para que a garotada possa participar ativamente do próprio processo de desenvolvimento.

O segundo aspecto é o risco de não atingir os objetivos estabelecidos. Especialmente quando não são organizadas com cuidado, algumas aulas desse tipo podem ficar transitando de maneira superficial pelos conteúdos, sem deixar claro para a turma o que é o essencial. É comum muitos professores-palestrantes se perderem durante a fala, fazendo digressões e enveredando por assuntos que não são centrais. 

Eu mesmo já me vi nessa situação várias vezes. Em uma ocasião, tinha planejado uma atividade de leitura, e uma aluna me fez uma pergunta. Para respondê-la, interrompi o trabalho e pus-me a discursar sobre um assunto. Quando me dei conta, a aula havia acabado e os objetivos traçados não tinham sido alcançados. Percebi que o mesmo aconteceu diversas outras vezes. 

Para evitar isso, passei a escrever claramente o que espero daquela aula no meu caderno ou no diário de classe e deixá-lo aberto sobre a mesa. Ao visualizar esse lembrete em um momento-palestra, eu interrompo a fala e retomo o fio da meada para chegar ao fim da proposta original. 

Já assisti a palestras excelentes e aprendi muito com elas. Entretanto, precisamos tomar cuidado para não fazer dessa a única maneira de ensinar, sob o risco de perdermos o foco no essencial, que é possibilitar o aprendizado dos alunos.

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