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EJA: arte em papel e o papel da Arte

Alunos de idades e aptidões variadas puderam se expressar por meio da gravura

POR:
Paula Peres, NOVA ESCOLA e Fernanda Salla

A heterogeneidade faz parte de qualquer turma, mas na Educação de Jovens e Adultos (EJA) essa característica fica ainda mais evidente. Idosos que não foram à escola quando crianças convivem com uma moçada que abandonou o percurso no meio e precisa retomar de onde parou, como Brenda de Jesus Belucio, 18 anos, aluna dos anos finais do Ensino Fundamental do Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos (CEEBJA), em Curitiba. Na urgência por recuperar o tempo perdido, disciplinas relacionadas a saberes básicos para a vida social, como Língua Portuguesa e Matemática, ganham peso. Nesse contexto, surge a dúvida: "O que a Arte tem a oferecer a esses estudantes?".

As aulas da disciplina têm uma importância fundamental para desenvolver o olhar crítico dos alunos, que muitas vezes não tiveram essa oportunidade anteriormente, e ampliar suas possibilidades de expressão. "A Arte contribui para aumentar o repertório e a participação social e cultural deles", diz Eliane Patricia Serrano, coordenadora do curso de Artes Visuais da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Esses eram os objetivos de Marilza Ferreira da Silva, professora de Brenda, ao trabalhar a colagravura e a papelogravura - técnicas de gravura cuja matriz é de papelão (veja o passo a passo da colagravura na galeria). "Aprendi coisas sobre as quais nunca tinha pensado", diz a estudante, que havia largado os estudos no 8º ano. "Entrei como aprendiz numa empresa e não consegui conciliar com a escola, então perdi um ano de estudo. Por estar atrasada, voltei na EJA."

Como ponto de partida, a docente perguntou o que os alunos sabiam sobre gravura. "Eu não conhecia nada", diz Brenda. Então, Marilza contextualizou o início dessa linguagem e falou sobre como a função dela mudou no decorrer da história. "Ela estava atrelada a processos econômicos, como a xilogravura usada no começo da imprensa. Com a evolução das técnicas e dos materiais, surgiu a ideia do gravurista como artista", explica Maria José Spiteri Tavolaro Passos, professora de Materiais Expressivos da Universidade São Judas Tadeu.

A educadora exibiu o vídeo Gravuras de Maria Bonomi, em que a artista mostra três estilos: xilogravura (feita na madeira), litogravura (que usa a pedra como matriz) e calcogravura (gravada em metal). Para cada material, a técnica de gravação muda. Enquanto na madeira são usados formão, faca ou buril (material de entalhar), na pedra ela é feita com uma tinta específica que corrói o local onde é colocada. O metal pode ser gravado com ácidos ou instrumentos de ponta.

Os alunos debateram sobre o que viram no vídeo. Eles identificaram que essa modalidade artística carrega duas informações: a técnica e a estética, que reflete o estilo e a intenção do autor. Um prato cheio para Brenda, que costuma desenhar e descobriu na arte uma possibilidade de se expressar. "As aulas ampliaram meu repertório e me ajudaram a aprimorar meu traço", afirma. Marilza destacou, ainda, que a principal característica da gravura é possibilitar reproduzir a mesma imagem inúmeras vezes.

A docente exibiu, então, imagens de três obras em papelogravura do português Orlando Dasilva (1923-2012): Rinoceronte, Baleia Azul e Peixe. Na apreciação, os estudantes ressaltaram o fato de todas elas serem de animais grandes - uma das características do artista -, com cores vivas e texturas variadas presentes em uma mesma impressão. "Eles não acreditavam que aquilo era feito só com papelão, então levei algumas produções minhas para mostrar que era algo possível de ser realizado por eles também", diz Marilza.

Para que se apropriassem da linguagem, foi dado início ao trabalho prático. A escolha da papelogravura e da colagravura se deu pelo fato de poderem ser aplicadas por pessoas de diferentes idades e habilidades. A educadora propôs uma reflexão sobre o uso do papelão e o trabalho dos catadores que tiram o sustento do reaproveitamento dele, diminuindo o impacto ambiental.

Os alunos foram a campo entrevistar esses profissionais para entender mais sobre o cotidiano deles. "Notei quanto eles se sentem invisíveis. São tão excluídos da sociedade que ninguém enxerga o valor do que fazem", diz Brenda. Em sala, todos compartilharam as histórias ouvidas. O debate serviu de tema para as obras criadas.

Segundo Eliane, esse tipo de discussão é válido, mas é preciso cautela para não deixar que a Arte fique somente a serviço de outras áreas ou demandas. "É o próprio pensar e fazer artístico que leva as pessoas a refletir sobre questões do mundo, não o contrário. As aulas da disciplina dão o suporte e os meios necessários para o desenvolvimento de um sujeito crítico."

Em seguida, cada estudante elaborou um desenho, em um papel sulfite, do que gostaria de gravar. "Quis destacar a questão da invisibilidade dos catadores, por isso fiz uma roda de carrinho de mão, que é algo relacionado a eles, e uma máscara, que simbolizava a falta de um rosto", conta Brenda. Os desenhos foram transferidos para o papelão com o uso de um papel-carbono.

Guilherme Kikuti, gravurista e professor da Fundação Casa, em São Paulo, lembra que é comum os alunos terem dificuldade com a imagem espelhada. "Eles desenham a base como querem que fique o resultado final, mas a imagem sai invertida na impressão, como no caso de um carimbo. Para ajudá-los, é interessante levar um espelho à aula e pedir que eles vejam os reflexos e pensem sobre como deve ser a matriz para que a impressão fique como imaginam."

Com o desenho pronto, os alunos escolheram a técnica que iriam usar. Para a colagravura, juntaram pedaços de papelão e barbante para compor a matriz, como fez Brenda. Quem optou pela papelogravura usou palitos ou tesouras para esculpir o papelão. Depois, passaram tinta guache nas áreas que ficariam em destaque na imagem e puseram um papel em branco por cima, pressionando com as mãos ou com uma colher de pau para assegurar o bom resultado da impressão.

As reproduções foram assinadas e numeradas pelos autores, como é comum entre os gravuristas. Por fim, foi realizada uma exposição na escola. "Aprendi muito sobre o papel da Arte, que não é somente estético, mas também o de fazer pensar", diz Brenda, orgulhosa de sua produção.

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