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Cada povo tem seu jeito de hablar

Costumes e regras sociais influenciam o uso dos pronomes de tratamento no mundo hispânico

POR:
Bruna Escaleira, Pedro Annunciato e NOVA ESCOLA

O professor Cláudio Muzzio já sentiu na pele como o encontro entre culturas pode ser enriquecedor - e criar situações curiosas. Argentino, ele chegou a Salvador há 15 anos e ainda lembra das primeiras vezes em que tentou cumprimentar um brasileiro. "Na Argentina, os homens se saúdam com beijos no rosto. Quando cheguei aqui na Bahia, os brasileiros se esquivavam, viravam o rosto, e eu quase beijava o pescoço deles", conta, divertindo-se com a lembrança. Em suas aulas de Espanhol no Colégio Miró, na capital baiana, Muzzio trouxe essas vivências para a sala e mostrou aos alunos do 6º ano como a cultura de cada povo se reflete não apenas em gestos e regras de convívio mas também nos variados usos de uma língua como o espanhol, que é o idioma oficial de 21 países.

Para proporcionar um contato com a diversidade do idioma, o docente decidiu demonstrar como os pronomes de tratamento do espanhol - como tú, vos e usted - são usados de forma diferente em cada país ou região. De modo geral, os pronomes e vos são utilizados em relações de proximidade, enquanto usted aparece em ocasiões mais formais, como as que envolvem autoridades ou pessoas mais velhas. Mas essa regra está longe de ser universal e as diferenças começam a aparecer, principalmente, nas situações de proximidade. Na maioria das regiões da Espanha, Bolívia, do México e Peru, além das Antilhas, usa-se com frequência o. Já em outras partes do México e da Espanha, na América Central e nos países da região do Rio da Prata, como Argentina e Uruguai, o vos predomina - mas é conjugado com diferentes tempos verbais dependendo do lugar.

"Não há uma única gramática do espanhol. Tudo depende do uso que cada povo faz dele, do sentido que atribuiu à língua e da forma como o dialeto foi se disseminando nas regiões colonizadas", explica Celina Fernandes, mestre em Sociologia da Educação pela Universidade de São Paulo (USP). É por isso que Muzzio foge de simplificações: "Não gosto de reduzir os pronomes a uma tabela, porque, às vezes, no 'ao vivo', é bem diferente. Em um mesmo país, pode variar muito a forma de tratamento".

 

O espanhol no cotidiano

Para iniciar a conversa, Muzzio selecionou artigos de jornais e reportagens em vídeo de vários países hispânicos e pediu aos alunos que analisassem a maneira como os pronomes de tratamento aparecem na imprensa de cada lugar, levando em consideração o contexto específico em que cada um deles era falado.

Quem também recorreu a recursos audiovisuais foi a professora Beatriz Novich, que trabalha com as turmas do 6º ano da Escola Projeto Vida, em São Paulo. Beatriz começou a aula exibindo dois vídeos disponíveis na internet, um espanhol e outro argentino. As gravações amadoras mostram estudantes entrevistando pessoas de várias faixas etárias pelas ruas de suas cidades, o que resulta em uma boa demonstração de como os pronomes de tratamento são usados em diferentes circunstâncias nos dois países.

Após assistirem ao material, a professora pediu que os alunos fizessem no caderno uma comparação entre eles a partir de três aspectos: (1) situação em que ocorrem os diálogos, (2) palavras utilizadas pelos interlocutores e (3) características das pessoas envolvidas. "Com essa atividade, os alunos conseguiram notar as diferenças entre as ocasiões e as culturas e perceberam que não existe uma forma 'correta' única de utilizar o, o usted e o vos", justifica Beatriz. Com base nas observações registradas no papel, a turma produziu pequenos diálogos utilizando os pronomes de tratamento, sempre considerando interlocutores e situações variados.

Celina concorda com a opção feita por Muzzio e Beatriz: "É importante escolher materiais em que ocorra o uso vivo da língua, como um filme ou um artigo de jornal 'de verdade'. Vale observar a boa qualidade linguística e a diversidade de fontes, buscando selecionar textos ou filmes de diferentes lugares do mundo".

Além de recorrer a esse tipo de subsídio, Celina aconselha o docente a buscar sites de referência, como a página do Instituto Cervantes, que promove o ensino do espanhol. "Outra indicação importante é o site da Real Academia Española, que contém dicionários e gramáticas para consulta", recomenda Adriane Elisa Glasser, professora do Colégio Estadual Flávio Warken, em Foz do Iguaçú, a 643 quilômetros de Curitiba.

 

Vivenciando a língua

O entrevistado, de origem argentina, responde às perguntas feitas pela turma. Foto: Arquivo Pessoal/Cláudio Muzzio

Depois de analisar artigos de jornal e reportagens estrangeiras, a turma de Muzzio passou para a atividade seguinte: uma entrevista com um convidado originário de um país de língua hispânica. "Ao longo dos anos, já participaram da atividade várias pessoas, até mesmo um ator cubano. Procuro favorecer também a escolha de entrevistados que tenham alguma proximidade com a vida dos alunos", diz Muzzio. O professor conta que já chegou a convidar o avô de um dos estudantes, um espanhol nascido na região da Galícia. "A experiência foi bem interessante, porque, além do castelhano, ele falou um pouco do galego, um dialeto típico da região onde nasceu", comenta. Mas não é preciso ter a sorte de contar com a presença de um conhecido estrangeiro para realizar a atividade: utilizando ferramentas para ligações via internet em sala de aula, é possível até entrevistar pessoas que estejam em qualquer país do mundo.

Desta vez, o convidado da turma foi o próprio irmão do professor, o argentino Sergio Marcelo Muzzio. Os alunos se dividiram em quatro grupos e pesquisaram sobre a cultura da Argentina e a vida de Sergio, que estava de passagem pelo Brasil comemorando seu aniversário de 50 anos. Leram até um dos contos do livro La Timidez y Otras Cosas (sem tradução para o português) escrito por ele. Para favorecer a troca de conhecimentos, compartilharam as descobertas que fizeram e, com os dados em mãos, prepararam as perguntas para a entrevista. Depois, para garantir um diálogo organizado, toda a sala definiu em conjunto com o docente a ordem de participação e ficou combinado que todos poderiam anotar as questões para terem mais segurança.

Quando chegou o dia, Sergio entrou na sala acompanhado do irmão, que foi recebido com um caloroso "buenos días" das crianças e sentou em uma cadeira no meio da roda. Ao longo da atividade, o professor fez poucas intervenções, deixando que os alunos se expressassem, mas conseguiu dar um tom descontraído à conversa, principalmente quando o assunto foi a infância dos irmãos e os apelidos que um colocava no outro. A criançada, é claro, caiu na gargalhada. Conforme o diálogo fluía, os alunos se sentiam cada vez mais confiantes de seu domínio da língua por perceberem que eles e o convidado se compreendiam, mesmo que ele falasse mais rápido do que estão habituados a ouvir nas aulas.

Toda entrevista foi registrada em vídeo por Muzzio. Para finalizar o trabalho, ele exibiu a gravação e pediu que as crianças prestassem atenção à maneira como os pronomes de tratamento tinham sido utilizados, pontuando aspectos da conversa, como vocabulário e pronúncia. "É maravilhoso que meninos e meninas entrem em contato com situações como essa e com variações linguísticas, pois o processo de aprendizagem não pode ficar centrado na observação de regras, mas nas diversas possibilidades de comunicação. Assim, eles entendem o que é, de fato, a língua. E a língua é cultura", comemora o professor.

A língua de Castela

Ilustrações: Raphael Salimena

Foi em um dos quatro reinos da Península Ibérica que deram origem à Espanha que começou a se formar um dos idiomas mais falados no mundo atualmente. Castela, nasceu como um condado do Reino de Leão e foi adquirindo importância cada vez maior ao longo dos séculos 10 e 11, até se tornar o centro do Império Espanhol no século 16 - é por isso que o espanhol também passou a ser chamado de castelhano.

Segundo os estudos do filólogo espanhol Ramón Menéndez Pidal (1869 -1968), a base da língua é o latim vulgar, que, a partir do século 3, sofreu influências dos muçulmanos que ocuparam a região e dos povos bárbaros e seus dialetos germânicos. Na América, o castelhano ganhou marcas próprias, tanto em virtude do distanciamento geográfico quanto da mistura com línguas nativas do continente americano.

No estudo O Espanhol na América: Considerações sobre a Variação Linguística e o Ensino do Espanhol como Língua Estrangeira, Débora Luise Souza Xavier, mestra em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, defende que o idioma tem uma estrutura simples e sólida que garante sua unidade, ao mesmo tempo que permite uma grande diversidade. O texto ressalta que o professor deve valorizar as variantes americanas em sala de aula, pois elas são "parte do grande patrimônio que é a língua espanhola", buscando cultivar e estimular o respeito a todas as culturas.