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Seções | Cultura da Infância


Por: NOVA ESCOLA

No rabisco de um bilhete, muita coisa para discutir

Regina Scarpa escreve sobre o desenvolvimento das crianças

Regina Scarpa,

Regina Scarpa,
doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e diretora pedagógica da Escola Vera Cruz, em São Paulo

Oi, Regina. A Bianca estava assistindo a um documentário na TV. Assim que ouviu as informações, correu para pegar um papel, dizendo:

- Preciso escrever isso pra levar pra escola, porque a gente está estudando as mariposas!

E anotou assim:

Obrigada por tudo o que vocês fazem,

Carmem.

Essa é a reprodução de um bilhete que guardo há 18 anos. Todo começo de ano, na hora de organizar pastas e tentar dizer adeus a milhares de papéis acumulados, topo com ele e vários outros escritos de escola. Ocorre que acho tudo muito importante e, tirando uma meia dúzia de coisas, não jogo nada fora. Por que será que esses registros me dizem tanto?

Penso no bilhetinho aí de cima. Um olhar desavisado veria uma menininha rabiscando e descartaria o papel sem dar maior atenção. Carmem fez diferente. Percebeu que havia algo de notável nas linhas traçadas pela filha de apenas 4 anos. E como havia!

Para começar, o bilhete revela uma criança que já sabe que uma das funções da escrita é o apoio à memória. Mostrando o papel à turma, Bianca sabia que tinha ouvido informações sobre a mariposa e podia compartilhá-las. Chegando à sala, ela olhou para o rabisco e lembrou dos dados do documentário sobre o inseto.

É bonito notar que Bianca se autoriza a fazer uso dessa intenção comunicativa mesmo com uma escrita primitiva - que parece imitar, no seu traço contínuo, a letra cursiva que ela vê os maiores escreverem. O fato de ainda não fazer uso das letras não é um empecilho para a menina. Ela se sente à vontade para experimentar suas hipóteses, provavelmente incentivada pela postura dos adultos que a cercam. Eles entram no jogo de investigação das crianças. Em algumas escolas, quando peço aos pequenos para escrever, é comum ouvir respostas como: "Não sei como faz". Quando a criança não encontra acolhida para suas tentativas, o porto seguro é a cópia, e ela passa a só querer escrever "do jeito certo".

O papel que guardo também mostra uma menina de 4 anos que vê sua escola de Educação Infantil como um espaço de aprendizagem. Vale repetir a justificativa da Bianca para a anotação: "Estamos estudando as mariposas". É uma postura de curiosidade e pesquisa próprias da idade dos "porquês", alimentada pela pré-escola.

Reservo, por fim, algumas palavras sobre Carmem, essa mãe que reconhece o valor do que poderia passar como um simples rabisco da filha. Tenho certeza de que a escola ajudou na construção dessa percepção. Como coordenadora pedagógica na ocasião, cuidamos para que reuniões de pais fossem momentos de informação sobre os processos por meio dos quais as crianças aprendem. As famílias acompanhavam e valorizavam cada uma das pequenas conquistas de seus filhos.

A interpretação do bilhete aponta, enfim, para a importância de nossa formação como educadores. Temos a obrigação de não subestimar o que os pequenos produzem. É preciso prestar atenção ao que eles falam, fazem e pensam. Temos de criar empatia com essa forma de ser e de pensar própria das crianças. Para isso, os processos de observação, registro e reflexão são fundamentais.

Cada uma das minhas pastas está repleta dessas histórias. Pretendo compartilhá-las neste espaço, que é onde você me encontra a partir desta edição. Como estou outra vez bem próxima do chão da escola, novos casos vão se somar aos antigos. Convido você a observar e a registrar o que seus alunos produzem e a participar destas reflexões.

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