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"Na carência de Moçambique, formei centenas de educadores contra o analfabetismo"

Oreste Preti é ex-coordenador do Programa de Expansão da Educação Superior a Distância de Moçambique

POR:
Wellington Soares e NOVA ESCOLA

O programa de formação de Preti pretende graduar 5,5 mil docentes na África. Foto: arquivo pessoal/Oreste Preti

"Durante uma visita diplomática ao Brasil em 2009, o então presidente moçambicano Armando Guebuza se interessou pelo modelo da Universidade Aberta do Brasil (UAB) para formar professores a distância. Eu já tinha experiência no assunto. Atuei nos primeiros cursos da modalidade, nos anos 1990, em assentamentos no interior de Mato Grosso.

Um de meus grandes sonhos sempre foi atuar na formação de professores em algum país africano. Então, quando veio o convite para coordenar o projeto em Moçambique, não hesitei.

No desembarque, em 2010, revivi minha chegada ao Brasil quase meio século antes, quando vim da Itália, onde nasci. Encontrei ali um país em que parecia faltar tudo. Mas também vi um povo que mostrava muita alegria, garra e vontade de superar dificuldades.

O sistema moçambicano de Educação é precário. Falta infraestrutura básica e a formação de professores é apenas de nível médio. O cenário é consequência da guerra civil de 1977 a 1992, uma tragédia com cerca de 1 milhão de mortos iniciada dois anos depois da independência do país - a colonização durou mais de quatro séculos. Naquela época, os educadores ou foram convocados para a batalha ou fugiram.

Expandir o acesso ao ensino é um desafio. Só 56% dos 24 milhões de habitantes são alfabetizados. Elaboramos graduações em quatro áreas: Biologia, Matemática, Pedagogia e Administração Pública - essa última para atender também aos servidores públicos. A previsão é formar 5,5 mil docentes até o fim de 2017. A primeira turma, de 690 alunos, concluiu o curso no ano passado.

Nosso modelo original se baseava na interação online, mas muitas vezes não havia internet para acessar os conteúdos. Contornamos esse obstáculo implantando polos presenciais, em que tutores apoiam os alunos. Também buscamos qualificar a produção do material didático usado nas formações, acrescentando uma etapa de revisão científica antes da publicação.

Quando morava na Itália, no fim dos anos 1950, era famosa uma música chamada Kanimambo, de João Maria Tudela, um português radicado na África. Em Moçambique, descobri que o título da canção significa obrigado em ronga, uma das línguas faladas em Maputo, a capital. É o termo mais apropriado para expressar o sentimento após os dois anos passados por lá. Kanimambo!"

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