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Livro de artista: arte contemporânea encarada de frente

Apresente o conceito de livro de artista e leve a classe a traçar o próprio percurso criativo

POR:
Fernanda Salla

Instalação, pop arte, happening, body art e performance. Esses são apenas alguns movimentos da arte contemporânea, que surgiu depois da Segunda Guerra Mundial e engloba linguagens diversas. Apesar de possibilitar explorações e aprendizados variados para os alunos, muitos docentes resistem em trabalhá-la em sala. "Já que vivemos na contemporaneidade, esse é um cenário em constante expansão. Por isso, exige a formação continuada dos educadores", diz Sirlene Rodrigues, professora de Arte do CE Adélia Dionisia Barbosa, em Londrina, a 381 quilômetros de Curitiba. Ela enfrentou o desafio, fez dois cursos na área e ampliou esse conhecimento também para a turma do 9º ano. 

A docente elegeu o livro de artista para trabalhar, uma categoria das artes visuais que perpassa todos os estilos. "Sua principal marca é remeter à forma do livro, que pode ser o registro de um processo criativo ou o próprio objeto artístico", explica Constança Lucas, uma das organizadoras da exposição Livraria de Artistas. A existência dele é antiga - há livros de Leonardo da Vinci (1452-1519) com rascunhos de obras dele -, mas sua concepção como arte se intensificou nos anos 1960. A Caixa de 1914, de Marcel Duchamp (1887-1968), é considerada a primeira produção desse tipo. 

A escolha de Sirlene também se deve ao fato de essa modalidade exemplificar bem o cenário contemporâneo, que se caracteriza pela introdução de novos materiais, suportes e espaços na Arte e pela aproximação com o público, essencial para a interpretação da obra. 

Como a poesia é um recurso presente nos livros de artista, a docente, junto com colegas de Arte, elaborou um projeto interdisciplinar com Língua Portuguesa. Enquanto o gênero era aprendido nas aulas da disciplina, com o tema Vinicius de Moraes (1913-1980), Sirlene e os estudantes traçavam o próprio percurso artístico, incorporando os poemas às obras. 

Cada aluno ganhou um caderno que seria o seu livro de artista. Depois de relatar a proposta, a professora, junto com Elizabeth Vargas Marcondes, poetisa e funcionária da escola, levou todos ao pátio. O desafio era usar os sentidos para identificar cheiros, imagens e sons ao redor. A atividade despertou o olhar para a poesia que está na paisagem e nos objetos. 

A turma foi apresentada ao conceito de indriso, poema de verso único, com dois tercetos e duas estrofes, e de versos livres, para que incluíssem essas formas poéticas em suas produções. É interessante também mostrar exemplos de poemas concretos. "Neles, as palavras formam imagens ou recebem tratamento gráfico, se aproximando da linguagem das artes visuais. Isso faz com que o livro de artista seja bastante explorado pelos concretistas", diz Ronan Cardozo Couto, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 

Sirlene exibiu imagens de obras da poetisa e artista plástica portuguesa Isabel de Sá.Enquanto os alunos viam as páginas criadas por ela, tinham de identificar as características, como os materiais utilizados e as linguagens empregadas. Eles observaram o uso de técnicas mistas - com colagem e pintura -, a representação de elementos naturais e a presença de imagens e textos. O mesmo processo foi feito com produções do brasileiro Raul Córdula.

Em seguida, a professora propôs que os estudantes criassem uma composição no caderno com base na experiência vivida no pátio e nas referências exibidas. Ela também os incentivou a usar o material para se expressar e registrar suas experimentações para além do trabalho em sala. 

Para Vera Lúcia de Oliveira Simões, tutora a distância do curso de Artes Visuais da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), trabalhar a arte como linguagem é essencial. "É preciso cuidado para que a Arte não esteja somente a serviço de outras áreas, como ser usada para ilustrar as produções feitas nas aulas de Língua Portuguesa. Ela tem de fazer parte do conhecimento que está sendo construído, que é a expressão por meio dos distintos formatos." Os poemas, portanto, devem ser mais um recurso, não o principal. 

Em outra proposta, a docente pôs para tocar a música Rosa de Hiroshima e um poema de Vinicius de Moraes musicado por Gerson Conrad, e pediu que todos analisassem. Para auxiliá-los, ela destacava termos-chave e pedia que inferissem o sentido. Depois, leram uma reportagem sobre as pessoas que sobreviveram à bomba e relacionaram à letra da canção. Por fim, usaram a foto que ilustrava o texto para fazer, no caderno, uma releitura do tema. Houve quem a transformasse em uma rosa. Outros a repartiram em pedaços, representando as famílias destroçadas. 

Nesse momento, a intervenção do professor pode ajudar a avançar no processo criativo. "Caso façam leituras muito simplistas ou literais, como, nesse caso, desenhar uma bomba ao lado da foto, vale provocar a reflexão, questionando o significado do evento, que mensagens a música passa e como isso poderia ser representado com base no que foi visto em sala", afirma Vera. 

Nas aulas seguintes, Sirlene apresentou atividades envolvendo textos de Vinicius de Moraes e outras manifestações culturais, como a comparação entre o Soneto de Fidelidade, do poeta, e o funk Adultério, de Mr. Catra. Todas eram finalizadas com criações dos alunos nos livros de artista, em que lançaram mão de colagens, poemas e materiais inusitados, como flores naturais e tecidos para registrar as interpretações do que viam. 

É interessante acompanhar as produções da turma e apresentar artistas e obras que se assemelhem ao trabalho de cada um, para que sirvam de inspiração e ajudem a aperfeiçoar suas obras. Vale ressaltar que a qualidade das produções não está na perfeição estética. O mais valioso é compreender o que foi feito e com qual objetivo para que a obra seja a fiel expressão de cada um. 

Ao final do projeto, os livros produzidos ficaram expostos para apreciação de toda a escola, que pôde manusear as obras, como é o ideal na interação com esse tipo de arte.

 

1 Inspiração e apreciação Fale sobre o livro de artista para os alunos e mostre exemplos variados para que eles apreciem e identifiquem suas particularidades. Destaque o uso da poesia nas obras. 

2 Entendimento do contexto Contextualize o livro de artista no cenário contemporâneo. Para isso, chame a atenção da turma para as características da obra que refletem esse tipo de arte, como o uso de novos suportes, espaços e materiais nas criações artísticas. 

3 Processo criativo Peça que criem, em um caderno próprio, uma composição artística com base nas referências vistas. Proponha atividades em que a turma analise outras manifestações de arte para fazer as próprias obras. 

4 Produção e exposição Acompanhe as produções dos alunos e mostre novas referências para estimular o aperfeiçoamento das obras. Organize uma exposição com o material para que eles possam apreciar as obras.

 

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