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Lugar de bebê é fora do berço

Crianças até 1 ano podem ter uma rotina permeada de explorações e descobertas

POR:
Fernanda Salla
No ofurô, cada um ampliou a consciência sobre si mesmo e interagiu com os outros

Que atividades realizar com pequenos até 1 ano, que geralmente não falam nem andam? Antes de assumir uma turma de berçário, Marlene Steffens, do CEI Miosótis, em Joinville, a 176 quilômetros de Florianópolis, costumava ouvir questionamentos como esse. O que a princípio parece um empecilho, no entanto, é um foco de oportunidades. "Uma das especificidades dessas crianças é que estão em um momento de aquisição de linguagem, locomoção, comunicação e conhecimento sobre o corpo. Por isso, todo estímulo é necessário", diz Maria Teresa Venceslau de Carvalho, coautora do livro Interações: Ser Professor de Bebês - Cuidar, Educar e Brincar, uma Única Ação (Cisele Ortiz, 221 págs., Ed. Blucher, 11/3078-5366, 53 reais). 

Livres para investigar o jardim, os pequenos exploraram brinquedos, sons e movimentos

O biólogo suíço Jean Piaget (1896-1980) descreve essa fase do desenvolvimento infantil como sensório-motora, em que conhecemos o mundo por meio dos sentidos. Propiciar o contato com elementos visuais, sonoros, olfativos e táteis auxilia no aumento e no aperfeiçoamento desse repertório. Por acreditar na importância da experimentação, Marlene elaborou um planejamento anual voltado à exploração de diferentes materiais e espaços dentro e fora da classe. 

Uma iniciativa foi transformar os momentos de cuidados diários em possibilidades de aprendizagem. A educadora começou pela hora da higiene, alternando alguns tipos de banho - de imersão, ducha e com objetos -, para proporcionar prazer e sensações diferentes às crianças.

Em outra proposta, o berçário foi transformado em um spa, com ofurôs, velas e óleos aromáticos para perfumar o ambiente e música relaxante. Cada bebê foi colocado dentro de um balde com água aquecida a 37 graus Celsius e pétalas de rosas. A professora alerta para a importância de regular a quantidade de água, que deve ficar abaixo do pescoço da criança quando ela estiver imersa. Para favorecer a interação entre os bebês, os baldes foram colocados perto uns dos outros. Ela também os aproximou do espelho fixado na parede para auxiliá-los na descoberta do próprio corpo, ampliando a consciência de si mesmo. 

A logística para dar conta de tudo isso não foi fácil. "Lidar com crianças tão pequenas demanda uma organização muito precisa para que elas não fiquem desassistidas", afirma Clélia Cortez, formadora do Instituto Avisa lá. Marlene conta com a ajuda de duas auxiliares. Como só tinham quatro baldes, ela coordenava os banhos enquanto uma cuidava dos demais bebês e a outra mudava a água e higienizava tudo para que as próximas crianças pudessem entrar nos ofurôs.

Atividades ao ar livre 

As áreas externas da creche também se tornaram espaços ricos em descobertas para os pequenos, com a organização de cantos de atividades. A turminha foi levada ao jardim da instituição, em que, sobre um tatame, foram colocados instrumentos musicais, bolas e brinquedos. "O ambiente é um terceiro educador e esse tipo de organização favorece a autonomia das crianças", diz Clélia. No grupo, houve quem engatinhou até o objeto favorito, subiu no cavalinho e bateu a mão no pandeiro. Marlene interveio com ações específicas, como jogar a bola para pegarem. 

Em cada um dos espaços da creche, novos desafios foram ofertados à turma

Para Clélia, dar espaço e tempo para que os bebês possam fazer escolhas é essencial. Isso não significa bombardeá-los com atividades - o excesso de estímulos pode confundi-los. A ideia é ter um olhar atento e individual para cada um a fim de identificar interesses e avanços e, assim, oferecer desafios adequados. Momentos coletivos de convivência como esses são interessantes, pois a criança pequena tende a aprender por imitação e, ao observar movimentos feitos pelos colegas, se desenvolve mais rapidamente. 

No canteiro de plantas que circunda o gramado, a professora propiciou o contato com o solo seco e úmido. Os bebês foram colocados sobre a terra e, delicadamente, ela a oferecia para que tocassem. "Alguns estavam mais resistentes no começo, mas aos poucos eu fui aproximando cada um do material", conta. 

No parque da instituição, que conta com um playground, um labirinto de toras e um morro de pneus e areia, a turma pôde circular livremente, o que contribuiu para o avanço motor. Uns subiram e desceram o monte, apoiando-se nos pneus, outros tentaram andar pelo labirinto segurando nas paredes. 

Caso alguém se recusar a participar da atividade, é preciso respeitar seu tempo e não forçar. "Se o bebê não quiser ficar em pé, não adianta pegar na mão dele e segurá-lo. O mais adequado é oferecer outros meios para que ele faça o movimento naturalmente, como colocar objetos em que possa se apoiar e almofadas para que caia com segurança", afirma Maria Teresa. 

Todas as propostas entraram na rotina e foram reproduzidas constantemente. Repetir as atividades é importante, pois a continuidade faz com que a criança ponha em prática habilidades já adquiridas, evite o que já sabe que dá errado e teste novos gestos e movimentos. "É preciso, no entanto, fazer ajustes constantes nas propostas para possibilitar novos desafios", finaliza Clélia. Ao final de cada semestre, a docente preparou relatórios individuais, entregues às famílias.

1 Planejamento consistente Observe os espaços disponíveis na creche e organize atividades que envolvam a exploração de diferentes materiais e locais. As ações devem ser repetidas ao longo ao ano, entrando na rotina da turma. 

2 Aprendizado nos cuidados Transforme o banho em um momento de desenvolvimento. Para estimular os sentidos, planeje diferentes tipos, como de ducha, com bolinhas e de ofurô. 

3 Exploração em todo canto No espaço externo, organize cantos com brinquedos, bolas e instrumentos musicais. Deixe os bebês livres para interagir e fazer as próprias escolhas. 

4 Estímulos e aprendizagem Ofereça às crianças diferentes texturas para tocarem, como terra úmida e seca. Leve-as também a locais com objetos em que possam se apoiar e testar o equilíbrio e a motricidade. 

5 Relatórios de avaliação Acompanhe o desenvolvimento dos pequenos ao longo do tempo e prepare relatórios individuais, que podem ser entregues às famílias.

 

Um universo de sensações

Conheça as atividades realizadas pelos bebês do CEI Miosótis e saiba o que aprenderam:

 

Bolas de todo tipo

Em um dos cantos de atividades organizados no gramado da creche, foram disponibilizadas bolas de diversos materiais e tamanhos para os pequenos. Ao ir atrás dos objetos, eles desenvolvem a motricidade.

 


Pés na terra

A criançada entrou de corpo inteiro no canteiro de plantas ao redor do jardim. Para ajudar quem não quis se sujar, a professora interveio, fazendo com que se familiarizasse com a terra e as plantas. 

 

 


Motricidade 

No morro formado por pneus e areia, mesmo os bebês que não sabiam andar se arriscavam a subir e descer. O fazer autônomo das crianças auxilia no desenvolvimento motor.

 

 


Estímulos sonoros

Instrumentos musicais variados foram colocados sobre um tatame no jardim. A educadora Marlene Steffens incentivou os pequenos a tocá-los e a prestar atenção nos sons que cada um produzia. 

 


Exploração livre

No parque da creche, onde há brinquedos, playground e um labirinto de madeira, os bebês ficaram livres para explorar o ambiente. Alguns deles optaram por brincar no chão de areia com pás. 

 


Banho de bolinhas

Os momentos de higiene foram transformados em possibilidades de aprendizagem. Em uma das propostas, foi realizada uma espécie de banho a seco, em que as crianças faziam chuva de bolinhas. 

 


Sensações

As crianças puderam sentir a diferença entre a terra seca e a úmida em uma proposta voltada a ampliar o repertório de sentidos. A sujeira das mãos e das roupas foi recompensada com muito aprendizado. 


 

 

Ofurô no espelho

Em baldes com água a 37° C, os bebês experimentaram um banho relaxante, realizado em frente a um espelho. A proposta ajuda no desenvolvimento da consciência corporal das crianças.

 


Ducha com boneca

No banho, os bebês puderam sentir a água cair sobre eles enquanto interagiam com bonecas. Assim, eles se familiarizam com os gestos realizados pelas educadoras nesse momento.


 

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