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É tempo de colocar o corpo para mexer na EJA

Com atividades dentro e fora da escola, jovens e adultos aprendem sobre movimento e saúde

POR:
NOVA ESCOLA
Na academia da praça, a turma usou aparelhos variados, como o extensor para pernas.

Uma particularidade dos alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) fez Marcelo Luiz de Souza, professor de Educação Física do Colégio Santo Inácio, no Rio de Janeiro, mobilizar os recursos disponíveis dentro e fora da escola em uma proposta didática que colocou a turma para se mexer. "Por falta de vivências corporais na infância, muitos tinham deficiências na construção de habilidades como coordenação, lateralidade e equilíbrio", diz o docente. Para reverter o quadro e ajudar os estudantes a mudar seus hábitos - com foco na saúde -, ele propôs diferentes atividades em quadra, na água e até ao ar livre. 

A intenção não era ensinar uma modalidade específica - como nadar ou praticar um esporte conforme as regras -, mas levá-los a trabalhar os movimentos do corpo e expandir a consciência sobre ele por meio de várias atividades, desenvolvidas em aulas diversificadas. Assim, os alunos também ganham repertório para conseguir aplicar o aprendizado ao dia a dia. 

Uma das atividades realizadas pela turma na piscina da escola foi a hidroginástica.

Principalmente no caso do público mais velho, realizar atividade física não pode ser algo esporádico. É preciso que os alunos se tornem mais ativos, caso contrário, o efeito pode ser negativo. Por isso um desafio do educador era sugerir algo que eles pudessem fazer cotidianamente. "Cabe ao docente passar à turma informações que façam sentido e atrelá-las a práticas fora do ambiente escolar", diz Suraya Cristina Darido, professora da Universidade Estadual Paulista "Júlio e Mesquita Filho" (Unesp). O professor também deve fazer uma avaliação física dos alunos, com exames de pressão, por exemplo, para programar atividades adequadas. Oriente-os a procurar um médico caso não seja possível fazer isso na escola. 

Uma das propostas de Souza foi apresentar à turma as Academias da Saúde, que integram um programa do Ministério da Saúde. Elas são espaços públicos de ginástica com aparelhos de alongamento e exercícios localizados. No Rio de Janeiro, estão sob a gestão do município e chamam Academia da Terceira Idade. Uma das unidades funciona em uma praça próxima ao colégio. 

Para começar, Souza deu uma aula teórica sobre doenças crônicas não transmissíveis - como hipertensão e diabetes - e a relação delas com o sedentarismo. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), se exercitar por 30 minutos, cinco vezes na semana, ajuda a prevenir e reverter enfermidades desse tipo. "Quando aprenderam sobre elas, os estudantes se identificaram com os problemas", diz o docente.

Em seguida, foram exibidas imagens dos equipamentos disponíveis nas academias ao ar livre. O professor explicou a função de cada um deles e os conceitos de intensidade (força aplicada), frequência (constância da atividade), repetição (número de execuções de um mesmo exercício) e série (conjunto dessas repetições). 

Na praça, os alunos fizeram um aquecimento, com caminhada e movimentos de erguer as pernas e rodar os braços. Depois, experimentaram os aparelhos, como o supino, em que o usuário fica de barriga para cima, abaixa uma barra com pesos até o peito e a empurra para o alto. O exercício fortalece o peito, o tríceps (músculo do braço) e os ombros. No extensor, eles trabalharam o quadríceps (músculo da coxa). Para usá-lo, é preciso ficar sentado, pôr os pés embaixo de rolos e levantá-los até que o joelho fique estendido. 

Para determinar a quantidade de repetições e séries e a intensidade do treino, o professor orientou os estudantes a observar os limites do próprio corpo e a respeitá-los. Assim, eles podem se tornar autônomos no gerenciamento de suas atividades fora das aulas. 

Segundo Marcos Mourão, professor de Educação Física da Escola da Vila, em São Paulo, capacitar os alunos para usar espaços públicos em favor da saúde é um dos pontos mais importantes da Educação Física na EJA. Isso porque, nessa modalidade de ensino, a disciplina é facultativa para quem possui mais de 30 anos de idade, trabalhe acima de seis horas por dia ou tenha filhos. Dessa forma, a assiduidade costuma ser baixa. 

Vale ressaltar que se não houver academias públicas em sua cidade, uma alternativa é buscar outros espaços gratuitos que possam ser usados e planejar uma sequência que os incorpore, como o calçadão da praia, um parque ou mesmo centros esportivos municipais e estaduais.

Uma atividade para cada movimento 

Em uma aula de pilates com bola, os estudantes puderam trabalhar a postura.

Na escola, a turma teve a possibilidade de vivenciar outras modalidades de atividade. "Como aqui temos acesso a diversos recursos, planejei o uso deles de acordo com os objetivos de aprendizagem que tracei para os alunos", conta Souza. Com foco na postura, ele adaptou práticas de pilates, que envolvem ações de força e equilíbrio. Em uma delas, os estudantes usavam uma bola grande para trabalhar a coluna. "Percebi que alguns tinham problemas por causa do esforço realizado em funções como a de pedreiro e de doméstica", conta. 

Já em quadra, o docente fez circuitos psicomotores usando cones, colchões e bambolês. Cada estação tinha um desafio que auxiliava no desenvolvimento de uma habilidade diferente, como equilíbrio, coordenação, lateralidade e agilidade. Os alunos precisavam criar estratégias de movimento para atravessar os obstáculos - entre elas, andar em ziguezague, de lado ou saltar. Na piscina da escola, eles aprenderam o básico, como se mover dentro d?água, e tiveram aulas de iniciação ao nado e hidroginástica. "Muitos nunca tinham nadado antes. Com as aulas, ninguém mais vai deixar de aproveitar uma tarde na piscina ou no mar", brinca Souza. 

Os alunos enfrentaram desafios corporais diferentes com o circuito psicomotor. 

Os primeiros resultados já são percebidos pelos estudantes, que contam ter incorporado os aprendizados ao dia a dia. "Sentia dores nas costas e nas pernas. Não conseguia agachar nem segurar algo pesado, mas as aulas me ensinaram a cuidar do corpo", afirma a diarista Adelina de Oliveira, 49 anos, aluna do 6º ano. "Passei a me encontrar com amigas na academia da praça quase todos os dias para me exercitar. As dores quase sumiram, emagreci e até meu colesterol está controlado", completa. 

O testemunho da estudante comprova a importância de não negligenciar a área de Educação Física na EJA, mesmo que não seja obrigatória para grande parte do grupo. Afinal, ter acesso ao conhecimento é direito de todos. "Estou fazendo agora o que não tive condições quando moça", finaliza Adelina.

1 Aula teórica sobre saúde Dê uma aula teórica sobre doenças crônicas não transmissíveis e a relação delas com o sedentarismo. Apresente as Academias da Saúde e explique a função dos aparelhos disponíveis nela. 

2 Prática de exercícios Vá a uma academia pública e mostre à turma como usar os equipamentos. Trabalhe os conceitos de intensidade, frequência, repetição e série. Caso não haja um local assim em sua cidade, busque espaços alternativos. 

3 Desafios diferentes Proponha outras atividades, como circuitos psicomotores e hidroginástica, para trabalhar diferentes movimentos corporais relacionados a coordenação, lateralidade e equilíbrio.

 

Fotos: Fernando Frazão

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