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A consciência do corpo ajuda a criar a dança

Ao refletir sobre como se movem, os alunos coreografaram seus sentimentos

POR:
Anna Rachel Ferreira

Objetos dos alunos e outros providenciados pela docente fizeram parte das cenas criadas. Foto: Manuela Novais

Os nossos movimentos surgem de impulsos e também estimulam movimentos em outras pessoas. Para compreendê-los, é preciso pesquisar o corpo e suas expressões. Atriz e bailarina, a professora Carmem Machado já tinha bastante consciência dessas relações quando resolveu compartilhá-las com o 6º ano da EE Professor Benedicto Leme Vieira Neto, em Salto de Pirapora, a 130 quilômetros de São Paulo. 

O projeto se concretizou em 2012, mas suas bases foram colocadas seis anos antes, quando Carmem começou a lecionar para essa turma. "Um trabalho tão pessoal só é possível se existe um vínculo sincero entre os alunos e o docente", considera Márcia Strazzacappa, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). 

Ao cursar Pedagogia do Teatro, Carmem conheceu os trabalhos da pesquisadora norte-americana Viola Spolin (1906-1994) e do coreógrafo austro-húngaro Rudolf Laban (1879-1958). "Essas estratégias já foram muito estudadas. Ao vivenciá-las, os alunos conseguem criar suas composições", afirma Arnaldo Siqueira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). 


Carmem aproveitou suas referências como bailarina para ampliar o repertório da turma. Foto: Manuela Novais

As atividades propostas por Viola estão compiladas na obra Jogos Teatrais na Sala de Aula - O Livro do Professor (328 págs., Ed. Perspectiva, tel. 11/3885-8388, 60 reais). Com base no material, Carmem propôs uma caminhada em linha reta pela sala. Cada um observava o comportamento de seu corpo, olhava o colega à sua frente e sentia o piso com os pés. Tudo foi repetido com os olhos vendados e, depois, imitando um colega. 

Ao fim de cada aula, a turma registrava as percepções em um caderno especial para o projeto. Textos, desenhos e até fotos eram utilizados. Em vários momentos, os estudantes compartilharam suas anotações e puderam criticar aspectos do trabalho. "Recebi várias dicas de como fazer melhor os movimentos", afirma a aluna Lidiane dos Santos, 15 anos.

Depois de Viola, Laban entrou em cena. Os movimentos propostos por ele são baseados em olhar para o próprio corpo e explorar as possibilidades de mudança de posição, variando a energia e o tempo aplicados. Ações simples como torcer, pressionar, saltar, sentar, correr, engatinhar, correr e parar bruscamente, se encolher e se esticar foram executadas pelos jovens. "Pedi que prestassem atenção nos músculos exigidos e no equilíbrio que precisava ser encontrado", lembra Carmem. Novamente, as propostas se tornaram mais complexas conforme a percepção deles se aguçava. Quando terminaram, a docente perguntou se aquilo poderia se tornar dança e todos disseram que não. Então, ela pediu que a turma elegesse dez movimentos e que cada grupo criasse uma sequência utilizando cinco deles. Para colaborar, a professora escolheu uma música para cada equipe. Assim, atos aparentemente banais viraram dança, para surpresa da sala. 

Após essas experimentações, Carmem solicitou que cada um demonstrasse uma brincadeira de que gostava, interagindo com um objeto pessoal e com os colegas de cena sem usar a fala. Uma das criações foi uma cabra- cega diferente, com duplas em que uma pessoa sentava em um pufe e a outra a arrastava pela sala. 

Na aula seguinte, todos contemplaram o quem, o onde e o que - elementos descritos por Viola - em uma cena com o objeto que tinham. Um grupo transformou guarda-chuvas em bebês e passeou por um parque imaginário com eles. Para ampliar a experiência, a docente pediu que acrescentassem um dos quatro elementos naturais. Os estudantes com os guarda-chuvas viraram brotos de flores, e uma aluna os aguava. 

Para trazer à tona a história de vida dos alunos, Carmem solicitou que cada um levasse uma foto sua e escrevesse sobre ela. As histórias foram recontadas de várias maneiras. Assim, a educadora conseguiu que eles se apropriassem da trama e não se prendessem à forma de contá-la. "A memória deles foi revitalizada, o que os deixou seguros e presentes em cena", diz Solange Caldeira, da Universidade Federal de Viçosa (UFV).

"Eu não estou interessada em como as pessoas se movem, mas no que as move".
Pina Bausch - Coreógrafa alemã

Na natureza, um novo espaço para criar 

Em um dia chuvoso, a docente notou que os adolescentes olhavam muito para uma área fora da sala, gradeada e cheia de árvores, terra e lixo. "Há seis anos olho essas árvores pela janela, mas nunca fui perto delas", revelou a aluna Tainara Abreu de Barros, 14 anos. Carmem solicitou à direção que o espaço, apelidado de florestinha, fosse utilizado em suas aulas. Voltou, então, a trabalhar a percepção corporal da classe, agora no novo ambiente. A turma repetiu alguns exercícios e a sujeira incomodou a todos. Para tratar do tema, criaram uma cena em que resíduos eram postos em lixeiras discretamente. 


As cenas e os exercícios que os alunos mais gostaram integraram a coreografia final. Foto: Manuela Novais

A educadora decidiu, então, introduzir mais uma de suas referências artísticas, a coreógrafa alemã Pina Bausch (1940-2009). Os alunos viram imagens do livro Pina Bausch, de Fábio Cypriano (176 págs., Ed. Cosac Naify, tel. 11/3218-1444, edição esgotada) e assistiram a trechos de espetáculos e ao filme Pina, de Wim Wenders (106 min, Imovision, tel. 11/3294-0720). "Na perspectiva da dança-teatro de Pina, o dançarino não reproduz movimentos simplesmente, ele tem algo a dizer com eles", explica Márcia. Os estudantes se identificaram com a proposta e se inspiraram nela para criar suas composições. Até elementos do figurino, como as bexigas da roupa de uma das bailarinas, foram utilizados por eles. 

A docente também apresentou para a classe Klauss Vianna (1928-1992). Para o bailarino e coreógrafo brasileiro, dançar significa estar presente com suas sensações enquanto executa o movimento, tornando- se um espectador do próprio corpo. Ao ler textos dele para a turma, Carmem ressaltou que as pessoas são diferentes entre si e que cada uma precisa respeitar o tempo de seu corpo. Todos os elementos vistos eram relacionados à narrativa que vinha sendo construída. 

Vendo a evolução do trabalho, a direção questionou quando seria a apresentação dos adolescentes, mas a professora não via necessidade de fazê-la. "Os alunos precisam ter subsídios para aplicar o que foi aprendido em vários contextos, e esse aprendizado acontece ao longo de todo o trabalho", ressalta Marisa Szpigel, selecionadora do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10 e coordenadora de Arte da Escola da Vila, em São Paulo. "O espetáculo, muitas vezes visto como final, deve ser entendido como parte desse processo, pois a arte ganha novo significado o tempo todo." Carmem dividiu a decisão sobre a apresentação com os alunos. Como eles já tinham assistido a alguns espetáculos dela, confessaram que queriam viver a mesma emoção. A educadora retomou, então, gravações em vídeo feitas durante as aulas e, junto com a turma, iniciou a montagem do espetáculo. Todos os detalhes foram escolhidos coletivamente. Após audições de estilos variados, a turma optou por uma trilha sonora com composições do francês Yann Tiersen e do grupo brasileiro Barbatuques. 

As cenas e os exercícios que os alunos mais gostaram integraram a coreografia final. Foto: Manuela Novais

A classe entendeu que antes via a florestinha, mas não a sentia. Por isso batizou o trabalho de Sentiver e definiu que a apresentação seria nesse espaço, antes abandonado. "Queremos que o público fique atrás das grades e se sinta como nos sentíamos", disseram. No dia da apresentação, os convidados se acomodaram no corredor que fica entre as salas de aula e a florestinha. O pai de uma aluna, que no início disse não entender o que era aquela dança contemporânea, terminou emocionado. "Ver minha filha ali, brincando e correndo, me fez pensar em momentos da minha vida que nem lembrava mais."

1 Preparação para encenar Com fotos, vídeos e exercícios práticos, apresente à classe os jogos teatrais propostos por Viola Spolin e as experimentações corporais de Rudolf Laban. 

2 Memórias de todos Peça que os alunos tragam objetos de casa, brincadeiras que sejam significativas para eles e, finalmente, histórias pessoais que gostariam de compartilhar. O desafio é transformar esses sentimentos em cenas e movimentos. 

3 Ainda mais referências Apresente obras de outros bailarinos contemporâneos. Faça a relação disso com o que está sendo desenvolvido e mostre como essas propostas podem ser trabalhadas com o corpo. 

4 Criação de coreografias Escolha com os alunos as cenas com as quais eles mais se identificaram e teste músicas para a sequência selecionada. Se fizer sentido para eles, organize uma apresentação para o público externo.

 

Entrevista com a bailarina Zélia Monteiro sobre dança contemporânea:

 

 

Texto: Anna Rachel Ferreira, de Salto de Pirapora, SP

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