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Com monitores de Matemática, todos avançam mais

Educadora organizou as aulas para que os estudantes tirassem dúvidas dos colegas

POR:
Camila Camilo
Simone inovou ao propor o esquema de monitoria nas classes da EM Ivo Silveira. Foto: Manuela Novais

Logo no início do ano letivo, Simone Carvalho da Silva, professora da EM Ivo Silveira, em Capinzal, a 378 quilômetros de Florianópolis, notou a habilidade de alguns alunos para ensinar certos conteúdos matemáticos para os colegas. Durante essas intervenções, quando eles davam as explicações com as próprias palavras, as coisas fluíam melhor e o tema em questão era bem compreendido. 

Observando que isso se repetia, resolveu se valer do saber de uns para fazer a turma inteira progredir. "Em todas as classes encontramos estudantes que terminam as atividades muito antes dos demais e sempre têm as respostas na ponta da língua. Quis aproveitar o que eles sabiam para ajudar os outros", conta a educadora. 

Para tornar a ideia realidade, ela planejou reunir os alunos com bom desempenho em Matemática em equipes de monitores, que ficariam responsáveis por planejar atividades com a orientação dela e acompanhar os colegas em momentos pontuais das aulas. 

A iniciativa de Simone pode ser relacionada com a Teoria das Situações Didáticas, proposta pelo pesquisador francês Guy Brousseau na obra Introdução ao Estudo das Situações Didáticas - Conteúdos e Métodos de Ensino (128 págs., Ed. Ática, tel. 4003-3061, 31,50 reais). De acordo com a teoria, os alunos-monitores aprendem porque precisam pensar sobre o que sabem para fundamentar para os colegas os procedimentos de resolução de problemas. Os demais estudantes aprendem porque eles também precisam fundamentar suas ações e ainda porque o conteúdo para eles segue sendo desafiador ao ser explicado pelos colegas.

Simone estabeleceu critérios para quem quisesse ser monitor: era necessário ser comprometido com o projeto, gostar de compartilhar conhecimento e ter bom desempenho na disciplina e disponibilidade para participar de reuniões com ela no contraturno. Toda a comunidade escolar foi comunicada das condições. A professora entrou em contato com os pais dos candidatos para que autorizassem os filhos a ficar mais tempo na instituição. A diretoria e a Secretaria Municipal de Educação apoiaram a ideia e um espaço para os encontros foi cedido pela escola. 

Monitores selecionados, Simone deixou claro que não se tratava de um grupo fechado: a qualquer momento outros alunos poderiam integrá-lo, bastava atender aos requisitos, é claro. Quem desejasse deixar a equipe também poderia. 

O esquema de trabalho era fixo: primeiro, Simone apresentava e explorava o conteúdo com a sala inteira, como fazia antes. Depois da aula, os monitores se reuniam com ela, estudavam mais o assunto e conversavam sobre como o tema poderia ser trabalhado com os colegas. A professora ainda apresentava propostas de jogos e atividades que poderiam ser utilizados e pedia que os monitores pensassem em adaptações e melhorias para levá-los à sala. 

Saddo Ag Almoloud, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e selecionador do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10, chama a atenção para o fato de que em nenhum momento os monitores ocuparam o lugar de Simone, fazendo as vezes de professores. "Tomar esse cuidado de não misturar os papéis é essencial. Eles são alunos e têm muito a aprender, assim como os outros, e ela é a educadora, a responsável por ensinar a todos."

Uma maquete e as equações de 2º grau 

Na maioria das vezes, as atividades montadas pelos monitores eram jogos que abordavam os conteúdos previstos. Almoloud explica a necessidade de haver um propósito claro para utilizá-los. "É comum os professores usarem a ferramenta sem critérios definidos. O ideal é que ela sirva para os estudantes aprenderem o conteúdo e alcançarem os objetivos previstos no planejamento." Ou seja, não vale maquiar o tema estudado com um jogo na tentativa de deixá-lo mais divertido e só. 

Um bom exemplo do uso de um jogo ocorreu no 6º ano. Foi proposto ao grupo de monitores confeccionar um dominó para explorar os números racionais. As peças, assim como no dominó original, eram divididas ao meio. Em cada metade poderia aparecer uma representação fracionária (por exemplo, 1/8), um desenho (como um círculo dividido ao meio e uma das partes pintadas) e representações decimais (por exemplo, 0,25). Para jogar, os alunos tinham de unir os diferentes ícones para a mesma fração (como 1/2 e 0,5). A sala foi organizada em grupos, cada um com um monitor, responsável por estimular os colegas a jogar e tirar eventuais dúvidas. 

Para a turma do 7º ano, depois de Simone apresentar os números inteiros, os monitores montaram o jogo de tabuleiro Caminhada dos Números Inteiros. A sala foi dividida em quartetos (cada um com um integrante da equipe de monitoria). Um aluno por vez tinha de lançar dois dados - um com números positivos, outro com negativos -, somar os resultados e avançar a quantidade de casas correspondente. O ganhador era quem chegava primeiro à última casa. 

Os monitores levaram uma balança para a sala e discutiram sobre equações de 1º grau. Foto: Manuela Novais

Já para trabalhar com equações de 1º grau com o 8º ano, inicialmente a professora apresentou uma situação-problema. Ela desenhou no quadro uma balança em equilíbrio. De um lado, alguns objetos com massas de valores conhecidos. Do outro, mais dois: um com valor conhecido e outro não (no caso, x). Montando uma igualdade com os dois lados, Simone mostrou aos estudantes como encontrar o valor da incógnita. Na reunião no contraturno, os monitores resolveram construir uma balança de verdade e usar materiais do dia a dia, como tubos de cola, canetas e maçãs. A massa desses objetos seriam as incógnitas. Em sala, exploraram algumas equivalências (por exemplo, uma maçã tem a mesma massa de dois tubos de cola) e auxiliaram os colegas a formular e resolver equações. 

Para explorar a equação de 2º grau com o 9º ano, depois de apresentar o conteúdo à classe, a professora propôs aos monitores que ele fosse trabalhado em uma atividade relacionada à geometria. Em sala, cada aluno desenhou no caderno a planta baixa de uma casa. Uma delas foi escolhida como modelo para uma maquete. Com o auxílio de Simone, os monitores definiram que uma das paredes teria como medida x e definiram um valor para ele. Depois, transformaram as demais medidas em equações. Em sala, auxiliaram os colegas a refletir sobre a construção da maquete levando em conta os cálculos necessários para encontrar as medidas das outras paredes. "Caso um monitor não conseguisse responder à dúvida de um colega, eu sempre fazia intervenções para que eles chegassem juntos à resposta", explica Simone.

Muito mais que Matemática 

Luciane (no centro) tem ajuda da intérprete de libras (à direita) para atuar como monitora. Foto: Manuela Novais

Luciane Aparecida Heller, 17 anos, do 9º ano, é surda-muda e sempre se saiu bem nas aulas de Matemática. No fim do primeiro semestre, com a chegada de uma intérprete de língua brasileira de sinais (libras) à escola, ela pôde integrar a equipe de monitores. Além de ajudar os colegas a aprender, ela acaba ensinando libras para eles. Segundo Cláudia Dantas, psicopedagoga clínica e escolar, essa interação contribui para melhorar o convívio da comunidade. "Cada dia aprendo mais e ajudo meus colegas", explica Luciane (leia o depoimento de outros estudantes sobre o projeto na galeria na primeira página). 

A ideia de Simone de implementar o sistema de monitoria também fez com que os estudantes dessem mais importância para a construção do conhecimento, já que todos passaram a se enxergar envolvidos no processo de aprendizagem. "Ensinar alguma coisa para alguém implica vencer desafios e, ao precisar refletir sobre o que está pensando e na sequência explicar para um colega, o monitor ganha autonomia em todas as áreas do conhecimento", afirma Eliana Leite, professora da Universidade Federal de Rondônia (Unir). Outro destaque do trabalho, segundo a docente, é a cooperação. "É importante entender que o saber do outro pode estar a meu favor e que a troca gera benefícios a todos."

1 Organize a iniciativa Defina condições para ser monitor - como o bom desempenho nas aulas. Divulgue a ideia e peça autorização dos pais para que os alunos selecionados fiquem no contraturno a fim de preparar atividades e jogos para os colegas. 

2 Aula para a classe Apresente o conteúdo para todos os estudantes de acordo com o planejamento. 

3 Reunião no contraturno Converse com os monitores sobre o tema trabalhado em sala e oriente a elaboração de materiais a ser usados para ajudar os colegas a compreender melhor o assunto. 

4 A vez dos monitores Em sala, oriente a apresentação das atividades e fique à disposição para ajudar caso surja alguma dúvida que os estudantes não consigam solucionar sozinhos.

 

Baixe aqui o capítulo do livro Didática da Matemática - Reflexões Psicopedagógicas

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