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De solitárias a um grupo unido

No interior de São Paulo, coordenadoras trocam experiências e conhecimentos sobre a função

POR:
Wellington Soares, Lucas Magalhães e Leonor Macedo

Depois de dez anos como professora dos anos iniciais do Ensino Fundamental, Leila Carla Naliati assumiu em 2017 o posto de coordenadora pedagógica da EM Dom Matias, em Vinhedo, no interior de São Paulo. "Eu me sentia um peixe fora d?água, mesmo sendo tudo aquilo que sempre sonhei", conta sobre os primeiros dias na função. A ansiedade não é à toa: o coordenador pedagógico é visto como um "curinga" dentro da escola. Não há clareza sobre quais tarefas lhe cabem e sobram para ele responsabilidades que não lhe pertencem, como receber pais e alunos no portão, cuidar de estudantes doentes, substituir um professor que teve um imprevisto e até ver se está faltando papel nos banheiros da escola.

No meio de tantas demandas, suas principais atribuições - formar a equipe, articular a comunidade escolar e gerir o cotidiano - ficam de lado. "A gente acaba sempre se sentindo devedora", conta Renata Correia, coordenadora da EM CIC Eduardo von Zuben, na mesma cidade.

Para sair da solidão, Leila e Renata fazem parte de um grupo de gestoras que se encontra quinzenalmente em Vinhedo. "Há alguns anos, senti a necessidade de uma formação com esse grupo tão atarefado. Esses profissionais se sentem sozinhos na escola (não se sabe nem quantos coordenadores pedagógicos existem no Brasil), por não ter colegas com a mesma função", diz Rogéria Nicoletti, professora orientadora de estudos e responsável pelas reuniões formativas.

Nos encontros quinzenais, as coordenadoras dividem suas rotinas nas escolas

Para formar coordenadores

  • Monte um grupo de trabalho

Reúna colegas de função da mesma escola ou de escolas vizinhas. Garanta periodicidade fixa para os encontros.

  • Preveja momentos de fala livre

Deixe que apontem pontos altos e baixos da rotina. Controle o tempo para que não exagerem nas reclamações.

  • Discuta textos teóricos

Levante textos sobre a função e os desafios em comum, como Coordenador Pedagógico e o Cotidiano Escolar, de Laurinda Ramalho de Almeida.

  • Crie parcerias produtivas

Coloque coordenadores mais e menos experientes em conjunto para que visitem as escolas uns dos outros e compartilhem o que viram com o grupo.

 

Os encontros acontecem desde 2012 em uma das escolas municipais da cidade ou na própria secretaria depois do período de aula. É um dos momentos em que as gestoras saem da rotina atribulada e refletem sobre o próprio trabalho. "Esses encontros tentam resgatar a função do coordenador. Analisamos o que é ou não nossa responsabilidade para evitar assumir demandas demais", explica Renata.

"Com os relatos, é possível ver que algumas questões não acontecem só na sua escola, que são normais e que o problema não está em você."

DULCINÉIA SERVELIN, coordenadora pedagógica em Vinhedo (SP)

Mais do que fortalecer a identidade desse profissional, a ideia do espaço formativo em Vinhedo é fazer com que as participantes ouçam umas às outras e troquem experiências. "No grupo, eu posso observar como minhas colegas de profissão resolvem as questões. Refletimos juntas sobre nossos erros e acertos, e isso me tranquiliza bastante", conta Dulcinéia Servelin, coordenadora da EM Maria de Lourdes von Zuben. "Com os relatos, é possível ver que algumas questões não acontecem só na sua escola, que são normais e que o problema não está em você", complementa a gestora. O objetivo é que, no espaço, elas possam enxergar que não estão sozinhas.

De uma escola a outra

A constante rotatividade de coordenadores fez com que Rogéria pensasse em ir além dos encontros quinzenais. Desde o ano passado, ela dividiu o grupo em duplas e trios, formados por quem tinha mais e menos experiência, e propôs que cada profissional visitasse a escola da parceira.

Antes das visitas, todas se reúnem e discutem o que deve ser observado: atribuições do coordenador, atendimento aos professores, divisão da equipe gestora, planejamento semanal, entre outros aspectos. "Há um roteiro de perguntas, mas várias surgem durante a visita. Depois, elas retornam para a própria escola e fazem um relato pessoal sobre o que viram. Na semana seguinte, levamos tudo para o grupo", diz Rogéria.

Quando assumiu o cargo, Leila pensou em visitar por conta própria outra escola para se inteirar das tarefas que teria de assumir, mas se sentiu invadindo o trabalho de uma colega. "Quando soube que poderia fazer uma visita pelo grupo, vibrei. Fui a primeira a marcar!", lembra.

Assistindo outra colega, ela aprendeu novas maneiras de conduzir o grupo de professores e conquistar até os mais resistentes. A prática de outra coordenadora também ensinou Dulcinéia a atender melhor os pais e a organizar a rotina: "Estou tentando implantar um cronograma que observei em outra escola, fixado em um lugar onde todos o veem e separado por cores. Todos sabem quando acontecerão as avaliações, os feriados e atividades especiais antecipadamente".

Já Renata Correia implantou nos Horários de Trabalho Pedagógico Coletivo (HTPC) um exemplo que aprendeu também nas visitas: "Agora eu pergunto aos professores qual foi o ponto alto da semana de cada um deles para elencarmos também os momentos positivos do trabalho".

Os encontros das coordenadoras de Vinhedo não são apenas espaços para trocar angústias, relatar rotinas e frustrações. "É uma terapia coletiva, mas também trabalhamos textos teóricos e dados do município", descreve Rogéria.

Para Maria Estela Ferreira, mestranda em Supervisão Pedagógica e professora do Instituto Singularidades, na capital paulista, a combinação de teoria e prática é o grande trunfo de uma formação para coordenadores. "A experiência é muito importante, mas sempre deve ser fundamentada. Existem livros com linguagens bem didáticas que trazem depoimentos e procedimentos adaptáveis às escolas", sugere a especialista.

Como cada escola é única, com seu contexto específico, não existe uma receita que funcione para todas, mesmo nos melhores textos teóricos. Daí a importância de o coordenador pedagógico parar por alguns momentos, olhar para o seu trabalho e manter o diálogo sempre aberto com a direção, com seu grupo de professores e com colegas de função em outras escolas.

Rogéria (centro) orienta os encontros da dupla Dulcinéia (à esquerda) e Leila (à direita) 


Fotos: Diogo Zacarias