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5 perguntas a se fazer antes da festa de Dia das Mães

Está na hora de rever as celebrações que podem se tornar vazias e excludentes

POR:
Larissa Darc, Patrick Cassimiro e Ubiratan Leal

Cartões com mensagens sentimentais, desenhos, músicas, decoração especial e atividades unindo a comunidade. Tudo para que a escola possa homenagear as mães dos alunos no dia delas, o segundo domingo de maio. A medida pode soar inofensiva, mas merece uma reflexão mais cuidadosa. Ainda que a festa do Dia das Mães soe simpática à comunidade, ele pode alimentar estereótipos, isolar parte das famílias e ocupar tempo que deveria ser dedicado às aulas.

A data se tornou a segunda época de maior movimento no comércio brasileiro, perdendo apenas para o Natal. Esse apelo é sentido pelas escolas, que se veem pressionadas a realizar ações voltadas para as mães. A celebração está tão inserida na cultura escolar que virou símbolo de valorização da maternidade. Maura Barbosa, coordenadora pedagógica da Comunidade Educativa Cedac, explica esse fenômeno. "Para algumas mães, esse é o único momento em que são lembradas. O certo seria que fossem todos os dias, mas esse é especial."

O problema dessa premissa é que, muitas vezes, ela não contempla as diferentes configurações familiares. Mesmo durante a produção das artes e as apresentações há um reforço dos estereótipos. "A festa, as músicas e os presentes colocam a imagem da mãe como esposa ou cuidadora. Seria interessante explicar para as crianças que essa é uma homenagem a quem realiza esse papel, independentemente do sexo, estilo de vida ou grau de parentesco", alerta Cláudia Denís, doutora em Educação pela Universidade de Brasília (UnB). Por isso, o gestor tem motivos para questionar se é válido realizar uma atividade que pode segregar em vez de aproximar.

Veja algumas questões a ser consideradas no momento de se planejar a festa de Dia das Mães.

O que fazer com alunos que não têm a mãe biológica por perto?

Incentive a criação de rodas de conversa que discutam quem é a mãe na vida de cada estudante. Pode ser um pai solteiro que faz o papel de pai-mãe, uma avó que cria os netos, um casal homoafetivo. Um diálogo aberto e sem preconceito convidará os alunos a compartilhar as suas próprias histórias, criando um ambiente acolhedor. A partir desse reconhecimento individual, incentive projetos que valorizem as pessoas que são importantes na criação dos alunos, tomando cuidado para não deixar ninguém de fora.

Como evitar que essa comemoração atrapalhe o calendário escolar?

Planeje com antecedência e discuta com os professores sobre quais conteúdos estão previstos para esse período. "Toda a comemoração deve fazer parte do cotidiano da escola para não interferir nas atividades pedagógicas", explica Maura Barbosa. Evite realizar a comemoração durante a semana, pois gasta um dia de aula e ainda excluir pais que não estão disponíveis no horário. "Situações como essa fazem com que a criança se sinta abandonada", diz Dayse Gonçalvez, orientadora pedagógica da Escola Carlitos, em São Paulo.

Quais presentes podem ser feitos pelas crianças sem a necessidade de recursos externos?

Desenhos, cartas e dobraduras são opções acessíveis, por demandar apenas materiais já disponíveis na escola. Por mais tentadora que seja a ideia de entregar sabonetes, fotografias, buquês de flores ou outras lembranças mais elaborada, sua produção exige um alto custo, inacessível para muitas famílias. Pedir que as crianças tragam materiais de casa, como glicerina ou madeira, também não é uma boa solução porque pode excluir ou criar um aperto econômico desnecessário nas famílias que não têm condições de bancar.

Qual é o maior erro das escolas?

A falta de discussão em volta do significado dessa data. Cláudia Denís observou durante um estudo de campo que as escolas não explicavam a razão da elaboração dessas atividades. "Comemorar o Dia das Mães não teria problema se fosse de uma forma contextualizada", aponta a pesquisadora. Uma questão importante é ressaltar o caráter comercial da comemoração, uma das que mais movimenta o comério no ano. Cláudia também notou que os professores nem ao menos contam a origem do festejo, presente na humanidade desde a Grécia Antiga. A data chegou ao Brasil pelas mãos de Getúlio Vargas, em 1932, seguindo uma celebração criada em 1903 pela norte-americana Anna Jarvis, percursora de uma campanha em prol da valorização da figura materna dois anos após o falecimento de sua mãe.

Decidi não organizar uma festa de Dia das Mães. E agora?

Propor a criação do Dia da Família é uma boa saída para incluir todos os responsáveis em uma única comemoração. Para as famílias que resistirem à ideia e pedirem comemorações específicas para pais e mães, mostre como essas celebrações podem desperdiçar um tempo didático valioso com ações estereotipadas e excludentes. Convide toda a comunidade escolar para opinar e participar abertamente da organização, engajando essas pessoas em um único evento que celebrará todas as formas de configurações familiares.

Consultoria: Maura Barbosa, coordenadora pedagógica da Comunidade Educativa Cedac.


Ilustrações: Rômolo