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Para a democracia não ser apenas de fachada

Fortalecer as instâncias da escola é essencial para a "gestão democrática" ser mais do que um jargão

POR:
Lucas Magalhães e Camila Camilo

Odia de trabalho do diretor começa. A lista de coisas a fazer é extensa: vai de encontrar recursos para a reforma do espaço até lidar com a indisciplina dos estudantes e os pais que nunca aparecem. O caminho mais intuitivo parece ser a tomada de decisões via canetada. A ação é tão ligeira quanto paliativa. Na prática, ela não melhora o trabalho do gestor nem resolve os problemas a médio e longo prazo. Transformar esse cenário só é possível se a participação da comunidade estiver garantida. E isso é mais do que abrir as portas da escola aos finais de semana.

A ação solitária pode parecer a melhor solução, por razões que ultrapassam os muros das escolas. A democracia no Brasil é recente. Nós fomos acostumados à atuação política limitada e à ideia do chefe que manda e não divide aflições nem responsabilidades com o restante da equipe.

Mudar essa visão exige uma quebra de paradigmas, que começa por dar novo uso a um velho conhecido: o termo "gestão democrática". Ele se popularizou a partir do Movimento Escola Nova (1932), adentrou as pesquisas e tomou corpo nas legislações da área, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (1996) e o Plano Nacional de Educação (2014). Só faltou entrar nas escolas. "Não há um livro afirmando que gestão participativa é ruim. Mas o diretor acessa as obras sobre o tema via um professor impositivo. Ele ouve sobre socioconstrutivismo em uma sala tradicional. A própria secretaria de Educação não é democrática", aponta Cláudia Zuppini, da consultoria Elos Educacional, em São Paulo.

Também é importante que o gestor revise seu papel. Quando há colegiados fortes, há também cooperação e ele deixa de carregar tudo nas costas. No meio do caminho, discordâncias, tentativas e tropeços fazem parte. "É um equívoco achar que gestão democrática é todo mundo pensando igual", explica Ângela Lopes, coordenadora pedagógica da Comunidade Educativa Cedac.

As cenas abaixo mostram quando a gestão falha em ser democrática. As descrições são provocações. Será que elas não se repetem na sua escola? Ao mesmo tempo, são guias com orientações para virar esse jogo.

 

REUNIÃO DE PROFESSORES

  • COMO NÃO DEVE SER O diretor participa timidamente. A orientação é focada em conteúdos curriculares e o coordenador pedagógico monopoliza a fala. Nem sempre acontece na mesma hora dos encontros regulares da equipe.
  • COMO VIRAR O JOGO A direção da escola está diretamente ligada à aprendizagem. Por isso, planeje a reunião junto com o coordenador pedagógico e garanta que ela aconteça nos horários reservados para o trabalho coletivo. Mostre os resultados de aprendizagem da escola e convide todos a discutir meios para vencer eventuais fragilidades. Proponha que os professores repitam o modelo para falar sobre a própria classe: apresentando informações sistematizadas sobre cada estudante, dividindo dificuldades e compartilhando estratégias didáticas.
     

GRÊMIO ESTUDANTIL

  • COMO NÃO DEVE SER Formado apenas pelos alunos mais bem comportados escolhidos pelo diretor, o grupo auxilia a direção a combater a indisciplina. As principais atividades são organizar eventos pontuais, como campeonato de esportes e festa junina. Em outro extremo, o colegiado funciona quase à margem da escola e é famoso por causar tumulto.
  • COMO VIRAR O JOGO Apoie, dê suporte e incentive o grêmio. Essa será uma das primeiras experiências democráticas dos estudantes. Disponibilize uma sala dentro da escola para o grupo se reunir e guardar seus materiais. Incentive os estudantes a formar chapas e definir regras para o funcionamento do colegiado. Lembre que ele deve ser chamado a opinar e colaborar em momentos importantes da escola, como a definição do projeto político-pedagógico (PPP) e o próprio conselho escolar.
     

REUNIÃO DE PAIS

  • COMO NÃO DEVE SER Marcada em horário comercial, acontece com pautas definidas pela direção. O foco são eventos da escola, informes ou o comportamento dos estudantes. Pouco se fala sobre aprendizagem e os pais não têm oportunidade para propor temas.
  • COMO VIRAR O JOGO Estimule a participação, não só a presença. Proponha horários viáveis para a maioria comparecer e use canais diferentes de comunicação para informar o horário escolhido. Separe parte do tempo para apresentar o andamento da escola, as decisões do conselho e os projetos pedagógicos. Colete com os pais tópicos para as próximas reuniões e planeje um cronograma. Eventualmente, convide especialistas. Isso ajuda a formar os familiares e estimula a colaboração. Lembre-se também de ouvir os funcionários. Eles podem dar informações que os professores desconhecem como brigas durante o intervalo ou alunos que sempre chegam em cima da hora.
     

CONSELHO ESCOLAR

  • COMO NÃO DEVE SER Composto de nomes indicados pelo gestor, que se reúnem a portas fechadas. O horário dos encontros e as pautas discutidas são um mistério para o resto da escola. O objetivo é apenas referendar decisões já tomadas pela direção.
  • COMO VIRAR O JOGO Apresente o conselho para toda a escola no começo do ano. Descreva sua função e importância e defina, coletivamente, um cronograma de eleições de participantes e reuniões. Para o encontro, convide o gestor de outra instituição onde o colegiado é bem atuante para compartilhar sua experiência. Ao longo dos meses, garanta que as pautas contemplem as demandas até dos alunos menores. Compartilhe os temas a ser discutidos e as decisões no maior número possível de canais para que todos conheçam o que foi definido.

Consultoria: Maura Barbosa, coordenadora pedagógica da Comunidade Educativa Cedac.

Ilustrações: ORLANDELI