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Dengue: o que você não sabe

A ciência avança e traz novidades sobre o mosquito. Veja oito repostas para atualizar sua equipe e relembre o básico que a escola precisa fazer

POR:
Patrick Cassimiro, Karina Padial e Beatriz Vichessi

1. Ar-condicionado é eficaz contra o Aedes aegypti?

A baixa temperatura resultante do uso do equipamento diminui bastante o metabolismo do mosquito e sua busca por alimento. Sem contar a ação mecânica do vento que atrapalha seu voo. Apesar disso, o inseto nem sempre morre com o clima mais frio, o que significa que quando o equipamento estiver desligado, ele voltará a ativa.

 

2. Vitamina B repele o inseto?

O que atrai a fêmea para o corpo humano é o cheiro. A ingestão dessa vitanima pode modificar nosso odor e, assim, confundir o mosquito. Mas cuidado! Para que isso aconteça, é preciso que a substância seja consumida em grande quantidade, o que não é recomendado devido ao risco de intoxicação. Além disso, o efeito não dura muito e depende do metabolismo de cada pessoa.

 

3. O mosquito só voa baixo e para locais próximos?

Embora seja mais difícil, já foram encontrados focos do mosquito em locais altos. Em um prédio, a proliferação de mosquitos deve ser motivo de preocupação para os moradores de todos os andares, isso porque eles podem ser levados dentro de elevadores ou ainda passar de um andar para o outro. Em áreas planas, eles podem se distanciar até um quilômetro do seu criadouro.

 

4. Areia no prato das plantas impede seu desenvolvimento?

Depende. Se a terra for insuficiente e permitir a criação de poças de água, então, ela não serve para nada. É preciso cobrir o prato até as bordas e deixar a areia rente ao vaso para impedir o desenvolvimento das larvas.

 

5. Para eliminá-lo, basta jogar fora a água acumulada?

Não. Além de eliminar a água, também é preciso lavar com esponja. Isso porque o ovo do mosquito adere à parede do vasilhame e por lá pode ficar por cerca de um ano sem água. Daí, se voltar a encher de água, nada o impede de eclodir.

 

6. O Aedes se reproduz apenas em água limpa e parada?

Não é bem assim. O número de larvas encontrado em água parada e limpa (o que não significa livre de material orgânico, como terra e folha) é bem maior. Mas, apesar de atípico, já foram localizados ovos até mesmo em esgoto bruto, como aponta o estudo Efeito de Qualidade da Água no Ciclo de Vida e na Atração para Oviposição de Aedes aegypti, realizado pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), em 2010. Isso porque a fêmea leva em conta outros apectos, além da pureza, na hora de depositar ovos, como luminosidade, temperatura e presença de matéria orgânica. A pesquisa também mostrou que, mantidas em água limpa sem nutrientes, as larvas morrem.

 

7. Já tem vacina contra dengue?

Há uma vacina, produzida por um laboratório estrangeiro, que já está sendo comercializada. Ela é aplicada em três doses, em pessoas entre 9 e 45 anos, e funciona contra os quatro tipos do vírus. O problema é que, por ora, ela está disponível só na rede privada e cada dose custa cerca de 290 reais. Mas há outra vacina sendo feita pelo Instituto Butantan, em São Paulo. Ela ainda não está pronta, mas já chegou à última fase de testes. De dose única, a promessa é que ela atenda a um público mais abrangente, de 2 a 59 anos, e tenha eficácia entre 85% e 90%, maior que os 66% da outra. Segundo Jorge Kalil, diretor do Butantan, isso é possível porque a importada é feita com um híbrido dos vírus da febre amarela e da dengue, enquanto a nacional tem 100% o da dengue. O medicamento também será mais barato, facilitando a compra pelos governos e pelo consumidor.

 

8. Há outras maneiras de se combater o mosquito?

Há diversos testes sendo feitos por institutos de pesquisa com o objetivo de substituir os mosquitos que são bons vetores de doenças por outros que não têm a mesma capacidade. Uma das formas que mais têm se destacado é a implantação da bactéria Wolbachia no Aedes. Presente na mosca-das-frutas (Drosophila melanogaster), ela impede a transmissão do vírus e tem se mostrado eficiente contra dengue, zika e chikungunya. Outra vantagem dessa estratégia, segundo o entologista Ademir Martins, pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, é que a bactéria é transmitida para a prole (para ver o esquema de como ocorre a transmissão, acesse bit.ly/bacteria-aedes). Os resultados dos primeiros testes feitos no Brasil revelaram que, após serem lançados na natureza, 80% dos mosquitos encontrados nos mesmos locais de soltura já tinham a bactéria.

 

 

O BÁSICO NA ESCOLA

BRIGADA CONTRA A DENGUE

Monte uma equipe de funcionários para fazer um mapa de risco com as áreas de maior atenção (veja um exemplo de mapa em bit.ly/brigadas-sp), vistoriar o prédio e registrar as informações (veja um exemplo de planilha em bit.ly/planilha-registro). Vale envolver os alunos nessa tarefa. Para isso, divida as turmas para que, a cada semana, uma delas fique responsável por um espaço.

 

PROJETO INTERDISCIPLINAR

Como dengue, chikungunya e zika já fazem parte da realidade dos alunos, o ponto de partida pode ser a percepção deles sobre a incidência dessas doenças. Um questionário aplicado aos alunos e pais apoia a análise. Depois, vale estudar o mosquito: as fases de vida e a diferença entre machos e fêmeas (são elas que transmitem os vírus). Convide professores de Geografia e Matemática para participar do projeto. O primeiro colabora com a leitura dos dados do questionário e de gráficos e o segundo ajuda a entender a relação do crescimento urbano com a maior incidência de mosquito.

 

ARMADILHAS

Construindo ovitrampas, técnica de captura dos ovos do mosquito, a escola pode se transformar em polo coletor de dados sobre a população de Aedes aegypti em uma área. Para isso, basta uma garrafa PET, água, papel e um pedaço de cartão magnético bancário (veja como montá-la em bit.ly/ovitrampa). O projeto está em teste no Acre e terá um aplicativo de celular que recebe fotos das armadilhas e contabiliza a quantidade de ovos depositados.

 

DIÁLOGO COM A COMUNIDADE

Com a parceria do posto de saúde ou da vigilância sanitária, convide os pais para palestras sobre ações de combate ao Aedes. Aproveite as informações desta reportagem para esclarecê-los a respeito de mitos e verdades sobre o mosquito.