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Por: NOVA ESCOLA

Bilhetes: muita tensão, pouco resultado

Telma Vinha comenta os desafios da Educação moral

Telma Vinha,

Telma Vinha,
é professora de Psicologia Educacional da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

"Senhores Pais, o Lucca precisa, urgentemente, melhorar o comportamento. Ele atrapalha por conversar, brincar e levantar a todo instante."

Esse tipo de comunicação apareceu com frequência em uma pesquisa que analisou bilhetes e notificações eletrônicas de escolas públicas e privadas de Ensino Fundamental. A maioria tratava de desobediência às regras e conflito entre alunos e professores. Por meio de entrevistas, a pedagoga Sandra Dedeschi, em uma tese realizada na Unicamp, descobriu que os docentes esperavam que os pais resolvessem os problemas informados. Ao contrário do que se acreditava, nenhum responsável ficou indiferente: todos usaram sermões, ameaças, sanções ou prometeram recompensas. As punições foram empregadas por 70%, sendo que mais de 1/3 eram castigos físicos! Apesar disso, os pais consideravam que as intervenções resultavam em mudanças apenas temporárias, o que gerava desânimo, frustração e impotência por não saberem mais o que fazer.

Sem dúvida, há questões importantes que precisam ser compartilhadas com a família como problemas de saúde, mudanças de atitude, furtos... Mas é essencial pensar em quais informações enviar e também tomar cuidado com a forma da mensagem, descartando escrevê-la por impulso na hora da irritação. Também é usual que o professor ameace enviar um bilhete para casa por não saber como agir diante do mau comportamento ou mande uma notificação para se resguardar de futuras reclamações. O estudo verificou que os docentes consideravam algumas famílias "desestruturadas", permissivas ou autoritárias. Mesmo assim, era para elas que encaminhavam os problemas para que fossem resolvidos. Muitas vezes, isso só produzia mais angústia e tensão no relacionamento entre pais e filhos.

Antes de responsabilizar as famílias, a escola precisa analisar as causas internas que levam à indisciplina.

A escola é um espaço socializador e educativo por excelência e os conflitos ocorridos são também de responsabilidade pedagógica dos profissionais que lá atuam. O comportamento indisciplinado está ligado a aspectos que os pais pouco podem interferir, como práticas mecanicistas, centralização do professor, atividades pouco desafiadoras, má organização do tempo, relações autoritárias, regras impostas e sem significado, pouco incentivo à participação e às interações dos estudantes, entre outros. Ao transferir para a família a solução de problemas, a escola exclui o aluno da busca por resoluções, tira dele a oportunidade de refletir e de se colocar no lugar do outro. Seria mais construtivo analisar as causas internas da indisciplina e usar os conflitos como oportunidade de mudar atitudes. Isso inclui ouvir a criança ou o adolescente e os demais envolvidos, mediar os conflitos, considerar a recorrência do ocorrido e quais ações pedagógicas curativas e preventivas foram tomadas. Só depois dessas providências, aí, sim, pode ser válido elaborar um bilhete para informar os pais.

 


Ilustração: ADRIANA KOMURA