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Um guia para um PPP com a cara de 2017

Elaborar ou revisar o projeto político-pedagógico é uma oportunidade para refletir (e incorporar) o espírito do tempo na vida escolar

POR:
Patrick Cassimiro, Beatriz Vichessi e Gustavo Heidrich

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odo começo de ano a elaboração ou revisão do projeto político-pedagógico (PPP) ocupa a mente e os esforços dos gestores. Muito mais que um documento com lacunas para serem preenchidas, ele é a carta de intenções da escola, o papel que ela quer desempenhar diante das mudanças na sociedade e na Educação. "O PPP tem de responder às necessidades políticas e sociais da comunidade. Se as circunstâncias mudam, ele tem de mudar também", diz Luís Carlos de Menezes, coordenador da Faculdade Sesi-SP de Educação.

E o que não faltam são mudanças. Vivemos um dos períodos de maior efervescência política, educacional e social da nossa história recente. Para esse começo de ano, por exemplo, é imprescindível ficar de olho nas mudanças que vão surgir com a Medida Provisória 746, que trata das reformas do Ensino Médio e a Base Nacional Comum Curricular. Também é fundamental levar em conta as transformações nos hábitos e costumes, no modelo de família, as questões raciais e de gênero, a violência e a intolerância, o protagonismo dos alunos e as novas oportunidades trazidas pelas tecnologias. Tudo isso altera as relações humanas que se constroem na escola.

É no PPP que deve surgir a reflexão sobre como cada uma dessas questões se refletem (e se materializam) na identidade e na intencionalidade educativa da instituição. Esse é o sentido maior do "político" que compõe a sigla (conheça mais abaixo, experiências de escolas que enfrentaram o desafio de um PPP contemporâneo).

Cabe à gestão reunir a comunidade para debater o documento considerando todas essas questões. Segundo Edneia Gonçalves, assessora da ONG Ação Educativa, o PPP só tem sentido se a gestão permitir que todos se manifestem. E alerta: o documento tem de representar as diferenças, não apenas a opinião da maioria. No caso de pontos muito polêmicos, em que não haja acordo, a sugestão é registrar no próprio documento que o debate seguirá ao longo do ano. Fica sob responsabilidade da gestão planejar momentos para isso, inclusive convidando especialistas no tema para retomar a conversa e aclarar as ideias.

Para que todos os atores da comunidade atuem de verdade, é preciso pensar em métodos de escuta e diversas formas de expressão. Ricardo Henriques, superintendente do Instituto Unibanco, diz que, após o debate sobre a missão da escola, é interessante pensar como torná-la acessível. Vale, por exemplo, usar a linguagem artística, como uma história em quadrinhos feita pelos alunos, que conte o percurso da discussão e o resultado final. Para que o PPP seja vivo e presente na rotina, ele precisa ser elaborado de forma clara (leia em "O PPP em 7 partes") - e consultado, revisto e avaliado ao longo do ano. O objetivo é revelar avanços, pontos de atenção e problemas a ser solucionados por ações nas diferentes áreas da escola.

 

O PPP em 7 partes

Confira uma sugestão de tópicos a serem abordados no PPP e como contemplá-los. Valorize a linguagem clara e simples. Depois do documento pronto, apresente-o aos integrantes do conselho escolar, para que possam fazer sugestões e se apropriar do conteúdo.

 

1. MISSÃO

Reúne os princípios e valores que norteiam a escola. É importante que fique à mostra, faça sentido para todos e seja consultada sempre que uma decisão tiver de ser tomada. A missão é um dos pontos perenes do PPP e deve ser conservada de dois a cinco anos, para ser um norte seguro.

Questões que responde: "O que significa Educação para nós?" e "Que estudantes almejamos formar?"

 

2. CLIENTELA

Item que reflete o histórico da comunidade do entorno, da escola e das famílias com dados econômicos, sociais e culturais atuais (também é interessante apresentar um pouco do passado, para fazer comparações). Apresente tudo em tabelas e gráficos acompanhados por textos analíticos.

Questões que responde: "Quem são os estudantes e as famílias?" e "Qual a história da escola?"

 

3. DADOS SOBRE APRENDIZAGEM

Nesse tópico, dados sobre matrículas, evasão, transferências, distorção idade-série, reprovação, aprovação e resultados de avaliações internas e externas. Crie divisões por série e disciplina, organize tudo em gráficos e tabelas e use dados dos anos anteriores também. O item ajuda a analisar o ensino e a aprendizagem e prever ações.

Questão que responde: "Quais são os nossos resultados?"

 

4. RELAÇÃO COM A FAMÍLIA

Mostra como os familiares participarão das decisões e projetos e o que a escola fará para aumentar a frequência nas reuniões de pais e no conselho escolar. Revisite quantas vezes for necessário o item 2 (clientela) para fazer proposições realistas.

Questão que responde: "Que vínculo queremos estabelecer com elas? Por quê?"

 

5. RECURSOS

É um inventário de tudo que existe na escola: materiais pedagógicos, estrutura física e recursos financeiros e humanos. O levantamento permite prever gastos, planejar projetos para os alunos desenvolverem e formações para os profissionais.

Questões que responde: "De que a escola dispõe materialmente?" e "Quem faz parte da equipe?"

 

6. DIRETRIZES PEDAGÓGICAS

Contempla o currículo da escola, os conteúdos e os objetivos de ensino de cada disciplina, separados por etapa, ano a ano. Nesse item, é essencial apresentar as metas de aprendizagem e as formas de avaliação.

Questões que responde: "Como é o currículo?", "Quais são os objetivos de ensino?", "O que e como ensinar?" e "Como avaliar os alunos?"

 

7. PLANO DE AÇÃO

São as ações para o ano desdobradas em: objetivos, duração, responsáveis, recursos, parceiros, encaminhamentos, etapas e avaliação. A gestão deve apoiar a execução de perto monitorando quais foram os facilitadores e as aprendizagens e como elas repercutiram.

Questão que responde: "Na prática, o que será feito para melhorar o ensino e a aprendizagem?"

 


Consultoria: Maura Barbosa, coordenadora da Comunidade Educativa Cedac, Edneia Gonçalves, assessora da Ação Educativa, Paulo Roberto Padilha, diretor do Instituto Paulo Freire, e Luís Carlos de Menezes, coordenador da Faculdade Sesi-SP de Educação.

 

Cinco caminhos para um PPP atualizado

Conheça os percursos de seis escolas no desafio de construir um PPP contemporâneo. O documento, segundo Paulo Roberto Padilha, diretor do Instituto Paulo Freire, não é início nem fim. "É o meio, resultado de discussões e análises que resultarão em ações e aprendizagens."

 

Para incluir questões sociais

Eliane (à direita) e equipe: discussão sobre infância
Crédito: MARIANA PEKIN

"Tudo que discutimos e os projetos passaram a fazer parte do PPP, ele é consultado sempre que alguma ideia surge para checar se tem a ver com nossos valores e concepção de infância."

ELIANE CHAGAS, assistente pedagógica da Creche Professora Nancy Andreolli, em Santo André (SP)

 

COMO COMEÇAR

Discussões sobre mudanças na infância e temas como o racismo impactam a missão da escola e orientam o trabalho dos educadores. "Elas também incidem nas diretrizes pedagógicas", diz Maura Barbosa, coordenadora da Comunidade Educativa Cedac. Os debates levam os profissionais a pensar que ideia cada um tem da criança, o que é o brincar, quais atividades são apresentadas aos pequenos e os motivos e que tipo de comemorações são planejadas.

NA PRÁTICA

A creche Professora Nancy Andreolli, em Santo André, em São Paulo, promoveu debates sobre a relação da escola com as datas comemorativas e o racismo presente nas interações das crianças e também entre os professores. Eles resultaram em projetos como uma oficina de bonecas negras com profissionais da escola e a comunidade e na reformulação das festas.

 

Para acolher pedidos dos alunos 

Vanice (à esquerda) e a vice, Mariza: espaço para a turma
Crédito: MARCELO ALMEIDA

"Após a desocupação, os alunos pediram rodas de conversa sobre Educação semanalmente com a participação de gestores, alunos e universitários da região. As reuniões já estão acontecendo e vão constar no PPP 2017."

VANICE CHARELLO, diretora do CE Rocha Pombo, em Morretes (PR)

 

COMO COMEÇAR

É importante incluir nas discussões do PPP quais mudanças os estudantes almejam, o que esperam da escola e como isso pode contribuir com a aprendizagem. Que tipo de projeto, por exemplo, atende às necessidades reais deles? Para Edneia Gonçalves, assessora da Ação Educativa, ao fazer o levantamento da clientela, muitos desses pontos podem ser revelados e contribuem bastante com a definição dos itens que vão compor o plano de ação. Maura ressalta que também é fundamental que eles participem das discussões sobre a revisão do PPP, tendo direito à voz ativa.

NA PRÁTICA

O Colégio Estadual Rocha Pombo, em Morretes (PR), foi ocupado durante o ano passado pelos alunos em protesto contra medidas anunciadas pelo Governo Federal. A manifestação ressaltou a necessidade de ouvir os estudantes.

 

Para fortalecer o vínculo com as famílias

Alessandra ( à frente): parceria com as mães para amamentação
Crédito: MARIANA PEKIN

"As mães estão mais próximas dos filhos, umas das outras e da escola. A iniciativa também colaborou para que as crianças sejam amamentadas por mais tempo. Na sala chamada Aconchego, já realizamos até palestra com uma nutricionista."

ALESSANDRA LOUREIRO, diretora do CEI Gabriel Vinícius Coelho, em Ferraz de Vasconcelos (SP)

COMO COMEÇAR

O levantamento de dados sobre a clientela não pode ser somente um apanhado de números e informações qualitativas. Tudo o que for apurado precisa ser usado para refletir em ações concretas, que respondam às necessidades e expectativas das famílias e da comunidade, garantindo formação de vínculo entre elas e a escola.

NA PRÁTICA

A CEI Gabriel Vinícius Coelho, em Ferraz de Vasconcelos (SP), fez um levantamento da sua clientela e identificou a necessidade das mães por um espaço na escola para amamentar.

 

Para contemplar questões de gênero

Otacílio (à esquerda), professores e alunos: gênero sem tabu
Crédito: IGOR DE MELO

"Fundamos, então, o Núcleo de Gênero, que já está em atividade há dois anos e que passa a constar no PPP de 2017. Registrada no documento, a iniciativa passará a ser uma das políticas da escola. Mesmo que a gestão mude, a ideia permanecerá."

OTACÍLIO DE SÁ PEREIRA BESSA, diretor da EEM Adauto Bezerra, em Fortaleza (CE)

COMO COMEÇAR

Alunos, pais e educadores levam para o espaço escolar questões sociais, políticas e econômicas que fazem parte do seu entorno. "É obrigatório considerar esses panoramas ao elaborar o PPP e analisar como eles impactam não só a missão mas também o plano de ação", diz Maura.

NA PRÁTICA

As questões de gênero eram discutidas de formas transversal em diversas disciplinas na EEM Adauto Bezerra, em Fortaleza. Passado um tempo, alguns docentes concluíram que era importante algo mais sistematizado e participativo.

 

Para incorporar novos recursos pedagógicos

Virgílio (centro): tecnologia ganha vida no PPP
Crédito: DIEGO SOUZA FOTOGRAFIA

"Ao incluir o espaço no PPP, tornamos seu uso oficial e enfatizamos o significado dele na nossa concepção de ensino. Registrar o que temos, o que fazemos e no que acreditamos constrói a história e o percurso da escola."

VIRGÍLIO LISBOA DO VAL, diretor da escola Sesi, em Barra Mansa (RJ)

COMO COMEÇAR

Saber quais são os materias didáticos disponíveis (e quais se deseja comprar), ter conhecimento do acervo da biblioteca (e se os livros são mesmo usados pelos alunos) e ouvir os docentes sobre quais recursos tecnólogicos poderiam ajudar em sala são formas de levantar dados para fomentar a discussão sobre qual é a concepção de ensino e de aprendizagem da escola. Os recursos disponíveis orientam, no PPP, o traçado das diretrizes pedagógicas, da missão e do plano de ação, de acordo com Maura. Afinal, eles são as ferramentas para os educadores trabalharem no dia a dia de sala de aula.

NA PRÁTICA

A escola do Sesi em Barra Mansa, no Rio, incorporou um espaço maker, com computadores, lousa digital, materiais para robótica e artesanato. É uma área específica para projetos que antes já aconteciam em sala.

 


Ícones: Patrick Cassimiro