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O currículo precisa de uma aula de ética

POR:
NOVA ESCOLA
Telma Vinha,

Telma Vinha,
professora de Psicologia Educacional da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

As escolas têm como objetivo formar pessoas   éticas. Apesar de os PCN orientarem a trabalhar a moralidade transversalmente, nosso modelo escolar, ainda tão conteudista, dificultou que essa proposta se efetivasse. Para promover essa aprendizagem, é necessário construir um trabalho intencional de Educação moral. Uma forma de favorecer o desenvolvimento ético nos estudantes é a introdução de uma disciplina semanal na grade horária para a realização de reflexões e ações relacionadas à construção de valores morais.

As aulas de que estamos falando aqui nada têm a ver com a criticada disciplina de Educação Moral e Cívica, presente nas escolas brasileiras no passado. Ela seguia uma concepção de doutrinação que, entre outras coisas, pretendia manter o modelo social vigente e inculcar a obediência aos governantes do regime militar.

Também não se trata de ditar o que é certo ou errado - estratégia pouco eficaz para desenvolver a autonomia -, mas enxergar a moral como objeto de estudo para a aprendizagem de um modo justo e feliz de conviver socialmente em uma comunidade cheia de conflitos.  

Essa estratégia está inserida na definição do currículo, uma das três vias pelas quais o trabalho com Educação moral deve ser feito na escola, segundo Josep Puig, professor da Universidade de Barcelona e estudioso da área (as duas outras são a dimensão pessoal, ligada à postura dos educadores e à relação que estabelecem com os alunos, e a institucional, que constitui nas iniciativas organizadas pela escola e têm como premissa a participação democrática).

Dentro das aulas (de 90 minutos, geralmente), as assembleias de classe - em que os estudantes debatem sobre problemas de convivência e outras questões de interesse deles - podem ser alternadas com a realização de procedimentos como a discussão de normas e valores, a construção de projetos antibullying, a aprendizagem de formas  justas e eficazes de resolver conflitos, o autoconhecimento, a identificação e a expressão dos sentimentos e a Educação digital. O docente responsável deve ter boa formação nessa área, postura respeitosa e aberta ao diálogo e um vínculo com as crianças e os jovens.

Não se trata de uma disciplina para ditar o certo ou errado, mas para discutir o convívio em meio aos conflitos. 

Em algumas escolas das redes públicas de Campinas e Paulínia, no inteiror de São Paulo, a disciplina está presente em todo o Ensino Fundamental. Os resultados foram animadores, como a prevenção de conflitos, o desenvolvimento de relações mais respeitosas e o aumento do sentimento de bem-estar geral. O livro Democracia e Participação Escolar, de Josep Puig e outros autores, é uma boa leitura para quem queira saber mais sobre esse tipo de iniciativa.

Quando a ideia é favorecer relações mais justas, respeitosas e solidárias, a escola deve ser um lugar em que valores sejam refletidos, e não apenas impostos ou frutos do hábito. 
 


Colaborou: Adriana Ramos, pesquisadora do Gepem. 

Ilustração: Adriana Komura

 
 

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