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Líder convincente, escola diferente

O maior mérito do novo diretor foi agregar talentos da velha equipe para promover muitas mudanças

POR:
Wellington Soares e Alice Vasconcellos

"N o 'Tonhão', entra burro e sai ladrão." Até pouco tempo atrás, era essa a fama da EM Antônio Matias Fernandes, em Manaus. Mas, quando a equipe de GESTÃO ESCOLAR esteve na escola, no início de setembro, o discurso dos moradores do entorno era outro. 

Rodrigo Froes

29 anos
9 anos de docência
2 de gestão
Gestor Nota 10
Manaus (AM)
Direção
Projeto: Educação de Qualidade, Responsabilidade de Todos

 

Logo na porta, fomos parados por vizinhas que diziam se orgulhar da instituição e, mais do que isso, do responsável por transformá-la, o diretor Rodrigo Froes. "Esse é o homem que finalmente fez algo pela escola", gritou uma delas, da sacada da casa em frente ao colégio.

Rodrigo assumiu a direção em janeiro de 2015 e encontrou um cenário desalentador. No bairro da União, onde fica o colégio, a Educação disputa alunos com o crime organizado. Muitas crianças são órfãs ou têm familiares na cadeia. Ali é uma zona vermelha, ou seja, é dominada pelo tráfico e tem altos índices de violência, o que impacta a escola. "Toda semana alguém é assassinado nos arredores", conta uma funcionária.

Dentro dos muros, a situação também era preocupante. A EM Antônio Matias amargava um desempenho ruim nas avaliações externas e tinha problemas com evasão, o que jogava para baixo seu Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Em 2013, a nota da escola foi 3,5 nos anos finais do Ensino Fundamental - único segmento atendido por lá. Situação bem diferente do 4,8 da última medição, em 2015.
 

Ganhando o respeito do time

O trabalho de Rodrigo começou com uma reorganização do espaço. Aproveitou o recesso escolar de início de ano e, logo nas suas primeiras semanas no cargo, mudou a cara da escola. "Ele chegou mostrando que queria trabalhar", conta a secretária Delcy Pedraça. A principal mudança ocorreu nos dois corredores onde se distribuem todas as salas de aula e da equipe da escola. Antes tomados por armários de metal que acumulavam livros inutilizados há anos, eles foram limpos com a ajuda dos funcionários. Parte da mobília foi realocada, o sol passou a iluminar a escola e há mais espaço para circulação. A alteração foi simples, mas teve grande impacto. "Quando voltamos ao trabalho e vimos a diferença, tivemos uma ótima primeira impressão do diretor", lembra a professora de Educação Física Renata Bernasconi.

Mostrar disposição para mudar foi o primeiro passo para garantir que professores e funcionários comprassem a ideia de mudança propagada por Rodrigo. "Quando uma equipe trabalha coletivamente, firma-se um compromisso mais estratégico e fica mais fácil evoluir", defende Tatiana Bello, gestora de projetos da Fundação Itaú Social, em São Paulo. Nas palavras do gestor, "se você fecha com o time, consegue resultados melhores".

O trabalho de conquista e engajamento prosseguiu. Muitos cafezinhos, bate-papos durante intervalos entre as aulas e trocas de mensagens por WhatsApp resultaram em uma aproximação com a equipe. As conversas partem, às vezes, de temas do dia a dia, mas terminam com reflexões sobre os alunos e a escola. "Conversando com as pessoas, ouvindo suas histórias, o líder escolar consegue antever quais são as primeiras vitórias que podem ser ganhas e quais serão os seus principais colaboradores", diz Adrian Ingham, líder escolar na Inglaterra e consultor para formação de gestores do British Council, em São Paulo.

O especialista defende que o gestor identifique do que cada um se orgulha na escola, o que acha que precisa ser mudado e quais são as pessoas mais motivadas logo no início do processo. Estudando as características de cada funcionário, dá para partir de um grupo mais interessado que inicie as mudanças. Além disso, conhecendo a fundo o trabalho da equipe, é possível valorizá-lo. Foi assim que Rodrigo conquistou uma importante aliada, a secretária Delcy Pedraça. Desmotivada, ela havia pedido transferência para outra instituição, mais próxima da sua casa. A Secretaria Municipal de Educação atendeu o pedido e ela já estava com as malas prontas na chegada de Rodrigo. "Eu disse oi para ele e já me despedi na mesma hora", brinca ela. A notícia foi um baque para o diretor: "A Delcy é a pessoa que melhor domina todos os processos administrativos e burocráticos da escola. Não tinha como abrir mão dela", conta Rodrigo. Em uma longa conversa, ele apresentou seus argumentos. "Ele me disse que eu era importante na escola e mostrou que queria, de fato, mudar a situação. Então decidi ficar", lembra.
 

Sem rolo compressor

Outra ação fundamental para garantir a aproximação com a equipe foi apostar na continuidade, mais do que nas rupturas. Em escolas que amargam maus resultados e recebem um novo gestor, pressionado pela promessa de reverter a situação, não é raro que um dos primeiros passos do líder seja implantar suas próprias ideias.

Especialistas afirmam que uma gestão bem-sucedida começa com atitudes opostas a essa. "Se um profissional não acredita que haja algo de bom ali, dificilmente vai conseguir transformar a realidade", defende Maria Carolina Nogueira Dias, que atua como consultora e coach para gestores e professores. Para identificar propostas de sucesso, o diretor contou com Cinthia Morales. Ela exerce o cargo de pedagoga - função semelhante a de uma coordenadora pedagógica. Com ela, Rodrigo identificou projetos de sucesso, como o Encantar-te, tocado há nove anos pelas professoras de História e Arte. Nele, os estudantes participam de oficinas culturais e artísticas no contraturno. O projeto aumentava o engajamento nas aulas regulares - boas notas são um pré-requisito para estar nas oficinas. "Decidimos investir no projeto e na divulgação dentro da escola, para atingir mais estudantes", conta o gestor.

Mas os pontos fracos do colégio manauara eram muitos e precisavam ser encarados. Questões de aprendizagem e de fluxo eram alarmantes. O exemplo mais dramático eram as aulas da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Assim que assumiu a gestão da escola, a Secretaria Municipal de Educação propôs a Rodrigo o fechamento do segmento, que funcionava apenas à noite. O principal motivo era a baixa adesão: apenas dez estudantes iam às aulas com frequência. O diretor pediu tempo para avaliar. No acompanhamento das aulas, Rodrigo identificou um efeito em cascata: falta de motivação dos professores, que acarretava baixo engajamento dos alunos e, por consequência, altos índices de evasão.

Para reverter a situação, ele se direcionou especificamente à equipe, apresentou os maus resultados, citou a ameaça de fechamento e perguntou como os professores poderiam contribuir. Juntos, eles chegaram à conclusão de que seria necessário repensar o currículo para garantir a permanência dos alunos. O gestor trouxe à escola um novo professor de Educação Física e os docentes adotaram a abordagem por projetos, que envolveram saídas a campo durante o próprio horário das aulas (o gestor conseguiu até organizar uma visita guiada dos alunos ao Teatro Amazonas). A mudança deu resultado: com aulas focadas nos interesses dos jovens - maioria das matrículas - e nos esportes, a evasão diminuiu e as aulas lotaram.

A falta de motivação, aliás, não era exclusividade dos professores da noite. Nos três turnos, Rodrigo focou na solução e não no problema, abrindo espaço para que os mais engajados apresentassem novas propostas para o trabalho. ?Ele nunca diz não, sempre compra as minhas loucuras?, brinca a professora Renata. Para os menos empolgados, o próprio Rodrigo tenta sugerir atividades. "Eu chego no professor e digo: 'e se a gente fizer uma horta com os alunos?'", exemplifica. Quase sempre o docente topa a sugestão e começa a desenvolvê-la. "A escola tinha ótimos profissionais. Faltava a liberdade para que eles desenvolvessem suas ideias?, justifica o gestor. Mas não dá para acreditar que todos se motivarão da noite para o dia. O processo leva tempo e exige empurrões. Por exemplo, quando professores engajados compartilham estratégias bem-sucedidas, os colegas tendem a se sentir mais dispostos a adotar novas posturas. Estabelecer pequenas metas, desafiadoras, mas alcançáveis, também pode ser um incentivo. "Metas ousadas, que levam muito tempo para ser cumpridas, costumam ser pouco efetivas", esclarece Maria Carolina.
 

Responsabilidade e poder a todos

Outro fator que pode impulsionar o desempenho de professores e funcionários é o compartilhamento não apenas das responsabilidades mas também do poder de decisão. Desde a chegada de Rodrigo, a equipe define em conjunto quais são as ações prioritárias e como a escola deve agir, mesmo que se trate de medidas questionáveis. Quando estivemos lá, o diretor foi procurado por um conselheiro tutelar. Depois de uma conversa a portas fechadas, Rodrigo chamou a equipe para a sala dos professores. "Eles querem nos obrigar a matricular uma aluna de transferência que possui 100 faltas e nenhuma nota. Querem empurrar o problema para nós?, desabafou. Os professores, então, entraram na discussão. A conclusão: não fazia sentido aceitar aquela matrícula. "Pode deixar que, se o Ministério Público aparecer aqui, nós apoiamos a sua posição. Não tem por que a matricularmos só para reprová-la, o que vai pesar na nossa meta", concluiu uma das professoras. A LDB estabelece o direito ao acesso a Educação pública sem restrições. Na vida concreta, mesmo um projeto Nota 10 tem problemas.

EQUIPE

 

DELCY se tornou
o braço direito de Rodrigo e o auxilia em todas as tarefas
administrativas da instituição

 

CINTHIA
MORALES
acompanha o trabalho dos
professores e ajuda a garantir o cumprimento das metas

 

RENATA BERNASCONI é uma das professoras que encontraram gás para criar projetos que engajaram os estudantes

 

MARIA DO
CARMO BRAGA
foi a responsável
por divulgar aos
moradores do bairro as mudanças pelas quais a escola passou

 

Foi também com o apoio da equipe que a escola revisou o regimento escolar e passou a valorizar a disciplina - motivo de orgulho para o diretor. Os alunos formam fila no início das aulas, nenhum jovem pode entrar na escola sem uniforme e há câmeras em todos os ambientes, inclusive nas salas de aula. "Naquele contexto, foi a medida encontrada para lidar com a violência presente na realidade da escola", afirma Maura Barbosa, consultora pedagógica de GESTÃO ESCOLAR e selecionadora do Prêmio Educador Nota 10.

São medidas polêmicas. A maioria dos especialistas em clima escolar defende outras estratégias para garantir a convivência. Entre elas está o estabelecimento de regras com os estudantes, o que permitiria que os próprios jovens regulassem o comportamento e ajudassem a pensar em sanções para quem as descumprisse. Não é o que acontece na EM Antônio Matias Fernandes. "Com a escola reorganizada, é hora de repensar essas medidas: apresentá-las em assembleias com os estudantes, e em reuniões do conselho escolar, para avaliá-las e pensar em novos caminhos", pondera Maura.

Também faltam instâncias organizadas de gestão democrática. O colégio não tem grêmio e nem todos os processos de consulta à comunidade estão formalizados. Com um líder forte, as coisas funcionam bem. O perigo é que, na ausência de Rodrigo, o ambiente de cooperação que parece ter se instalado se perca por falta de referência.
 

O que significa ser líder

Em parte conscientemente, mas também de maneira intuitiva, Rodrigo se baseou em estratégias de liderança para guiar a escola no caminho da mudança. Consultores de administração são unânimes em dizer que, para promover o crescimento e a melhoria, não basta ser um gestor: é preciso ser também um líder - expressão que, aliás, já se tornou lugar-comum no mundo corporativo. "O líder é aquele capaz de ter uma visão do futuro da escola e de guiá-la na direção certa para que as melhorias aconteçam", define Adrian Ingham, que dá cursos sobre liderança escolar.

Longe dos escritórios e salas de reunião, na Educação, a importância dessas habilidades tem ganhado destaque. Segundo o relatório How Leadership Affects Student Learning (Como a liderança afeta a aprendizagem dos estudantes (disponível em inglês), a liderança escolar é o segundo fator com maior potencial de impactar na aprendizagem dos alunos - atrás apenas da qualidade dos professores.

Sistemas de ensino do mundo todo têm se baseado nesse dado para promover a formação de diretores. A Inglaterra foi pioneira em planejar e dar capacitações na área. Em 2000, o país criou o National College for Teaching and Leadership, instituição responsável por formar gestores novatos. A ideia é preparar quem ingressa para gerir a equipe, estabelecer prioridades e criar um plano estratégico que garanta que todas as crianças aprendam. Apesar de inspirada nos programas de treinamento em empresas, essa iniciativa se destaca pelo cuidado às especificidades da Educação e aos desafios da escola pública. "Os funcionários são selecionados de forma específica, os recursos são menos flexíveis, há desafios sobre a formação continuada da equipe e na natureza do trabalho, focado na aprendizagem", diz Maria Carolina.

Parte dessas habilidades Rodrigo aprendeu durante o curso Progestão, oferecido pela Secretaria Municipal de Educação. Outra parte ele atribui à sua experiência na Educação Indígena. "Quando fui coordenador no interior do estado, aprendi o valor de envolver a comunidade e de resolver as questões em conjunto", relembra. A conquista da comunidade, aliás, foi fundamental para mudar de vez a má fama da escola.

Para tirar o bordão da boca dos vizinhos, foi fundamental a participação de Maria do Carmo Braga, moradora do União e inspetora de alunos. Conhecida de todos, ela ajuda a divulgar os avanços da escola e ações realizadas pela instituição, que passou a se envolver também em questões da região. Um exemplo é o escasso transporte público. Os ônibus têm dificuldades em circular pelo bairro, que possui ruas bastante estreitas. Para discutir o problema, a escola auxiliou a associação de moradores a organizar um encontro com autoridades. Por todo esse engajamento e cuidado para melhorar o entorno, o "Tonhão" é, hoje, motivo de orgulho para a comunidade. Rodrigo tem papel de destaque nessa transformação.

 


Fotografia: Joel Rosa