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A greve acabou. E agora?

O que fazer antes, durante e depois da paralisação para garantir o aprendizado

POR:
Jacqueline Hamine e Fernanda Salla

Para pais e alunos, o fim de uma greve de professores é um momento de alívio. No caso dos gestores escolares, a sensação pode ser oposta, de ansiedade. Natural. A volta às aulas depois de uma pausa forçada requer esforço extra para colocar a casa em ordem. É preciso elaborar um novo calendário, auxiliar os docentes no replanejamento das aulas e engajar os estudantes a se comprometer com a reposição dos dias letivos para preservar a aprendizagem.

Neste ano, três estados brasileiros registraram greves de educadores: Ceará, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Isso sem contar as paralisações de alunos e os casos municipais. Os desafios variam a cada etapa de ensino. Na Educação Infantil, por exemplo, cuidar das relações entre as crianças e, principalmente, com os pais é o principal.

Ana Maria de Araújo Mello esteve à frente das creches da Universidade de São Paulo (USP) em São Carlos e Ribeirão Preto, no interior do estado, por 28 anos e passou por algumas greves. Ela conta que, quando foi diretora, a primeira medida pós-paralisação era convocar uma reunião com toda a comunidade escolar para explicar as razões da medida e o plano para retomar as atividades. "Mediar os conflitos é um dos principais desafios nessa fase. Nem todas as famílias apoiam as greves e o gestor precisa lidar com isso", afirma.

Outra preocupação era com a readaptação dos pequenos ao ambiente escolar. Ana Maria falava com cada família para obter informações sobre a rotina da criança no período afastado e como era a alimentação dela. Assim, orientava os educadores caso houvesse dificuldades. "Alguém que teve uma dieta alimentar com muito açúcar, por exemplo, pode rejeitar a comida ao retornar. Se a equipe sabe dessa situação, consegue preparar um cardápio especial com a nutricionista", diz Ana Maria. No caso dos bebês, era preciso saber sobre como estava o processo de desfralde, se deixaram a chupeta, se mudou algo no ritual do sono, entre outros detalhes vitais para o bem-estar deles, dando continuidade ao trabalho da creche.

A partir deste ano, o desafio dessa fase ainda incluirá repor os dias letivos perdidos, já que a matrícula na pré-escola passa a ser obrigatória, de acordo com a Lei nº 12.796, de 2013, que altera a Lei de Diretrizes e Bases (LDB). Com isso, é preciso cumprir, no mínimo, 800 horas de aulas, distribuídas em, ao menos, 200 dias, assim como ocorre no Ensino Fundamental e no Médio.

Mesmo sem essa imposição quando passou por uma paralisação de 16 dias, Rúbia Cristina Cruz, diretora do CEI Tancredo Neves, em Campinas, no interior de São Paulo, fez questão de organizar, junto com sua equipe, o calendário para que parte do tempo perdido fosse compensado. Para isso, eventos previstos no projeto político-pedagógico (PPP) - como a Mostra Cultural ? foram feitos nos fins de semana ou de noite. Assim, as docentes puderam explorar ao máximo o tempo útil na escola com as crianças.

A educadora Patrícia Sanches Bodine conta que estava no meio de um projeto sobre os dinossauros com crianças de 3 a 5 anos quando a greve iniciou. Na volta, verificou se a turma seguia interessada pelo tema. "Se não fosse esse o caso, eu iria reelaborar o projeto, mantendo os objetivos de aprendizagem." Como os gigantes pré-históricos seguiam populares entre os pequenos, foi preciso apenas relembrar o que havia sido feito para dar sequência às atividades.

A comunicação transparente com as famílias também foi priorizada. Antes de a greve estourar, a gestão chamou os pais para explicar os motivos. Além disso, a equipe organizou encontros abertos à comunidade. "Também reuni todas as crianças para contar o porquê de elas ficarem fora da escola naquele período. Como cidadãs, elas têm direito de saber", diz a diretora.

 

O desafio de engajar os maiores

No Ensino Fundamental e no Médio, a grande preocupação é dar conta dos aprendizados previstos para o ano. Isso implica refazer o planejamento e a grade curricular e engajar os alunos a se comprometerem com o novo calendário. Por isso, nos 40 dias de greve do ano passado, o diretor Alberto Machado Vieira, junto com os coordenadores pedagógicos do Centro de Ensino Médio de Tempo Integral (Cemti) Didácio Silva, em Teresina, fez um controle diário, em uma planilha, do conteúdo que era deixado de ser trabalhado em cada disciplina. Quando retornou às atividades, a equipe chamou os professores e fez o replanejamento pedagógico e um calendário de reposições.

Em seguida, os pais foram convidados a conhecer a proposta e opinar. Maria do Socorro da Silva Trindade tinha acabado de transferir o filho, Ian Mateus Trindade Nascimento, 15 anos, da escola particular. Ela foi uma das 75 famílias a fazer isso em 2016, devido ao reconhecimento da qualidade da unidade. "Quando soube da greve, tive uma sensação contraditória: reconhecia as reivindicações dos docentes, mas não queria que o Ian, que está no 2º ano do Ensino Médio, fosse prejudicado", conta. Para ela, o diálogo aberto pela direção foi essencial para tranquilizá-la. "Minha preocupação era manter a credibilidade da escola", diz.

As reposições foram discutidas com os alunos. Ficou decidido que elas ocorreriam aos sábados e nos feriados. Engajar a todos é o maior obstáculo dos gestores, segundo Ana Paula de Oliveira Corti, professora do Instituto Federal de São Paulo (IFSP). Para motivá-los a comparecer, a escola programou para esses dias atividades complementares - como esporte e dança -, além de avaliações.

Como a escola é em período integral, havia horários previstos para estudos individuais, que foram usados também para a reposição curricular. O recesso de julho passou de 30 para 15 dias e os estudantes se comprometeram a realizar tarefas extras de casa. Os compromissos pessoais dos docentes foram levados em conta na hora de fazer a programação das aulas. "Quem faz especialização aos sábados de manhã, por exemplo, realiza as reposições à tarde", afirma o diretor.

Com diálogo e organização, a aprendizagem dos alunos pode entrar nos trilhos. Mas é preciso que a nova rotina não seja um fator de estresse. A greve acaba, mas o desafio de ensinar continua.


Ilustração: Adriel Contieri