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Por: NOVA ESCOLA

Como ajudei a transformar a Educação de uma região

Cybele Amado discute sobre articulação entre pessoas e redes

Cybele Amado,

Cybele Amado,
Pedagoga e presidente do Instituto Chapada de Educação e Pesquisa (Icep), em Salvador

Olá, Cybele. Sou Giovana e tenho 18 anos. Quando o Projeto Chapada começou na minha escola, eu tinha 8 anos. Adoro ler e até hoje faço leituras para as crianças da minha comunidade. Quero ser professora, mas todos dizem que eu deveria fazer jornalismo. O que eu faço?" Que educador não fica feliz em receber uma mensagem assim? Ainda mais quando ela revela que nosso trabalho, além de ter cooperado para o sucesso de alguém, o inspirou a seguir nossos passos, apesar dos percalços da profissão, que conhecemos bem. Isso me fez pensar em minha trajetória e no começo desse projeto que completa duas décadas no ano que vem, na Chapada Diamantina, Bahia.

Em 1992, recém-formada em Pedagogia e morando em Salvador, passei em um concurso público e, com uma mala cheia de livros, me mudei para Caeté-Açú, um povoado na zona rural de Palmeiras, região extremamente pobre do interior nordestino. No primeiro dia de trabalho, cheguei nervosa, mas animada para começar.

De cara, levei um choque de realidade. Sei que muitos de vocês enfrentam situações parecidas: a estrutura da escola era tão precária que, quando chovia, a classe virava uma lagoa. Não tinha material didático nem livros literários. Faltava até papel para imprimir as atividades. Muitos jovens da cidade não estavam estudando. Na sala da antiga 8ª série, grande parte dos estudantes tinha idade superior à esperada para aquela etapa de ensino. Nos anos iniciais, cerca de 70% das crianças não sabiam ler e escrever.

Eu sabia que não conseguiria mudar sozinha. Envolvi, numa rede, a secretaria, professores, a comunidade e parceiros.

Ali, percebi a gravidade da situação de nossa Educação e quanto teríamos de lutar para melhorá-la. Esse foi o pontapé para, em 1997, iniciarmos o projeto que culminaria na criação do Instituto Chapada de Educação e Pesquisa (Icep).

Começamos com uma meta pontual: diminuir a evasão na área rural de Palmeiras. O plano era investir em formação continuada. Eu sabia que não conseguiria mudar nada sozinha, então busquei parcerias. Encontrei uma fundação que tinha um programa de leitura e começamos a trabalhar juntos. Nos reunimos com a Secretaria de Educação, com docentes e com a comunidade, criando uma rede.

Com isso, o índice de evasão caiu drasticamente. Como os resultados chamaram a atenção de cidades vizinhas, iniciamos uma jornada itinerante rumo à construção coletiva de um projeto territorial. Hoje, essa rede abrange regiões da Bahia, Pernambuco e Alagoas, atingindo quase 250 mil alunos. 

Nesse tempo todo de trabalho, cresceu a certeza da atuação conjunta para fazer a diferença na vida de crianças e jovens. É preciso que gestores públicos, técnicos, diretores escolares, coordenadores e professores estejam unidos com o objetivo de transformar a Educação. É sobre isso que gostaria de conversar com vocês neste espaço que inauguro hoje. Vamos pensar, juntos, sobre o papel dessas instâncias e em como conectá-las à escola. Ah, e a Giovana, que cito no começo do texto, me encheu de orgulho quando contou em outra mensagem: "Serei professora para ajudar outras crianças a ler o mundo."

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