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Livres para ler

Quando toda a comunidade se torna leitora, o aprendizado dos alunos ganha um final feliz

POR:
Patrick Cassimiro, Karina Padial e Fernanda Salla

Enquanto arrumava cuidadosamente o acervo de livros na última prateleira do guarda-roupa do quarto, que divide com o irmão e os pais, João Carlos de Almeida Lima, menino de 8 anos, contou que seu interesse por ler começou na escola. "Meu dia preferido foi quando veio a francesa [a escritora Dorothée de Monfreid]. Tenho até uma miniatura da Torre Eiffel." Estudante do 3º ano da EMEF Célia Regina Andery Braga, no bairro de Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo, ele já sabe o que quer fazer do futuro. "Ser quem escreve livros", disse o garoto, que está se esforçando para isso. "Quanto mais leio, mais aprendo onde as vírgulas entram."

Transformar-se em uma escola capaz de estimular os alunos a ponto de que eles queiram construir pequenas bibliotecas em casa é uma conquista incrível, mas não a única da instituição paulistana. Pelos corredores, crianças e jovens contam sobre as obras de que mais gostam. As mães confessam que, agora, a parada em livrarias da região a pedido dos filhos se tornou rotina. Funcionárias trocam livros e impressões sobre os autores preferidos - Monteiro Lobato e Cecília Meirelles estão entre eles. Lá, todos leem, e muito.

Esse cenário pode não surpreender os acostumados a manter livros na cabeceira da cama para deleite diário. Aliás, se você é assim, saiba que é exceção. Sete em cada dez pessoas não leram um livro sequer no ano de 2013, de acordo com levantamento da Federação do Comércio do Rio de Janeiro. A recém-lançada pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2015, mostra que no ano passado os brasileiros leram em média 1,06 livro inteiro por trimestre - apesar isso, o número está em ascensão: em 2013, o índice tinha ficado em 0,82.

Em regiões mais pobres - como Cidade Tiradentes -, essa frequência costuma ser ainda menor. "Antes, eu não lia nem um livro por mês. Depois das iniciativas da escola, comecei a pegar emprestado até mais de um. Estou há duas semanas com o Poesia Essencial, de Roseana Murray. É muito bom!", conta Larissa Vitória Pereira Dias, 13 anos, aluna do 9º ano.

Esse oásis da leitura foi possível graças à atuação da instituição de ensino, que viu no desenvolvimento leitor de educadores, funcionários, familiares e comunidade uma forma de inserir crianças e jovens no universo da cultura letrada. No Brasil, professores superam os pais como os principais influenciadores desse hábito, ainda de acordo com a pesquisa sobre leitura no país. Como afirma a escritora Ana Maria Machado no livro Contracorrente: Conversas sobre Leitura e Política (160 págs., Ed. Ática, tel. 11/3346-3000, 28 reais), "na maioria das vezes, grande parte da população só vai se tornar leitora se tiver contato com bons livros através da escola e do sistema de ensino".

O Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), divulgado este ano, revela que apenas 8% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são alfabetizados proficientes, o que quer dizer, entre outras coisas, que conseguem opinar sobre o posicionamento ou estilo do autor de um texto. Quando lemos, nos tornamos fluentes na língua, interpretamos textos com mais habilidade, selecionamos melhor a informação que recebemos e nos transformamos em pessoas mais críticas e conscientes. Os efeitos podem ser sentidos na sala de aula. O estudo Ler ou Não Ler: A Meta-análise da Exposição à Leitura da Infância à Juventude, das holandesas Suzanne Mol e Adriana Bus, aponta, por exemplo, que o desempenho de alunos leitores do Ensino Médio é 30% maior do que os demais em relação à compreensão de textos e à ortografia.

Segundo Priscila Arce, coordenadora pedagógica da escola de João Carlos, força de vontade foi essencial para a mudança ocorrida por lá. Mas ela só não basta: o tema tem de se constituir em um projeto da instituição, encampado pela equipe gestora, com ações sistemáticas voltadas a cada um dos segmentos da comunidade escolar. A começar pelos próprios estudantes.

 

"Outro dia, no shopping, compramos um livro e o João nem esperou chegar em casa. Ele sentou no meio de uma loja e já começou a ler."

ROSENI MOURA, mãe do aluno João Carlos, da EMEF Célia Regina Andery Braga

A organização dos livros e os pufes tornam a sala de leitura da escola atrativa e aconchegante

Aluno hoje, leitor sempre

Uma biblioteca convidativa e aconchegante, com pufes para que todos possam ler confortavelmente, é apenas um dos ambientes oferecidos aos alunos da EMEF Célia Regina Andery Braga. Os corredores contam com caixas móveis e uma estante em forma de árvore, em que estão disponíveis dezenas de obras, dos mais diversos gêneros e estilos. "O que mais gosto é de poesia. Ano passado, até escrevi uma", conta João Victor Carvalho da Silva, 12 anos, estudante do 7º ano. 

Nem toda escola tem um espaço dedicado à interação com os livros. Segundo o Censo Escolar de 2014, apenas 36% têm biblioteca e 21% possuem sala de leitura. Algumas iniciativas federais ajudam a criar um acervo, como o Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE). Porém, o apoio das redes é essencial para viabilizar o acesso a recursos e utilizá-los da melhor forma.

Em Ponta Grossa, a 115 quilômetros de Curitiba, a equipe técnica da secretaria visitou as mais de 120 unidades da rede para orientar os gestores na implantação ou melhoria dos espaços de leitura. Um ônibus-biblioteca também circula entre elas com uma contadora de histórias. Assim queé estacionado, as turmas são convidadas a participar da contação. Depois, alunos e comunidade realizam leituras das obras do acervo itinerante.

Não basta, no entanto, disponibilizar qualquer livro aos estudantes. Eles devem ser escolhidos com cuidado, garantindo uma grande diversidade literária, com "textos que apresentem vocabulário rico, façam uso inteligente da linguagem, provoquem, façam pensar e não subestimem a capacidade de compreensão dos leitores", como afirma Denise Guilherme, curadora da rede de leitura A Taba, no artigo Desafio da Formação de Leitores na Escola.

Isso não significa enfiar os clássicos goela abaixo dos alunos. É importante considerar o que chama a atenção deles. Com frequência, esse interesse recairá sobre as obras mais famosas do momento. "O jovem não vai à biblioteca pedir um exemplar do Lima Barreto porque, em um primeiro momento, nem sabe que esse autor existe. Ele conhece Crepúsculo [de Stephenie Meyer]", diz Celinha Nascimento, mestre em Literatura pela Universidade de São Paulo (USP). A passagem dos mais vendidos para textos mais desafiadores depende da intervenção de um professor ou mediador de leitura. Depois de ler a saga dos vampiros adolescentes, é possível, por exemplo, apresentar Drácula, escrito por Bram Stoker no século 19, e sugerir comparações. Com isso, a prática de eleger as próprias leituras, tão comum dos amantes dos livros, não fica forada vivência escolar e, ao mesmo tempo, a gama de possibilidades de escolha da garotada aumenta.

 

"Sou mediadora de leitura. Assim, ajudo outras crianças e a mim mesma a ler melhor. Fico feliz de encontrá-las e ouvir: 'olha, a tia da leitura'."

YASMIN DOS SANTOS (no pufe vermelho),12 anos, aluna do 8o ano da escola paulista

 

Ajudá-los a construir o próprio acervo, como vem fazendo João Carlos, os aproxima da leitura por prazer, em que se criam vínculos com aquelas histórias especiais, que despertam a atenção e a imaginação. A pequena coleção do garoto começou com uma feira organizada anualmente pela escola, em que cada aluno leva dois exemplares para casa. Os títulos são fruto de doações.

É importante também que a escola se preocupe em criar espaços para que os estudantes discutam sobre o ato de ler, em atividades realizadas tanto na biblioteca quanto nas aulas. Elas devem envolver a troca de impressões sobre as obras lidas, a descoberta dos inúmeros sentidos que podem ser atribuídos a elas e momentos de leitura compartilhada. Em classe, os professores precisam também superar práticas já incorporadas na cultura escolar. Uma delas é crer que basta estar alfabetizado para avançar sozinho e ler sem problemas. Outra é achar que os textos são meros instrumentos de estudo. Ao encará-los assim, distancia-se a leitura de suas práticas sociais.

A argentina Delia Lerner, uma das mais reconhecidas especialistas da área, é categórica: "Só se aprende ler, lendo". Ou seja, é preciso ler muito, textos dos mais diversos gêneros e níveis de complexidade, para se aprimorar nessa competência. Isso significa também que o trabalho com o tema deve acompanhar todo o período de escolarização e não ficar restrito às séries iniciais.

 

Quando o professor é modelo

Desinibidos, os alunos adoram ir à feira livre perto da escola e ler para firantes e clientes

"Eu já era leitora, mas quando fui designada para trabalhar com essa prática, tive de passar por um processo de formação, com muito estudo. Precisamos de pares dispostos a encarar essa mudança com a gente", diz Ângela Maris Araújo, professora orientadora da sala de leitura da escola de Cidade Tiradentes. A fala dela resume um princípio dequem quer despertar nos estudantes o interesse em ler: precisa ser, ele mesmo, bom leitor. Isso não significa ser apenas um indivíduo letrado, mas alguém que lê sempre, diferentes produtos. Todos os docentes devem se reconhecer como leitores e gostar de se entender nessa condição.

No entanto, como esperar essa postura quando sabemos que, em geral, as instituições que os professores frequentam, da Educação Infantil até a universidade, não os ajudam a adquirir esse conhecimento? De que modo podem ensinar gosto pela leitura se, eles próprios, não foram ensinados? A saída está em uma formação em serviço que desenvolva essa competência.

Em Ponta Grossa, a rede planeja encontros de estudo com os docentes da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Ao longo de um semestre, eles participam de reuniões mensais para refletir sobre o assunto. As dificuldades e as demandas identificadas por meio dos diagnósticos e das fichas sobre a aprendizagem dos alunos servem de embasamento para a equipe da secretaria planejar as formações.

Na escola, a coordenação pedagógica deve elaborar um plano formativo que permita aos educadores avaliar as situações didáticas propostas por eles aos alunos e elaborar atividades diversificadas que façam parte do cotidiano das turmas. Isso inclui pensar sobre as perguntas e intervenções que farão, o modo como apresentarão os livros e de que forma mediarão as discussões. Ainda dá para programar, ao longo do ano, algumas rodas de leitura temáticas ? pode ser do autor preferido de cada um ou de literatura afro-brasileira. Assim, os comportamentos leitores que querem desenvolver nos alunos são vivenciados também por eles. Aliás, os professores devem ser incluídos nas ações originalmente pensadas para os estudantes, como a ida a uma biblioteca pública e a conversa com autores visitantes.

 

"Sempre empresto livros da escola. Meus óculos estão quebrados, então meu filho lê para mim. Mas logo vou comprar novos para voltar a ler sozinha."

MARIA APARECIDA DOS SANTOS (à direita na foto), auxiliar de limpeza em Cidade Tiradentes

 

Do lado de dentro e de fora

As funcionárias usam a troca de turno para escolher livros nas caixas literárias

É com exemplos de leitores que os alunos se tornam, eles também, bons com os livros. E esse modelo não se restringe à figura do professor. "Nasci aqui. Não literalmente, mas literariamente", conta a inspetora de alunos Debora Almeida. Na escola paulistana, ela é uma das maiores referências para os alunos. A funcionária sempre gostou de escrever, mas foi incentivada por projetos da instituição que se aproximou ainda mais dos textos. Em um sarau literário organizado pela escola, Debora tomou coragem de tirar da gaveta poemas de sua autoria sobre a vida em Cidade Tiradentes e os declamou em público. A identificação dos estudantes foi tanta que, em 2015, a homenagearam no evento. Hoje, a inspetora é também mediadora de leitura e publicará uma coletânea de contos, a Vozes da Periferia.

Atingir todos os públicos (internos e externos) é a chave para criar uma comunidade leitora, impactando a aprendizagem dos alunos. Para isso, é preciso pensar em estratégias para envolver também moradores do entorno e famílias no mundo letrado. "Nossa biblioteca e a árvore de leitura ficam à disposição para que qualquer um possa fazer empréstimos", diz a coordenadora Priscila.

"Convidá-los para um concurso de poesia ou para contarem histórias são mais algumas das opções", diz Zoara Faila, gerente de projetos do Instituto Pró-Livro. Priscila conta que, no ano passado, o avô de uma aluna foi conversar com os estudantes sobre um livro escrito por ele em 1994, o que tinha aprendido em seu processo como autor e como a leitura o ajudou.

Além de permanecer com as portas abertas para a comunidade, a escola faz o movimento oposto: semanalmente, os estudantes vão à feira livre do bairro e abordam feirantes e consumidores se oferecendo para ler para eles. "Eles adoram! Dizem que, quanto mais poemas, melhor", se entusiasma João Victor, o menino que ama poesias.

A grande conquista do trabalho se dá justamente quando gestores, professores, funcionários, familiares e alunos passam a compartilhar suas experiências como leitores. É a prova de que ler deixou de ser visto como obrigação e se tornou também um prazer. Para todos.


Fotos: Ricardo Toscani