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Lições do dia em que a polícia entrou na escola

Da pesquisa de clima ao diálogo, como evitar que confitos saiam do controle

POR:
Karina Padial, Fernanda Salla e Victor Malta

Ventiladores nas classes, acesso à sala de informática e à biblioteca. Essa era a lista de reivindicações dos alunos da EE Marilena Piumbato Chaparro, na periferia de São Paulo, quando resolveram protestar no dia 11 de março, na hora do recreio. Ao toque do sinal, se recusaram a retornar às aulas. O que aconteceu depois ainda não está claro, mas os resultados foram desastrosos: estudantes feridos por policiais militares.

As consequências desse triste desfecho são o sentimento de injustiça por parte dos alunos, a quebra da confiança na gestão e a falta de clima para aprender e ensinar. Diante desse cenário, algumas lições podem ser tiradas. Uma delas é a de que a polícia não é a melhor opção para lidar com conflitos escolares. PM é para crimes.

O caso não é isolado. Forças de segurança são presença frequente em instituições de ensino, como revelam notícias recentes. É uma situação tensa, polarizada e debatida nas redes sociais. Aliás, os comentários que ilustram esta reportagem são verdadeiros, retirados das páginas de GESTÃO ESCOLAR e NOVA ESCOLA no Facebook. Eles mostram que muitos educadores defendem a corporação na escola. Eles têm medo, muitas vezes, com razão. Mas o medo não é um bom conselheiro.

O abuso praticado na escola paulista está registrado nas fotos e nos vídeos de celulares que não foram quebrados pelos guardas. Nelas, meninos e meninas são arrastados e atingidos com golpes de cassetete e jatos de spray de pimenta. Nas redes sociais, professores e estudantes da instituição dizem que o manifesto era pacífico e ordeiro, e que não houve tempo para negociações. Um docente afirma que a polícia chegou gritando: "Nesta escola não tem alunos, não, somente marginais". Logo partiu para a agressão.

A postura descrita não corresponde ao discurso da própria polícia. Segundo ela "eventuais problemas no interior de estabelecimentos de ensino devem ser resolvidos priorizando-se o diálogo e a negociação". A disciplina e a fiscalização dentro das unidades são de responsabilidade dos diretores escolares, e são eles que, em geral, a acionam quando há crime. Não era esse o caso da manifestação na escola paulistana.

O episódio ganhou repercussão na imprensa. Porém, os relatos sobre a pedido de quem a PM entrou na instituição ainda são conflitantes. Uma versão sugere que, sem controle da situação, a diretora, no cargo há somente dois meses, teria feito o chamado. Outra dá conta de que foi uma policial do Programa Educacional de Resistência às Drogas (Proerd), que estava lá no momento.

Em comunicado, a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo diz que "a Diretoria de Ensino da Região Norte retirou a diretora do cargo já na sexta-feira, dia 11, tão logo tomou conhecimento dos fatos", embora nem a pasta tenha certeza da atuação dela no caso. Questionada, então, sobre a razão do afastamento, a resposta foi que não se deu apenas por conta do incidente, mas porque ela ?não havia feito nenhuma grande melhoria na escola?. Contatada por GESTÃO ESCOLAR, a gestora aceitou contar sua visão do ocorrido. Mais tarde, desistiu. 

Rolou protesto. E agora?

O conflito  
No calor do momento, pare o que estiver fazendo, peça calma aos alunos e avise que está disposto a escutá-los. Solicite que escolham representantes e, então, inicie a conversa sobre as reivindicações.

A resistência  
Se os estudantes não quiserem voltar à classe, é porque eles ainda não foram ouvidos como gostariam. Nessa situação,  não deixe a discussão para depois.  Sugira os próximos passos.

O vandalismo 
Em caso de depredação, aguarde a situação se aquietar e, então, proponha uma reparação para o dano causado.

A solução  
Para resolver a demanda, peça sugestões aos representantes. Se preciso, forme também comissões de docentes e pais para que as propostas saiam do papel.

Despreparo e insegurança

Mesmo sem ouvir o relato da diretora, não é leviano dizer que a intenção dela - assim como de qualquer educador que recorre à polícia - passava longe de transformar o pátio em cenário de guerra. Todo gestor quer o melhor para sua escola.  Os motivos que levam a usar esse artifício são os mais diversos: intervir em brigas entre adolescentes e combater o uso de drogas, por exemplo. É, sem dúvida, um recurso desesperado. Mas, sendo assim, por que a medida é tão frequente? Como o desespero virou rotina? E de que maneira evitar chegar a esse ponto drástico?

As respostas apontam para duas direções. A primeira é a falha na formação dos educadores. "Não somos preparados para lidar com os conflitos, uma das principais demandas da escola hoje em dia. Também não somos avaliados em relação a isso nas seleções pelas quais passamos na carreira. Assim, ao chegar à unidade e nos deparar com esses problemas, nos sentimos incompetentes para solucioná-los e transferimos para outros profissionais a responsabilidade de resolvê-los", diz Luciene Tognetta, líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem).

A segunda razão, de acordo com Maura Barbosa, coordenadora pedagógica da Comunidade Educativa Cedac, em São Paulo, é o fato de o gestor, muitas vezes, ter de tomar as decisões sozinho. "A troca com os pares permitiria que boas estratégias fossem replicadas e evitaria decisões arbitrárias como a que ocorreu. Porém, o diretor acaba tendo poucos canais de interlocução."

Esse despreparo e o isolamento na função também criam confusões sobre o que é violência passível de intervenção externa e o que passa longe de ser caso de polícia. Atos pacíficos, cujas reivindicações visam o bem comum, são, além de legítimos, saudáveis para o exercício da democracia e da cidadania. Tanto que espelham eventos semelhantes praticados fora dos muros da escola. 

 

Confronto x formação

Quando se trata da resolução dos conflitos, há grande diferença entre o trabalho da polícia - voltado a combater crimes - e o da escola - que é formar os alunos para a sociedade. Isso exige atuar no desenvolvimento dos aspectos morais e subjetivos dos estudantes, além do cognitivo.

E aí vale recorrer a Jean Piaget (1896-1980), um dos principais pensadores da Psicologia da Educação. Segundo ele, nessa fase, a obediência às regras por medo de punição ou imposição de uma autoridade externa (heteronomia) deve dar lugar ao cumprimento de normas baseado na compreensão que se tem delas e no sentimento de que elas são justas e necessárias (autonomia). Aprendizado possível somente quando os educadores escutam os alunos e intervêm de forma a ajudá-los a tomar consciência de seus atos e se responsabilizar por eles.

Certamente, não é o que ocorre quando a polícia é envolvida. A repressão pode ter efeito contrário ao desejado e intensificar os atos de rebeldia. "O elo de confiança da gestão com os alunos se rompe imediatamente", diz Raul Aragão Martins, especialista em Psicologia da Educação pela Universidade Estadual de São Paulo (Unesp).

 

O que o episódio ensina

Formar os educadores 
Os horários de trabalho coletivo são oportunidades de formação em serviço,  em que é possível refletir sobre situações reais de conflito enfrentadas na escola  sob a luz da teoria. 

Evitar atitudes autoritárias
A polícia não é solução para questões de comportamento, mas para lidar com crimes. Os alunos só aceitam os educadores como autoridade quando eles os escutam, os respeitam e são justos.

Criar canais de diálogo  
Quando os estudantes têm abertura para colocar suas opiniões e participar ativamente das decisões na instituição de ensino, passam a colaborar na melhoria dos processos e na busca por respostas pacíficas aos problemas enfrentados. A chave é ouvilos ativamente e envolvêlos na solução.

Fazer pesquisas de clima na escola 
Indisciplina, desrespeito e agressões devem ser debatidos pelos jovens em momentos sistemáticos de reflexão sobre a convivência. Um trabalho preventivo pode ser feito com avaliações periódicas do ambiente pela comunidade escolar.

Trocar experiência com os pares  

A direção pode ser uma tarefa bastante solitária. Dessa forma, as trocas com  os pares permitem, por exemplo,  que gestores de um mesmo bairro  pensem em como minimizar a  violência na escola. Se ainda não houver grupos organizados na sua região,  use as redes sociais para reuni-los.

 

Microfone contra o caos

Nem sempre a prática é tão simples como a teoria, mas optar pelo caminho do diálogo em vez da repressão traz resultados. Um exemplo são os alcançados por Diego Mahfouz Faria Lima, diretor da EM Darcy Ribeiro, em São José do Rio Preto, a 450 quilômetros de São Paulo. No início de 2014, em sua primeira semana no cargo, ele enfrentou uma manifestação semelhante à descrita no começo da reportagem. Os alunos seguravam cartazes anunciando a "rebelião", atiravam restos da merenda e atearam fogo em cestos de lixo.

A história poderia ter terminado como a primeira, mas, em vez de chamar a polícia, Diego correu para a sala dele, pegou o microfone e pediu calma a todos. Sentou-se, então, com os estudantes no pátio e se propôs a ouvi-los, algo que nunca tinha acontecido até então.  

Com a atitude, os jovens viram que teriam no diretor um aliado. "Eles diziam que a escola estava suja e abandonada e que tinham vergonha de estudar lá", conta Diego. O gestor, então, levantou as necessidades da instituição e elaborou um plano de ação envolvendo toda a comunidade escolar. Criou canais de comunicação com os vários públicos, como o grêmio estudantil, as assembleias de turma e o conselho escolar. Desde então, os episódios de indisciplina e depredação caíram drasticamente, os casos de evasão diminuíram de 200 para dois por ano e nenhum outro protesto foi registrado. Não à toa, o projeto foi vencedor do Prêmio de Educador Nota 10 de 2015.

Para Luciene, do Gepem, alunos, docentes, funcionários e gestores também precisam conversar sobre os valores que regem a atuação da escola. "Não dá mais para basear as ações em práticas autoritárias, que já não dão certo." Há muitos caminhos para diminuir os conflitos. Um deles é não tratar os alunos como criminosos. Outro é fazer deles protagonistas do próprio desenvolvimento e, quem sabe, de notícias positivas sobre como melhoraram a Educação que recebem. 

 

*Os relatos que acompanham esta reportagem são reais. Foram retirados das páginas de GESTÃO ESCOLA e NOVA ESCOLA no Facebook.

 


Ilustrações: Victor Malta (com fotos Rovena Rosa e Fernanda Cruz/Agência Brasil)

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