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Por: Jacqueline Hamine, Raissa Pascoal e Fernanda Salla

Deu errado? Mude agora

Reveja o planejamento e ajude os alunos a aprender de verdade

Chegou abril e, junto com ele, o frio na barriga. As coisas não saíram como o esperado, apesar do esforço. Nos dois primeiros meses do ano letivo, os professores seguiram o plano elaborado e a escola se estruturou para atender ao que foi previsto. Com o fim do bimestre, porém, aparecem resultados preocupantes: as crianças do 2º ano não conseguem ler com autonomia, habilidade imprescindível para os conhecimentos que virão a seguir. Para completar, as do 4º ano estão com dificuldade na resolução de operações matemáticas básicas, como adição e subtração. O que deu errado depois de tanto planejamento? Calma, ainda dá tempo de reverter o problema sem atrasar o conteúdo e deixar alguém para trás!

Desvios de percurso são comuns. Afinal, é na interação com os alunos que as hipóteses traçadas inicialmente são postas à prova. E este mês é a época do ano ideal para readequar o planejado, já que houve tempo de colocá-lo em prática e obter informações do trabalho realizado, ao analisar quais variáveis contribuíram ou não com a aprendizagem. "Considerar ajustes no que foi programado é função do gestor. Quem faz isso tem clareza das condições que deve assegurar para que os objetivos sejam alcançados", diz Angela Luiz, coordenadora pedagógica da Comunidade Educativa Cedac, em São Paulo.

O plano de ação depende dessas análises e de eleger prioridades para que os alunos avancem, reorganizando diversas áreas da gestão escolar: financeira (incluindo materiais), espaço, tempo e equipe, além da relacionada à própria aprendizagem. Para viabilizá-lo, vale fazer uma lista do que garantir em cada uma delas.

 

De olho na aprendizagem

A situação descrita no primeiro parágrafo desta reportagem foi a enfrentada pela EMEF Doutor Anísio Dias dos Reis, em Taboão da Serra, na grande São Paulo. As observações feitas pelos educadores e as produções das crianças do 2º ano evidenciaram a defasagem no processo de alfabetização. Em vez de apontar culpados (como dizer que os alunos são incapazes ou que os professores não souberam ensinar), a diretora Priscilla Pereira Scandalo, junto com a coordenação pedagógica e a equipe docente, retomou as metas, analisou as estratégias e os resultados para pensar nas melhores formas de ajudá-las a avançar.

Ter indicadores observáveis - como relatórios de aprendizagem, sondagens e trabalhos realizados pelos estudantes - é o ponto de partida para saber como agir. "Criamos uma planilha online, com o Google Docs, com as expectativas pensadas e as habilidades de fato alcançadas pelos alunos. Além de todos poderem alimentá-la facilmente, com essa ferramenta conseguimos criar gráficos e ter um panorama de como está cada um em relação ao todo", conta Priscilla.

O próximo passo foi organizar encontros para a reflexão a respeito desses dados. Isso acontece nas reuniões semanais de formação e no conselho de classe, que ocorre a cada dois meses. Com as informações projetadas na parede, todos ajudavam a pensar nas melhores estratégias. "Só é viável replanejar em função da realidade se o gestor garantir uma pausa na rotina dos professores e do coordenador pedagógico para a discussão", afirma Rosaura Soligo, coordenadora do Instituto Abaporu de Educação e Cultura, em São Paulo.

Desse estudo profundo surgiram indicações para melhorar cada ponto de atenção observado.  "Não dá para pensar em todas as ações num só dia, pois são muitas turmas. Então, posteriormente, discuto com a vice-diretora e a coordenadora pedagógica o que podemos viabilizar já e para o bimestre seguinte. Depois, alinhamos com o restante da equipe", explica Priscilla.

Como não eram todos os alunos que estavam com defasagem, uma das decisões foi que a coordenadora pedagógica orientasse os professores a: 

  • Ter um atendimento individualizado em sala. 
  • Preparar atividades diversificadas. 
  • Fazer agrupamentos adequados.

Ela também passou a acompanhar algumas aulas para observar se as intervenções docentes estavam surtindo efeito e ajudá-los a tomar as melhores decisões no planejamento quando identificava problemas no processo de ensino de determinado conteúdo. Ao mesmo tempo, aqueles estudantes que apresentavam mais dificuldade foram incentivados a participar de grupos de apoio no contraturno, em que um professor os auxilia com os pontos mais críticos.

 

Garantir o espaço e a equipe

Os grupos foram previstos para ocorrer entre os turnos, das 12 às 14 horas, em que havia salas livres na escola. O de alfabetização já estava em funcionamento, então foi preciso somente encaixar os novos participantes e conversar com os pais para que permitissem a frequência dos filhos, já que eles ocorrem duas vezes por semana, durante duas horas. Porém, para atender as crianças do 4º ano com defasagens em Matemática, foi preciso partir do começo: solicitar à Secretaria Municipal de Educação  o envio de docentes para assumir as turmas extras - já que essa é uma iniciativa da rede - e a alimentação a mais para os alunos. "Contabilizei os participantes e passei o número para a secretaria saber a quantidade de merenda que precisaria enviar", diz a diretora.

Em 2015, a iniciativa fez com que muitos alunos retomassem o ritmo de aprendizagem já no bimestre seguinte. Isso porque tanto o professor regular quanto o responsável pelo grupo de apoio acompanhavam a evolução de cada criança e os dois trocavam informações para ter certeza de que as intervenções estavam sendo eficazes.

Em São José do Rio Preto, a 480 quilômetros de São Paulo, a diretora da EMEF Roberto Jorge, Deise Maciel de Queirós, optou por oferecer plantão de dúvidas no contraturno para ajudar a garotada de 6º ao 9º ano com dificuldade em leitura. Diferentemente do que ocorre em Taboão da Serra, as turmas são assumidas por professores da própria escola que tenham jornada de 35 horas (em vez de 25, que é o usual), algo já previsto pela Secretaria de Educação do Município. "Tirando as 25 horas que ele tem de cumprir em sala de aula, distribuí as dez restantes entre momentos para estudo, reuniões de formação, preparo de material, atendimento à comunidade e duas horas para o plantão", conta Deise, que organizou uma formação específica sobre leitura com esses profissionais para auxiliá-los a escolher as leituras abordadas e as atividades que poderiam ser feitas com a garotada, como de interpretação de texto.

Os alunos participantes são indicados pelos docentes e gestores, que avaliam as dificuldades que eles estão tendo. "Depois que todos os nomes são levantados, penso com a coordenação na organização das turmas, tanto no que diz respeito aos agrupamentos quanto na definição dos professores e horários do atendimento, ajustando às possibilidades dos estudantes", explica Deise.

Ajustar o tempo ao aluno

Há adolescentes que participam de projetos externos no período da tarde. Dessa forma, precisam ir ao plantão logo no primeiro horário, das 12 às 13 horas. Outros moram perto da instituição de ensino e podem frequentar a atividade uma hora depois. A diretora lembra que já teve dificuldade com familiares que não conseguiam levar as crianças ao plantão ou buscá-las. "Nesses casos, mudamos o horário do estudante para se adequar ao dos responsáveis. Faço uma escala para garantir que todos tenham a chance de participar." 

Alguns plantões foram pensados para os alunos que querem se preparar para as Olimpíadas de Língua Portuguesa, de Matemática ou para a seleção da escola técnica da cidade. Esses encontros são conduzidos por estagiários da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que vão à escola pelo Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid), do Ministério da Educação (MEC). Apesar de a iniciativa já estar consolidada, ela não está livre de imprevistos. "Neste ano, a universidade demorou para liberar os estagiários. Quando soubemos do atraso, começamos a reorganizar a rotina dos professores dos outros plantões, dividindo de forma diferente as horas destinadas a cada turma. Os universitários acabaram vindo, mas já tínhamos nos preparado para que os alunos não fossem prejudicados", conta Deise.

 

Mexer nas finanças

Caso não haja uma política que ampare a escola na ampliação da jornada - para desenvolver atividades de apoio - e falte orçamento para arcar com as despesas a mais, os alunos não podem ficar abandonados. "Uma alternativa é buscar parceiros dentro e fora da escola e definir as responsabilidades de cada um", afirma Gedean Ribeiro do Nascimento, doutor em Ciências da Educação e diretor da Escola Parque, em Salvador. Por exemplo, para suprir a demanda por mais materiais, como papel para as atividades extras, é possível utilizar o dinheiro recebido pelo Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE), do MEC, calculando os gastos escolares que podem ser enxugados para realocar os recursos. Também vale recorrer a possíveis doadores na comunidade.

Até os educadores mais experientes estão sujeitos a imprevistos no caminho, mas assumir uma postura reflexiva sobre o que é feito na escola minimiza os problemas e coopera para que o realizado surta efeito. Segundo o pedagogo americano Donald Schön (1930-1997), autor do livro Educando o Profissional Reflexivo - Um Novo Design para o Ensino e a Aprendizagem (Ed. Artmed, 256 págs., tel. 0800-703- 3444, 97 reais), há três formas de refletir: durante a ação (sobre o que está acontecendo), depois que ela já ocorreu (o que deu certo e aquilo que saiu errado) e uma posterior, avaliando o que foi feito nas duas etapas anteriores. Assim, é possível analisar se o que foi pensado na época foi produtivo e acompanhar o desenvolvimento do trabalho realizado.

Rosaura, do Instituto Abaporu de Educação e Cultura, ainda acrescenta uma quarta etapa de reflexão. "Chamo do 'e se...'", afirma ela. Por exemplo: "E se os alunos não escreverem o próprio nome até o fim do primeiro bimestre?", "E se um professor não der conta do conteúdo?", "E se eu não tiver material e dinheiro para executar um projeto?". Quando faz esses levantamentos hipotéticos, o gestor traz todo seu repertório de considerações e já consegue prever algumas saídas.

A direção tem um papel central na garantia das condições para o trabalho pedagógico. Além de prever o tempo e os recursos necessários, cabe a ela orientar cada membro da equipe sobre como agir para identificar e solucionar os problemas. Por exemplo, os professores devem ter clareza dos indicativos de aprendizagem e saber que não serão punidos pelo mau resultado da turma. "A capacidade reflexiva deve se estender para todos", diz Rúbia Cristina Cruz, doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Assim, o ano segue sem sufocos para os estudantes e para  os educadores. 


Foto: Fernando Gazinhato