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Readaptados tratados sem estereótipos

Integração à escola deve levar em conta as limitações e habilidades deles

POR:
Jacqueline Hamine, Karina Padial e Fernanda Salla

O que fazer quando, impedido por problemas de saúde, um professor precisa ser afastado do espaço que o constitui como profissional: a sala de aula? Essa é a realidade dos readaptados, que, por não poder mais exercer seu ofício original, são realocados em outros trabalhos. A solução para a questão fica nas mãos dos gestores, que os recebem na escola após a nova condição. 

Maria Fernanda Siqueira Dias se deparou com essa situação ao assumir a direção da EE Zenaide Pereto Ribeiro Rocha, em Mococa, a 265 quilômetros de São Paulo, no fim de 2014. Eram cinco os readaptados da instituição. Sem atividades definidas, ora estavam encostados, sem nada para fazer, ora andavam pelo local à procura de uma ocupação. Logo, ela viu que as coisas não podiam ficar assim e chamou-os para uma reunião. Era o primeiro convite do tipo que recebiam. 

A diretora pediu que cada um falasse sobre suas experiências profissionais, limitações e o que gostariam de fazer. Rosi Tomura, professora de Geografia, contou que estava fora da docência há 14 anos por depressão e fobia social, e que passou os últimos dois no almoxarifado da instituição controlando a entrada e saída de materiais. "

Não houve abertura para que eu propusesse um projeto que me aproximasse da área pedagógica." 

 

 

maria fernanda siqueira dias, diretora da ee zenaide pereto ribeiro rocha

Com as informações, Maria Fernanda sugeriu novas funções para cada um, rediscutidas de acordo com os interesses deles. "São muitas as demandas pedagógicas da escola. Certamente, é possível encontrar uma forma de todos contribuírem", afirma. Apesar de Rosi, por exemplo, não poder mais trabalhar diretamente com os alunos - afinal, foram cenas de violência presenciadas ao longo do magistério que impulsionaram seus problemas psicológicos -, nada a impedia de contribuir com o planejamento da escola.

Ela passou a atuar na elaboração de estratégias para reduzir as faltas e a evasão escolar. Também é presidente da Associação de Pais e Mestres (APM). "Agora, me sinto valorizada, inclusive, pelos meus colegas, com os quais há uma frequente interlocução", diz.

Falta de diretriz

Acolher e respeitar esses professores, inserindo-os de maneira produtiva na escola, é urgente. Porém, sem apoio e orientação, a equipe gestora, muitas vezes, não sabe o que fazer e acaba destinando a eles tarefas inadequadas. O que deveria representar o fim do sofrimento do educador, por ele não estar mais em contato com o que prejudicou sua saúde, torna-se um agravante no quadro clínico dele. "As sensações de abandono e de marginalidade são tão presentes que, não raro, quem apresenta limitação somente física passa a ter transtornos psicológicos", afirma Maria de Lourdes Pezzuol, professora que já esteve readaptada e estuda o assunto desde 2006.

A perícia médica que avalia as condições de saúde do professor afastado, na maioria dos estados e municípios, não é feita pela Secretaria de Educação, mas por profissionais que atendem outros servidores. Por não saberem as especificidades de cada atividade, o laudo se resume a uma lista de proibições, como ?não carregar peso?. 

Só no estado de São Paulo, a Secretaria de Educação afirma que 15,7 mil estão nessa condição ? 33% a mais do que 2011. Na capital paulista, segundo o Atlas Municipal de Gestão de Pessoas da Prefeitura, de 2013, a pasta é a que contabiliza mais servidores readaptados: 8.451, diante de 1.199 da Segurança Urbana, a segunda colocada. Problemas psicológicos, ortopédicos e de voz são os que mais tiram os docentes das funções originais. ?Mas por trás disso há aspectos políticos, como desvalorização da carreira e péssimas condições de trabalho?, diz Sandra Noveletto Antunes, mestre em Educação pela Universidade Metodista, em São Paulo, que pesquisou o tema.

Visibilidade gera apoio

Graças à mobilização de readaptadas de Santo André, na Grande São Paulo, a rede vem construindo um caminho diferente e se tornou aliada na melhoria das condições desse público. Elas enviaram um dossiê sobre a situação em que se encontravam ao secretário, dando visibilidade ao tema. A primeira conquista foi a contratação de uma psicóloga do trabalho, que formou um grupo de apoio. ?Nas reuniões semanais, discutimos desafios e demandas deles", diz Maria do Carmo Fidalgo, atualmente no cargo. 

 

MÁRCIA APARECIDA DE ALMEIDA, VICE-DIRETORA DA EMEIEF CHICO MENDEs

 

Outro avanço foi a valorização profissional. Alguns desses professores assumiram a vice-direção de unidades da rede. É o caso de Márcia Aparecida de Almeida, readaptada por fibromialgia e depressão, doenças com estreita relação que, entre outras coisas, restringem os movimentos. Agora, ela compõe a equipe gestora da EMEIEF Chico Mendes. "Estava na Secretaria de Educação em um trabalho administrativo, mas o que eu gosto mesmo é do contato com os alunos", afirma.

Para Gilmar Silvério, secretário de Educação do município, esse apoio qualifica a atuação de professores e gestores. O próximo passo é compor uma equipe multidisciplinar que acompanhe a perícia para que o laudo seja norteador das funções que o docente irá exercer. "É um desperdício, inclusive de dinheiro público, colocá-lo para tirar cópias ou cuidar da portaria, algo comum de acontecer", diz Flávia Vivaldi, pesquisadora do Grupo de Estudos em Educação Moral da Universidade Estadual de Campinas (Gepem/Unicamp).

Com ou sem respaldo da rede, porém, o diretor tem de exercer seu papel de gestão e acolher esse profissional. É essencial incluí-lo nas reuniões formativas e discussões sobre o projeto político-pedagógico (PPP), além de acompanhar seu desempenho na nova função. A falta de ações para reintegrar os docentes reforça todos os estereótipos. Não raro, o readaptado é discriminado por colegas.

"Respeitar as diferenças é um valor a ser trabalhado tanto em relação aos alunos quanto aos professores. Organizar encontros periódicos com psicólogos, médicos e orientadores educacionais ajuda a equipe a entender como lidar com as doenças nesse ambiente", propõe Lívia Licciardi, doutora em conflitos na escola pela Unicamp.

 Como qualquer bom professor, os readaptados podem fazer toda a diferença no aprendizado dos alunos - mesmo que fora da sala de aula. Deixá-los encostados ou com funções aquém de suas capacidades só deteriora ainda mais a saúde deles, a relação com os demais docentes e o clima da instituição de ensino como um todo. O benefício de tratá-los adequadamente, portanto, se estende a toda a comunidade escolar.


Fotos: Silvia Zamboni. Ilustração: Estúdio Rufus