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O corpo como fonte de aprendizagem

Negligenciamos um canal de expressão e conhecimento importante ao nos focar apenas no desenvolvimento da mente

POR:
NOVA ESCOLA
Catarina Iavelberg,

Catarina Iavelberg,
assessora psicoeducacional especializada em Psicologia da Educação

Em nome da aprendizagem, nos preocupamos com o que e como ensinamos e de que maneira avaliamos os resultados. Nesse processo, nosso olhar é direcionado à comunicação (oral e escrita) do que os alunos produzem. Costumamos negligenciar uma importante modalidade de expressão que revela outros tipos de conhecimentos: a linguagem corporal.

Há algum tempo, passamos a acreditar que a escola deve se preocupar apenas com a Educação da mente. Para João Batista Freire, corpo e mente devem ser entendidos como componentes que integram um único organismo. Ambos devem ter assento na escola, não um (a mente) para aprender e o outro (o corpo) para transportar, mas ambos para se emancipar. Por causa dessa concepção de que a escola só deve mobilizar a mente, o corpo fica reduzido a um estorvo que, quanto mais quieto estiver, menos atrapalhará. Em seu livro Educação de Corpo Inteiro Teoria e Prática da Educação Física (224 págs., Ed. Scipione, tel. 11/4003-3061), Freire nos alerta que o corpo é visto, no meio educacional, como algo a ser domesticado e não como um instrumento que possibilita aprendizagens.

Já no início do Ensino Fundamental, desvalorizamos o brincar e as expressões corporais das crianças e trabalhamos para adaptar seus movimentos a quatro paredes, tornando-as atentas e estáticas. Nossas ações costumam se direcionar para os processos mentais que almejam a alfabetização, e assim deixamos de oferecer possibilidades para os alunos explorarem fisicamente o mundo ao redor. Uma pena, pois eles perdem a oportunidade de aprender pela integração entre corpo e mente, muito potente para a construção de um saber-fazer. Deveríamos ensinar como a estrutura física pode ser um veículo para captar, de maneira sensível e criativa, emoções, sentimentos, percepções e pensamentos.

"Já no início do Ensino Fundamental, desvalorizamos o brincar e as expressões corporais das crianças e trabalhamos para adaptar seus movimentos a quatro paredes, tornando-as atentas e estáticas."

O corpo não é apenas um meio para o desenvolvimento de aprendizagens, ele pode ser em si mesmo objeto de conhecimento. Não me refiro apenas ao aspecto biológico, objeto de estudo das aulas de Ciências, mas também ao histórico e social. Isto é, um elemento carregado de significados culturais. Ao longo da história, as formas de andar, gesticular e comer se modificam, bem como as expressões faciais, as ideias e mesmo sentimentos como o pudor e a vergonha. Os corpos de cada época carregam valores, crenças e regras de convivência.  Assim, não é possível desvinculá-los de um tempo e um lugar.

O conceito de corporeidade o corpo vivenciado no tempo e no espaço precisa ser retomado. A ausência de um trabalho sobre isso na escola não interfere apenas no desenvolvimento infantil mas também afeta os adolescentes. Afinal, esse estudo possibilitaria uma compreensão global sobre uma série de temas contemporâneos, como a idealização da juventude, o modelo de beleza valorizado pelas mídias, os transtornos mentais que distorcem a imagem corporal, a exemplo da anorexia e da bulimia, as relações com o consumo e os mitos e crenças sobre a sexualidade.

Portanto, são necessárias duas modalidades de ações educacionais. A primeira, a valorização de práticas por meio da dança, do teatro, da meditação e dos jogos, por exemplo, que permitam a exploração de sensações capazes de ampliar a consciência corporal dos alunos. A segunda, composta de atividades que problematizem a noção de estética e sua relação com a cultura. Esse esforço contribuirá para a aprendizagem de um saber-fazer que, ao integrar corpo e mente, fortalecerá a emancipação discente.


Foto: Tamires Kopp

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