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Por: Patrick Cassimiro, Ana Ligia Scachetti e Raissa Pascoal

Jovens e adultos

Desafios de quem faz a escola para eles (e com eles)

"O cair da tarde que anuncia a hora do descanso para grande parte da população paulistana marca, para alguns trabalhadores, o início de uma nova jornada. São homens e mulheres que não irão tão cedo para suas casas (...) tomarão o caminho de uma escola onde, apenas agora, dia e vida já avançados, retomaram uma formação precocemente interrompida.

Ao seu encontro vamos outros trabalhadores. Gente que, apesar da visão ofuscada pelo tráfego contrário, ousou assinalar, entre as opções disponíveis nesta vida, a Educação de Jovens e Adultos (EJA) como projeto de participação política na sociedade brasileira."

O trecho da tese Caminhando sobre Fronteiras: Um Estudo sobre a Escolarização de Adultos Migrantes, de Fernando Frochtengarten, coordenador pedagógico nos Cursos Noturnos do Colégio Santa Cruz, em São Paulo, descreve uma cena tão poética quanto cheia de percalços. Voltar a estudar não é fácil. Garantir condições dignas para quem toma essa decisão também é penoso.

As instituições educacionais, em geral, são pensadas para crianças e adolescentes. "O professor normalmente completa a carga horária na EJA, sem preparo. É comum que essa modalidade passe em branco na graduação", constata Roberto Catelli Júnior, coordenador da Unidade de Educação Escolar de Jovens e Adultos da Ação Educativa, em São Paulo. Então, especialmente onde espaços são divididos com outras etapas de ensino, a orgnização para os adultos costuma ser a mesma aplicada a quem estuda na idade regular. Pior: em muitos locais, serviços essenciais como biblioteca fecham após o pôr do sol.

Divulgação intensa, também para pais do diurno, aumenta matrículas em São Luís.

"Pensei em largar a escola, mas meu pai sempre fala que não somos nada sem estudar."

GABRIEL RODRIGUES SILVA, 16, aluno da UEB Primavera

 

"O primeiro desafio é se fazer visível", resume Catelli. Essa invisibilidade começa dentro da rede, que muitas vezes trata o estudante maduro como se ele fosse menos importante que os demais. Financeiramente, isso é ratificado pela determinação de que, no máximo, 15% dos recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) podem ser aplicados a essa modalidade e que o valor por aluno é 80% do custo de uma criança nas séries iniciais.

Também é necessário se mostrar para o público que se ambiciona atender. "Nenhum país faz política de Educação de adultos sem uma estratégia de mobilização da demanda", afirma Maria Clara di Pierro, da Universidade de São Paulo (USP). "Não tem gente batendo na porta como na Educação Infantil." Em São Luís, é grande a força-tarefa para disseminar a abertura de inscrições. Ivone de Jesus, diretora da UEB Primavera, que tem EJA à noite, faz anúncios na rádio do bairro, coloca um cartaz na frente da escola e fala com todos na reunião de pais do diurno. "Neste ano, farei uma carta para os familiares para sensibilizá-los sobre quanto é importante estudar e, assim, colaborar com o aprendizado dos filhos", conta.

Gabriel Rodrigues Silva, 16 anos, frequentou o ensino regular na instituição, reprovou e se afastou das aulas. Como a divulgação é intensa, ele já sabia da existência da EJA. "Pensei em largar, mas meu pai sempre fala que não somos nada sem estudar", relata. "Não sabia como a EJA funcionava, então, fui até lá, os funcionários e a diretora me explicaram e falaram que as matrículas estavam abertas." Agora, ele finaliza o Fundamental.

Quando a barreira inicial é vencida e a pessoa chega para se matricular, as escolas têm o cuidado de não dificultar o ingresso na instituição, mesmo que faltem documentos. "Aplicamos um teste para saber para qual ano o estudante vai e não deixamos ele sem aula", assegura Áurea da Silva Borges, da Secretaria de Educação de São Luís.

Longe de acabar

Em 1977, o senador Darcy Ribeiro (1922-1997) disse que, como a maior parte dos analfabetos pertencia às camadas mais velhas e mais pobres e, portanto, mais suscetíveis à morte, a erradicação do analfabetismo era questão de tempo, não precisava de investimentos. Bastaria alfabetizar as crianças. Algumas décadas depois, a sombra de que a EJA não tem futuro segue presente.

Mas, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), de 2013, há, no Brasil, 8,5% de analfabetos com mais de 15 anos, cerca de 500 mil crianças de 6 a 14 anos fora da escola e 47% de jovens de 19 anos que não concluíram o Ensino Médio. Esses dados e a constatação de educadores mostram que a modalidade tende a se transformar,  sim. Estudantes mais jovens, menor pro-cura nos anos iniciais e aumento do interesse pelo Ensino Médio (segundo a Pnad, 41,1% dos que frequentam a EJA estão nessa etapa) já são evidentes. "O aluno tradicional foi sendo substituído por um mais jovem, que já frequentou a escola, foi excluído, portanto, vê nela um elemento de conflito e leva isso para o noturno", destaca Sergio Haddad, também da Ação Educativa.

Modificar-se, porém, é diferente de acabar. Quem atua na EJA precisa se manter em reflexão e buscar se reconectar com o público em mutação. "É necessário desenvolver uma lógica de acolhimento e motivação para que o aluno retome a confiança na sua capacidade de aprender e supere o estigma que a pessoa de baixa escolaridade tem na nossa sociedade", avalia Di Pierro.

Diretora do CIEJA de São Paulo articula parcerias comoutros serviçospúblicos

"Sem Educação, é difícil encontrar um emprego, ainda mais com o preconceito que sofremos."

FERNANDA GANDINI, 45, aluna do CIEJA Cambuci

 

Os pesquisadores citam experiências desenhadas para atender perfis específicos e que se articularam com outros setores da sociedade para assegurar apoios importantes para a manutenção da frequência às aulas. A Secretaria de Direitos Humanos de São Paulo criou, em 2015, o Transcidadania, para gerar oportunidades a travestis e transexuais em situação de vulnerabilidade social.

Os participantes recebem um auxílio mensal enquanto concluem a escolaridade. Boa parte dos alunos foi direcionada para o CIEJA Cambuci, que oferece do 1º ao 9º ano. A instituição firmou parceria com as secretarias de Saúde e de Políticas para as Mulheres e com médicos, psicólogos e assistentes sociais da prefeitura, e intensificou as reflexões da equipe sobre gênero e diversidade. "Com o Transcidadania, passamos a ser vistas. Aqui, somos todas tratadas como iguais", comemora Melissa de Oliveira, 38 anos. Fernanda Gandini, 45, acrescenta: "Sem Educação, é difícil encontrar um emprego, ainda mais com o preconceito que sofremos", diz. Ambas são mulheres transexuais que voltaram à sala de aula.

O CIEJA ainda recebe idosos, donas de casa, pessoas com deficiência, adolescentes em liberdade assistida ou abrigados, migrantes e imigrantes. Em muitos casos, ocorrem parcerias com outros serviços públicos. "As secretarias envolvidas fazem um relatório e, com base nele, planejamos o modelo mais apropriado para cada aluno", conta a diretora Maria Adélia Ruotolo. Denise de Abreuassistente pedagógica educacional, ressalta que, para atuar no CIEJA, é necessário estar aberto às diferenças. Não pode ter preconceito. "Muitos dos que estudam aqui largaram a escola porque sofreram discriminação e bullying", lembra.

Contra a evasão, flexibilidade

Outra sombra que assusta quem atua na EJA é a ameaça de evasão. Afinal, ao contrário da Educação Básica regular, obrigatória dos 4 aos 17 anos, a modalidade é, geralmente, uma opção. "Ninguém consegue estar presente das 19 às 23 horas, cinco dias por semana", opina Catelli. Sem precarizar, ele sugere, deve-se buscar modelos flexíveis, com menos horas presenciais e que permitam ritmos diferenciados, pensando em quem trabalha ou tem filhos, por exemplo.

O CMEJA Professor Doutor André Franco Montoro, em Jundiaí, a 47 quilômetros de São Paulo, funciona das 7h30 às 22h30 e recebe homens e mulheres de 15 a 87 anos. Para chegar aos mais de 5 mil alunos, ainda são organizadas classes em 13 núcleos descentralizados. Os cursos - divididos em quatro módulos semestrais do Ensino Fundamental e em três do Médio - possuem uma versão presencial e outra semipresencial. Na primeira, há duas horas e meia diárias em classe e outras atividades são feitas em casa. No semipresencial, as aulas acontecem três vezes por semana, sendo que a presença em um dos dias é quinzenal. O conteúdo é dividido por eixos, como Linguagens, que reúne Língua Portuguesa e Arte, e o aluno cumpre um módulo de cada eixo por vez.

Até 2014, o participante do modelo semipresencial fazia tudo fora da escola e só comparecia quando precisava tirar dúvidas. Pessoas que estavam há anos sem estudar recebiam uma apostila para seguir sozinhas e não sabiam por onde começar. "Nos orientamos pelos ensinamentos de Paulo Freire (1921-1997). Para haver Educação, deve existir docente e discente. Se o aluno não está aqui, essa relação, com problematização do conhecimento, não existe", considera o diretor Ronaldo Pereira. Com a mudança, a equipe percebeu que a taxa de evasão despencou.

O abandono também é evitado com a preparação de educadores e funcionários. "Fizemos uma formação pesada com esses profissionais e trocamos algumas pessoas que não tinham perfil para lidar com o público. Refletimos com eles que o adulto é um sujeito de direito e que não estamos fazendo um favor", afirma o diretor. Estudante do CMEJA, a costureira Marina da Cruz Bueno, 64 anos, voltou para a escola depois de mais de cinco décadas. "Estou adorando, a cabeça fica melhor", avalia. "Os professores conversam bastante com a gente e procuram incentivar que todo mundo continue os estudos. Quando eu terminar o Fundamental, pretendo ir para o Ensino Médio e, depois, fazer uma faculdade para a terceira idade."

Diálogo democrático

Autores inspirados por Paulo Freire apontam que a resposta para tantas questões está nos próprios alunos. "Nesse empreendimento educativo ? que é também político e social, e no qual tanto está ainda por ser inventado ? será valiosa a participação de educandos jovens e adultos, pois sua condição de trabalhadores os habilita a participar de negociações sobre conteúdos e métodos de ensino e aprendizagem de um ponto de vista muito peculiar", escreve Vera Masagão Ribeiro, no artigo A Formação de Educadores e a Constituição da Educação de Jovens e Adultos como Campo Pedagógico.

Freire propõe, em Educação como Prática da Liberdade (192 págs., Ed. Paz e Terra, 11/ 3286 0802, 39,90 reais), uma Pedagogia de Comunicação, em que professor e aluno dialoguem sobre temas que vão basear o trabalho em sala de aula. Em Jundiaí, todo início de ano, é feita uma consulta aos estudantes para saber o que esperam da escola e a gestão aproveita para identificar necessidades e insatisfações. "Já nos pediram para trocar as carteiras, melhorar a acessibilidade e reformar a entrada. Vamos fazendo os ajustes na medida do possível", conta Ronaldo. Além disso, os alunos são bastante ativos na escolha dos projetos. "Os saberes dos jovens e dos adultos precisam ser o ponto de partida de qualquer processo", diz.

No esforço de rever os conteúdos da EJA, a integração com o mercado de trabalho é um ponto pacífico e foi incluída no Plano Nacional de Educação (PNE). A meta: ter 25% das matrículas integradas à Educação profissional. Para isso, São Luís conta com o apoio do Projovem Urbano, programa do governo federal, em algumas unidades. "Mesmo que não haja um curso de qualificação profissional na escola, os princípios que norteiam o mundo do trabalho devem ser levados para dentro das aulas", diz Áurea, da secretaria.

Funcionários também participam de formação para respeitar os alunos em Jundiaí.

"Quando terminar o Fundamental, pretendo ir para o Ensino Médio e, depois, fazer uma faculdade para a terceira idade."

MARINA DA CRUZ BUENO, 64, aluna do CMEJA, em Jundiaí

 

Procurado para comentar as iniciativas nessa modalidade de ensino e o alcance das metas, o Ministério da Educação (MEC) não se pronunciou até o fechamento desta reportagem. A análise sobre o que já se alcançou e o que precisa ser feito é prejudicada pela falta de indicadores. Diferentemente de outras áreas da Educação Básica, que contam, pelo menos, com dados provenientes das avaliações externas, a EJA vive no escuro.

Isso corrobora a noção de que, para quem não teve acesso a nada, qualquer ensino é suficiente. Não é. "Os sistemas estão focados em melhorar a qualidade no Fundamental e Médio e em suprir os déficits da Educação Infantil, então a EJA tem ocupado o último lugar na hierarquia de prioridades", avalia Di Pierro. "Precisamos cultivar a cultura do direito à Educação em qualquer idade. Não podemos responsabilizar o sujeito pela relação intermitente que ele teve com a escola."


Fotos: Herberth Brand, Raoni Maddalena e Mariana Pekin