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Aproximar-se dos jovens é um desafio

Segundo coordenadora da Fundação Carlos Chagas, currículos devem considerar aspirações dos alunos

POR:
Rosi Rico e Victor Malta
Gisela Tartuce,

Gisela Tartuce,
Coordenadora da pesquisa da Fundação Carlos Chagas (FCC).

Despertar interesse nos jovens para que eles queiram permanecer na escola tem sido o grande nó do Ensino Médio. Muitos acreditam que a dificuldade nessa luta tem como um dos responsáveis justamente o currículo, que teria excesso de conteúdos e seria distante das aspirações dos alunos. Mudanças, portanto, deveriam incluir revisão no volume de indicações sobre o que ensinar em cada disciplina. Nesta entrevista, Gisela Lobo Tartuce, coordenadora da pesquisa da Fundação Carlos Chagas (FCC), reflete sobre a necessidade de a escola também oferecer atividades diferenciadas, que contemplem as especificidades locais e contribuam para que os estudantes ampliem suas potencialidades e construam suas identidades.

O que é comum e o que é diverso nos currículos dos estados investigados?

Com exceção de Santa Catarina, todos os nove estados têm intenção de especificar o que ensinar. Todavia, às vezes, e a depender da disciplina, eles são bastante genéricos. Em oito documentos curriculares, há também referência a um conjunto de competências e habilidades, mas ele não necessariamente se articula aos conteúdos elencados. Aliás, é bom ressaltar que ver o grau de detalhamento de um currículo requer o olhar do especialista em cada disciplina. Não é possível generalizar. Em nossas análises feitas para Língua Portuguesa, Matemática e História, percebemos que um mesmo documento foi avaliado diferentemente conforme a área. De qualquer modo, o que chama a atenção é o uso pouco consciente de todas essas palavras - conteúdos, competências e habilidades -, que se mesclam a metas, objetivos de ensino e expectativas de aprendizagem. A impressão é de que todos acham que sabem do que se trata e não se fala a mesma língua. Há uma polissemia de  termos. 

E em relação a como ensinar, também há essa polissemia? 

Sim, como ensinar também é um assunto nebuloso: a interdisciplinaridade e a contextualização são repetidas à exaustão, mas tais conceitos parecem não orientar muito o trabalho do professor. É como se houvesse, em cada secretaria, um entendimento unívoco para eles e, também, para os docentes, do que elas significam. As Diretrizes Curriculares Nacionais parao Ensino Médio falam que o ensino deve ser organizado em áreas de conhecimento; os documentos afirmam fazer isso, mas são ordenados em disciplinas. Isso indica que os saberes dispostos em disciplinas possuem uma lógica forte e consistente. Organizar em área de conhecimento não é abrir mão disso. O que os documentos não indicam é como manter a profundidade e, ao mesmo tempo, transbordaresses limites. O desafio está, assim, tanto em orientar o que é essa interdisciplinaridade quanto em formar os professores para que eles possam articular os saberes.

O currículo do Ensino Médio tem sido apontado como uma das causas para o desinteresse dos jovens em permanecer na escola: diz-se ser desarticulado e com excesso de disciplinas.

A primeira ressalva é essa: o currículo é apenas parte da questão; não resolverá tudo. Faltam soluções para a precariedade da infraestrutura das escolas, para a formação inicial e a continuada, para a baixa atratividade da carreira docente etc. Dito isso, é preciso pensar que não são os conteúdos que são chatos; eles são excessivos. Como não há uma orientação nacional sobre até onde vai o comum, ouvimos nos estados que as escolas têm se pautado muito pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Assim, para quem quer continuar os estudos no Ensino Superior, não se coloca a questão de os conteúdos serem chatos; eles se tornam necessários. Mas na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), o Ensino Médio é a etapa final da Educação Básica, e sua finalidade não se resume à preparação para os vestibulares ou para o Enem. A escola tem de ser atrativa para todos os que nela estão, e não apenas para aqueles que têm perspectivas de projetos futuros mais bem delimitadas.

E como conseguir isso? 

Um problema que o estudo mostrou é que as escolas não têm atividades diferenciadas para que os jovens experimentem situações novas, constituam relações positivas com os pares, construam suas identidades e ampliem suas potencialidades. Claro que essas possibilidades podem ser desenvolvidas por meio da parte comum do currículo, mas talvez elas se concretizem mais facilmente na diversificada. Essa parte poderia ter a oferta de componentes curriculares mais próximos da realidade local e juvenil, tal como pregam as normatizações nacionais. Mas o efeito colateral do excesso de conteúdos é que a parte diversificada fica com pouco espaço. Nossa análise revelou que falta tempo e lugar para as especificidades da região e para os interesses dos jovens.

Quais os avanços nesse sentido?

Há iniciativas interessantes relatadas por alguns estados para a parte diversificada, mas delas pouco se viu nos documentos e nas entrevistas. Parece que não se dá muita orientação às escolas a respeito de como trabalhar essa parte, de maneira a oferecer possibilidades formativas com itinerários diversificados. Há também o fato de os estados terem limitações: faltam professores especializados, bem como previsão na carga horária para que desenvolvam atividades diversificadas. Além de avançar o debate sobre o que significa a "base comum" e"parte diversificada", é preciso garantir espaço e condições efetivas para ambas. E seria importante ter pesquisas que indicassem o volume de conteúdos em cada disciplina, para que pudesse haver realmente uma mudança nos currículos do Ensino Médio. Por outro lado, se os estados têm dificuldades na implementação da parte diversificada, alguns também têm feito esforços para tentar atrair e manter os jovens na escola. Vale a pena destacar exemplos: a oferta do ensino organizado em semestres, do Ensino Médio modular e de projetos de Educação à distância; o empenho para aumentar o ensino em tempo integral e a adesão ao Programa Ensino Médio Inovador (Proemi). Essa última é uma iniciativa que, na visão dos gestores estaduais, tem trazido benefícios para as instituições de ensino de suas redes.


Foto: Ramon Vasconcelos / Ilustração: Bruno Algarve