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Por: Rosi Rico e Victor Malta

Falta um olhar para os anos finais

Para coordenador do Cenpec, há muito detalhamento sobre conteúdos e pouca integração entre as etapas de ensino

Antônio Batista,

Antônio Batista,
Coordenador da pesquisa realizada pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).

A transição entre os primeiros e os últimos anos do Fundamental implica uma série de mudanças para alunos, professores e gestores. Elas envolvem aumento no número de docentes por turma e maneiras diferentes de organizar os conteúdos, entre outras especificidades. Trata-se, portanto, de um período delicado. Hoje, os documentos curriculares dos anos finais do Fundamental detalham muito os conteúdos, mas, em geral, têm dificuldades com a articulação entre as duas etapas de ensino. Antônio Augusto Gomes Batista, coordenador da pesquisa realizada pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), pondera sobre essa lacuna, mas também sobre quais são os avanços conquistados pelos estados.

O que os currículos analisados mostram sobre as particularidades dos anos finais do Fundamental?

Na década de 1970, foram unidos os antigos ginásio e primário para formar o En-geral, não enfrentam esse problema. Alguns até mencionam as dificuldades dessa etapa, como a necessidade de o aluno ganhar autonomia intelectual e acadêmica. Mas não é discutido nem aprofundado como isso pode ser enfrentado do ponto de vista dos conhecimentos a ser transmitidos e das maneiras de organização deles. 

 

Qual o impacto disso?

O aluno lida com uma nova realidade, que implica um jeito diferente de pensar, escrever e falar de acordo com cada área de conhecimento. Mas elas não são apenas um conjunto de conteúdos a aprender. É preciso entrar no universo discursivo de cada uma. E isso exige uma preparação. Mas os documentos pressupõem que ela já esteja dada. A consequência dessa falta de construção é a dificuldade que existe nessa passagem dos anos iniciais para os finais, e que se reflete na reprovação e na distorção idade-série, mais presentes nesse período da Educação Básica. 

A maioria dos estados optou por elaborar os currículos como matriz. Em que essa escolha implica? 

Esse modelo procura definir com mais pormenores o que ensinar, bem como a progressão e o ritmo. Muitas vezes, isso resulta num risco na hora da implementação: em vez de medir o tempo pela aquisição de conhecimento, pode ocorrer uma inversão nessa lógica. Ora, nem todos os alunos são iguais. Uma maneira pouco maleável de compreender ritmo e progressão pode conduzir as escolas a produzir mais repetência e, assim, maior distorção idade-série. Pelo que inferimos, há maneiras de controle para verificar se aquilo que está sendo ensinado é o mesmo para todos. E isso é uma coisa boa. Mas não há uma preocupação em como recuperar quem não está aprendendo. Quando há, ela se restringe a Língua Portuguesa e Matemática. Então, o medo de muitos com a definição de objetivos e da progressão é o de reforçar a cultura da reprovação. Mas isso é atribuir ao currículo algo que ele não pode resolver. A questão essencial é sobre quanto é necessário discriminar. Os estados têm optado por detalhar muito conteúdos e habilidades. Há quem defenda que isso é importante, porque assim o professor pode se organizar melhor. E há outros que acham as especificações excessivas, o que seria uma interferência no trabalho do docente. Acredito que discriminar auxilia o professor, seja ele bem ou mal formado.

A Base Nacional Comum deveria incorporar quais dos avanços já conquistados pelos estados?

A primeira coisa que o Ministério da Educação (MEC), que lidera essa iniciativa, deve fazer é apoiar o que já está sendo realizado, corrigindo certas direções que me parecem equivocadas. Uma delas é a articulação excessiva com o sistema de avaliação, que limita o processo educativo. A discriminação de conteúdo é um ponto que poderia ser aprimorado, porque isso é difícil de fazer. Existem poucos estudos sobre como explicitar conhecimentos e atribuir progressão e ritmo em cada disciplina. Na pesquisa, também vimos que alguns estados realizam maior articulação entre os documentos e a formação continuada de docentes. O MEC poderia manter isso e fazer com que o mesmo fosse feito com a formação inicial, afinal cabe a ele o acompanhamento do Ensino Superior no país. Outro ponto importante é que o ministério tem um forte papel indutor, especialmente nos estados que têm maiores limitações. O ministério deveria discutir com a sociedade que princípios éticos, visão de país, valores e concepção de Educação devem orientar os documentos e servir de critérios para a seleção de conteúdos.


Foto: Ramon Vasconcelos / Ilustração: Bruno Algarve